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Incoerência define a política externa do governo Bolsonaro

Giorgio Romano
Giorgio Romano
30 de dezembro de 2019
O primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e Jair Bolsonaro (Foto: Alan Santos/PR)

O primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e Jair Bolsonaro (Foto: Alan Santos/PR)

Brasil tenta ancorar sua política externa na mobilização permanente em torno de uma ideologia conservadora de ares fundamentalistas

Terminado o primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro, surgem várias análises sobre a Política Externa Brasileira (PEB) que apontariam para um realinhamento de forças baseado no pragmatismo e na “imposição da realidade”. O caso que comprovaria a tese seria, sobretudo, o reforço, ao invés do esfriamento, da relação com a China, maior parceiro comercial e um dos principias investidores no Brasil.

É mencionada também a não-transferência da embaixada brasileira em Israel da capital Tel Aviv para Jerusalém, ou, ainda, a não intervenção direta brasileira na política venezuelana. Mas serão essas as reais motivações? Ou, em verdade, o que seria visto como recuo diplomático expressaria, isso sim, uma incoerência como método da política externa, que, por sua vez, seria o conjunto de forças políticas e sociais que sustentam o governo e que deveriam ser atendidas? A ver.

Em princípio, não se duvida que o agronegócio compõe pilar primordial de apoio ao governo Bolsonaro. Logo, agradar este setor não pode ser visto como concessão, mas como um fator essencial que orienta a inserção internacional que este governo deseja e que, nesse aspecto, dá continuidade às opções do governo de Michel Temer e até dos governo anteriores.

Assim, o acordo com a União Européia, por exemplo, é vantajoso para o agronegócio nacional, mesmo considerando que os europeus tenham conseguido se aproveitar da fragilidade do Mercosul para impor vantagens para si, como o estabelecimento de cotas permanentes inferiores às que estavam sendo negociadas no passado. Da mesma forma, o governo nunca deixou de investir na relação com a China, em um primeiro momento tendo o vice-presidente Hamilton Mourão e os ministérios de Economia e de Agricultura como interlocutores principais.

➤ Leia também:
  • Debate de gênero dominou pauta moral do governo Bolsonaro em 2019
  • Em 2019, o povo foi às ruas e a América Latina esteve em combustão
  • O fracasso da diplomacia da submissão do governo Bolsonaro
 

O que diferencia este governo dos demais não é a suposta idiossincrasia óbvia de dar um tiro no próprio pé, mas sim a tentativa de ancorar sua política externa na mobilização permanente em torno de uma ideologia conservadora de ares fundamentalistas. Ainda, iniciativas nessa frente jamais tiveram como objetivo complicar a vida dos donos do poder: o agronegócio e o setor financeiro. Na realidade, elas operam em harmonia com outras metas, o que pode parecer contraditório ou incoerente, mas que representa nada menos do que a verdadeira marca da política externa brasileira no bolsonarismo, sem recuos de qualquer espécie.

A operacionalização dessa aparente incoerência como método governamental se dá, inclusive, com certa divisão de trabalho, mantendo-se a pauta da inserção internacional liberal a cargo dos ministérios da Economia, da Agricultura e das Minas e Energia, principalmente. Já o diálogo internacional com a base de sustentação conservadora-evangélica do governo fica por conta do Itamaraty, com auxílio do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos e, de vez em quando, das pastas da Educação e até do Meio Ambiente. É assim que o governo operou desde o início, e nada indica qualquer alteração no horizonte. E isso implica, sim, uma guinada bastante importante na política externa e na imagem internacional do Brasil.

O caso mais claro é o Oriente Médio, onde se opera, desde a campanha eleitoral, uma articulação forte em prol do Estado de Israel, com o objetivo de distanciar o Brasil da posição equilibrada de defesa da solução de dois Estados (um palestino e outro israelense). Essa política atende ao anseio da base evangélica de apoio ao bolsonarismo, para a qual Israel tem um significado central. De fato, é pouco conhecida pelo público não evangélico a centralidade que Israel ocupa em muitas das igrejas e cultos neopentecostais, com potencial de misturar facilmente a questão puramente religiosa com a questão política. Isso explica, inclusive, o fato de que as visitas de brasileiros a Israel triplicaram em 2019, o que foi possível também graças à abertura de um voo direto entre os dois países, rota estabelecida neste ano.

Não se trata de um capricho, portanto, a referida aproximação de Brasília a Tel Aviv, mas de uma política profunda e consistente. Na verdade, durante a longa pré-campanha presidencial, desde 2016, os filhos de Bolsonaro, sobretudo Carlos e Eduardo, usaram as redes sociais para criar solidariedade com Israel, “vítima do terrorismo islâmico e da ONU”, perpetrado pela “esquerda antissemita que detesta Israel”.

A identificação com Israel continuou depois das eleições. Não à toa, o embaixador israelense no Brasil, Yossi Shelly, do lado de Bolsonaro desde sempre, expressou logo em janeiro de 2019: “Agora, Jair Bolsonaro é um segundo Oswaldo Aranha, porque ele faz uma coisa incrível: mudar a história”.

➤ Leia também:
  • Nunca antes na história deste País a diplomacia atingiu ponto tão baixo
  • Ernesto Araújo: "O conservador é o menos preconceituoso que existe"
  • ONU acusa Bolsonaro de violar tratado internacional sobre tortura

A viagem do próprio presidente a Israel, em março, foi marcada por aspectos religiosos e militares, pela ausência de qualquer contato como a Palestina e por excesso de declarações político-ideológicas. A intenção nunca foi substituir o comércio com os demais países do Oriente Médio, até porque isso não seria possível. Pelo contrário, os novos amigos de Bolsonaro, as monarquias conservadoras da península arábica, por ele visitadas em outubro de 2019, são velhas amigas dos EUA e mantêm por baixo do pano uma ótima relação com o Estado de Israel em defesa do status quo, outrora contra o nacionalismo árabe e, hoje, sobretudo contra a influência iraniana.

Estreitar as relações comerciais e até políticas com esses governos incorre, dessa forma, em uma nova postura do Brasil na ONU, ao lado dos EUA, omitindo-se de condenar os assentamentos israelenses na Cisjordânia, ilegais perante o Direito Internacional, ou a violência contra a população em Gaza.

Mesmo na abertura do famoso Escritório para Promoção do Comércio, Investimento, Tecnologia e Inovação em Jerusalém, em meados de dezembro, o deputado Eduardo Bolsonaro, na qualidade de presidente da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional, fez questão de reiterar a intenção de ser aquele apenas o primeiro passo para a transferência da embaixada brasileira da capital israelense para a cidade internacional. Enquanto isso, seu pai decidiu indicar um coronel da reserva e diretor de marketing de uma empresa de defesa israelense no Brasil para ser o próximo embaixador do país em Tel Aviv.

Para o Estado de Israel, abriu-se uma oportunidade de ouro, considerando a influência brasileira na América do Sul e lembrando-se, por exemplo, que, em novembro de 2010, o Brasil reconheceu formalmente o Estado Palestino como contido nas fronteiras existentes antes da guerra de 1967. E, em três meses, com exceção da Colômbia, todos os demais países da América do Sul seguiram na mesma direção. Agora, o Brasil está, assim, contribuindo ativamente com o isolamento político do povo palestino. Existem, é verdade, os interesses em maior cooperação na área de defesa e segurança, expressos inclusive na abertura, em outubro de 2019, de um escritório em São Paulo da Polícia Nacional de Israel, mas isso tudo é para consolidar o ganho político-diplomático de ter no Brasil um governo assumidamente pró-Israel.

A não transferência imediata da Embaixada não deve, portanto, ser vista como um recuo estratégico, mas meramente tático, se tanto e não pode ofuscar a mudança radical na política brasileira para o Meio Oriente. O próprio governo de Donald Trump também frustrou as expectativas por si mesmo geradas junto a seus eleitores, ao não anunciar a transferência de sede da embaixada em maio de 2017, já na primeira visita do então presidente eleito dos EUA a Jerusalém.

Padrão que se repete e discurso ideológico

O uso, por parte do Poder Executivo, da política externa como instrumento para uma mobilização permanente de sua base evangélica-eleitoral se faz sentir também na África, onde a expansão das igrejas neopentecostais conta com retaguarda e apoio entusiasta e direto do ministro Ernesto Araújo, das Relações Exteriores.

Para além do desejo de adular lideranças e eleitores evangélicos, o que move a política externa do Itamaraty é a mobilização anti-PT e contra o que é visto como “ressurgimento do comunismo na América do Sul”. Isso se expressa, por exemplo, no voto solitário e histórico, novamente junto com EUA e Israel, em favor do boicote unilateral estadunidense contra Cuba. E também na promoção do isolamento da Venezuela, apoiando as sanções dos EUA àquela nação, com impacto desastroso para a população do país vizinho.

Em todos esses casos, o Brasil se alinhou à política ditada pelos EUA, enquanto se isolou do resto da América Latina, evidenciando a perda do papel de liderança na região que experimenta o país graças às escolhas da atual administração.

O primeiro ano de governo Bolsonaro tem a incoerência e as contradições como marcas indeléveis da política externa exercitada. A PEB foi instrumentalizada para, simultaneamente, atender aos interesses econômicos da base econômica de apoio do governo e cooperar no esforço de manter as bases sociais mobilizadas. As bandeiras israelenses que apareceram na campanha eleitoral e a retórica anticomunista do século passado continuarão defraudadas em 2020.

Isso exige, é claro, um estado de vigilância permanente dos titulares dos interesses econômicos para que as contradições e incoerências não fujam do controle. Um esforço menor, contudo, diante dos novos e dos renovados privilégios conquistados já neste primeiro ano de governo.

* Agradecimentos a Bia Pidone, Bruno Castro, Gabriel Carneiro, João Victor Dalla Pola e Matheus Corréa

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Giorgio Romano

Professor de Relações Internacionais e Economia da Universidade Federal do ABC (UFABC). É Coordenador do Observatório da Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil (OPEB).

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