Indo-Pacífico, o novo palco da Guerra Fria

O eixo da disputa entre EUA e China deixa a Europa em direção ao Oriente

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden. Foto: Eduardo Munoz/AFP

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden. Foto: Eduardo Munoz/AFP

Mundo,Opinião

O surpreendente pacto defensivo entre Estados Unidos, Reino Unido e Austrália é uma decisão geoestratégica de sérias consequências. Desde logo é anunciado contendo em si próprio uma primeira medida, a de fornecer tecnologia nuclear à Austrália. Tecnologia de propulsão, não de armamento, é certo, mas a palavra nuclear não deixa dúvidas da intenção. É um acordo de hard power, que tem a ver com poder, não com influência. Tem um alvo, a China, e uma vítima imediata, a Europa.

É, talvez, demasiado cedo para prever todas as consequências e demasiado significativo para não notar as implicações que se vão ouvir longe. Seja como for, parece não haver dúvidas de que ele representa uma mudança do teatro de confrontação da Guerra Fria – deixa a Europa e muda-se para o Indo-Pacífico. Desloca-se do Ocidente para o Oriente. Segue exatamente o rastro da mudança ocorrido na riqueza mundial.

A mudança não é nova, aconteceu antes num sentido e no outro, mas nova é a rapidez com que aconteceu. Nesse sentido, esse pacto vem dar expressão geopolítica àquilo que há muito era evidente, a China ganhou a batalha da globalização. E o que é impressionante nessa vitória econômica não é só ter sido tão rápida, mas ter sido conseguida com as regras do Ocidente, com as instituições do Ocidente e com liderança ocidental. No fundo, esse pacto dá visibilidade ao que existe – uma nova ordem econômica à procura de uma nova ordem política. O pacto é defensivo também no sentido de não esconder a fragilidade: não inicia a ação, reage à situação.

Um dia depois do anúncio, a China entregou sua candidatura ao Comprehensive and Progressive Agreement for Trans-Pacific Partnership (CPTPP), um dos  maiores pactos comerciais da zona do Oceano Pacífico, que conta com 11 países, incluindo Japão, Austrália, México, Canadá, Chile e Peru, entre outros. A China pertence ao Regional Comprehensive Economic Partnership (RCEP), tratado de livre-comércio que conta com os dez Estados da Associação de Nações do Sudeste Asiático e com outros cinco parceiros, entre os quais Austrália, Nova Zelândia e Coreia do Sul. Em nenhum desses pactos econômicos figuram os Estados Unidos, o que ilustra suficientemente as diferenças estratégicas. A China pode afirmar com credibilidade que sua aposta é na cooperação econômica regional, os EUA parecem apenas preocupados em manter a hegemonia militar na região.

Quando a China reage acusando os EUA de promover uma mentalidade de Guerra Fria, é essa diferença que quer acentuar. Como observou Nicholas Spykman, um dos pensadores norte-americanos da “estratégia de contenção”, “os Estados só estão interessados num equilíbrio de poder em seu favor”. Por outro lado, a vontade chinesa de integrar os dois maiores pactos comerciais da região, enquanto os Estados Unidos estão fora, também nos diz que não há concordância regional quanto à questão da hegemonia chinesa. Se tantos países têm acordos econômicos com a China é porque existem vários níveis de divergência sobre qual é exatamente o risco regional que a China coloca. Seja como for, a competição está lançada e a retórica inicial andara à volta desses dois pontos: cooperação econômica versus poder militar, hard power versus soft power.

Esse acordo é celebrado como a primeira vitória de Boris Johnson e dos ingleses, que escolheram sair, e uma derrota da União Europeia, que gostaria de os manter. Honestamente, talvez haja alguma razão para isso. A escolha inglesa foi sempre entre a Europa e o grand large e este acordo parece dar expressão a essa nova ambição global inglesa. Acresce que a brutalidade do anúncio, sem consulta e sem informação prévia, deixa a União Europeia na desconfortável situação de se sentir num segundo plano das alianças norte-americanas, quando se fala de poder militar. A questão política não tem apenas a ver com a dimensão comercial do contrato feito entre a França e a Austrália. Vai muito mais além. Agora que as cartas foram jogadas, não me parece haver dúvidas de que as mãos da Europa estarão mais livres para construir a sua política externa. Pensando bem, é muito natural que considere a região do Indo-Pacifico demasiado longe para se preocupar e a China demasiado grande para enfrentar.

Finalmente, a reação francesa. Vejo por aí escrito que o acordo ensinou à França duras verdades, a primeira delas a de que não há sentimentos quando se trata de questões geoestratégicas. Não estou de acordo. A diplomacia deve levar em conta o orgulho nacional e não se deve esquecer que a França é uma potência nuclear e integrante permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. A diplomacia francesa não é temperamental e não reage afirmando que se tratou de “uma facada nas costas” sem pensar duas vezes. Espero que os EUA e aliados tenham calculado bem esse passo, mas não estou seguro. A impressão de querer apagar imediatamente a imagem de caos na retirada de Cabul é muito forte. Humilhar um aliado nunca foi boa política.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Ex-primeiro ministro de Portugal (2005 a 2011)

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