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Incertezas monetárias
Mobilidade de capitais e hierarquia de moedas comprimem a autonomia econômica de países emergentes
Aqui ousamos elucubrar sobre as limitações impostas à política monetária dos países de moeda não conversível pela “abertura financeira”.
Diante da reiterada ameaça de turbulência nos mercados lá de fora, os agentes locais antecipam uma política monetária cautelosa, senão disposta a retrucar com uma elevação dos juros, em caso de deterioração mais pronunciada do quadro externo. Há algum tempo, os “futuros” vêm revelando que a opinião dominante nos mercados abandonou as antevisões panglossianas, passando a projetar dificuldades na execução das políticas de câmbio e de juros.
Diz a doutrina mais acatada que, num regime de câmbio flutuante, a queda dos juros deve ser acompanhada de uma desvalorização da moeda local, de modo a tornar compatíveis o novo nível de atividade e o equilíbrio do balanço de pagamentos. Ademais, no caso do Brasil, uma redução mais rápida da taxa de juros acertaria dois coelhos com uma cajadada só na área fiscal: 1) as perspectivas de crescimento e, portanto, da receita pública seriam mais auspiciosas; 2) esse crescimento mais rápido, aliado à queda dos juros, permitiria uma trajetória mais favorável para o déficit nominal, inchado por despesas financeiras.
As relações entre os movimentos da taxa de juros e da taxa de câmbio são mais complexas do que a nossa vã filosofia pode supor. O elemento crucial, em tais circunstâncias, é a expectativa dos “agentes” acerca dos efeitos provocados pelas mudanças nas relações entre juros domésticos e aqueles que vigoram no país gestor da moeda de reserva — o dólar.
Para quem credita importância à preferência pela liquidez nas decisões sobre a posse da riqueza numa economia monetária, duas questões devem ser consideradas: 1) o sistema internacional é constituído de uma hierarquia de moedas, umas mais estáveis e “líquidas” do que outras (é improvável que o exportador alemão e o importador japonês escolham o real como moeda de transação em seus negócios); 2) sendo assim, quanto maior a mobilidade de capitais, diante de um agravamento da incerteza, maior o risco de uma desvalorização abrupta e indesejada das moedas de menor reputação e liquidez. Ainda que a adoção de um regime de taxa de câmbio flutuante seja capaz de amenizar o baque, as autoridades monetárias de países de “moeda fraca” — com “poder de compra” imprevisível — poderão ser obrigadas a vender reservas ou elevar as taxas de juros para estabilizar o curso do câmbio dentro de limites considerados seguros.
O Banco Central parece, ademais, temer que, diante dos atropelos do cenário internacional, uma queda rápida dos juros possa desencadear movimentos mais intensos de desvalorização do real. Duas seriam as consequências: 1) pressões sobre o nível geral de preços; 2) elevação da taxa de juros. É óbvio que uma inflação mais alta implicaria uma redução ainda maior das taxas de juros reais. Isso reforçaria, nos mercados futuros de juros e câmbio, os estímulos às posições que apostam na desvalorização da moeda não conversível em relação ao dólar, por motivos de proteção e por razões “especulativas”. É necessário esclarecer que todas as decisões na economia monetário-financeira capitalista são, em alguma medida, especulativas, desde o investimento em uma fábrica até as apostas na valorização (ou desvalorização) dos ativos financeiros. No presente, os investidores fazem cálculos para enfrentar as incertezas do futuro.
A abertura financeira não conseguiu, até agora, entregar os benefícios prometidos. Muito ao contrário, a gestão cambial e monetária, desde os primórdios do Plano Real e do regime de metas, além dos prováveis efeitos negativos sobre o desempenho da indústria, permitiu o aprisionamento da política monetária nos calabouços das relações câmbio-juros. A acumulação de incertezas tornou a economia mais vulnerável às mudanças de humor dos mercados “globalizados” e vem impondo severas restrições ao crescimento econômico e, portanto, à capacidade de criar empregos.
Neste momento, são remotas as chances de uma mudança de orientação nas políticas cambiais e monetárias. Sendo assim, estão ameaçadas taxas satisfatórias e sustentadas de crescimento econômico.
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