Jamil Chade

Jornalista, correspondente internacional, escritor e integrante do conselho do Instituto Vladimir Herzog

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Imperador impopular

O mundo demonstra seu desprezo pelo presidente dos Estados Unidos

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Donald Trump, presidente dos EUA. Foto: ANNABELLE GORDON / AFP
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Donald Trump descobre, aos poucos, a dimensão do desprezo do mundo por seu governo. Durante a abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, em Milão, a entrada da delegação dos Estados Unidos no desfile foi marcada por uma mistura de aplausos e vaias. A celebração foi para os atletas, alguns dos melhores do mundo em suas modalidades. Mas um sonoro protesto ocorreu quando o telão do estádio de San Siro mostrou o vice-presidente JD Vance, de pé, aplaudindo a delegação. Curiosamente, o público dos EUA jamais soube disso. Na transmissão oficial veiculada nas televisões de milhões de norte-americanos, a NBC cortou o som das vaias. Horas depois, quando a Casa Branca divulgou o vídeo do vice-presidente no evento na Itália, uma vez mais o som das vaias havia sido convenientemente abafado.

Ali foi apenas um termômetro de críticas, protestos e manifestações de repúdio diante de um governo que desmonta a democracia, abala os direitos humanos, interrompe a ajuda humanitária pelo mundo e ainda se diz orgulhoso de invadir países estrangeiros.

Nos dias seguintes à cerimônia de abertura, foram diversos os eventos e competições que viram as arquibancadas se manifestar contra os EUA. Num jogo de hóquei entre Canadá e Suíça, no sábado 7, torcedoras canadenses abriram um cartaz de protesto contra o ICE, a polícia de imigração de Trump. Manifestações da mesma dimensão tomaram outros locais de eventos esportivos durante os Jogos.

As arquibancadas eram, porém, meras caixas de ressonância de uma tendência mais profunda. Um levantamento da entidade YouGov revelou que poucas vezes nas últimas décadas a popularidade do governo norte-americano na Europa esteve em patamares tão baixos como hoje. A pesquisa revelou que, em janeiro, apenas 16% dos britânicos tinham uma opinião favorável a Trump e 81% tinham uma opinião desfavorável. Na França, 18% dos entrevistados apresentaram uma opinião favorável ao presidente dos EUA, contra apenas 11% entre os alemães. Na Itália, 77% dos entrevistados tinham uma opinião desfavorável, taxa similar àquela registrada na Espanha. Nem George W. Bush nos primeiros anos de seu governo registrou índices tão baixos.

Nada se equipara, no entanto, aos índices de desaprovação de Trump na Dinamarca, país que sofre um assédio direto do republicano em busca do controle da Groenlândia. Em janeiro, apenas 4% dos escandinavos tinham uma percepção positiva sobre o presidente dos EUA. Os dados contrastam com a popularidade­ de Barack Obama na Europa ao terminar o mandato em 2016. Naquele ano, o democrata chegou a registrar um índice de aprovação de mais de 75% na Espanha, Alemanha, Reino Unido e França.

A Olimpíada de Inverno, portanto, transformou-se num primeiro teste real da imagem dos EUA no exterior, desde a volta ao poder de Trump. Os protestos não se limitaram às arquibancadas. O esquiador da equipe britânica, Gus Kenworthy,­ compartilhou uma foto no Instagram na qual critica o ICE, escrevendo seu desagravo na neve com urina. “Não podemos ficar de braços cruzados enquanto o ICE continua a operar com poder irrestrito em nossas comunidades”, afirmou. Os atletas de Minnesota, epicentro do confronto entre as forças de Trump e imigrantes, também usaram o evento para se distanciar do republicano. “Estou competindo por um povo americano que defende o amor, a aceitação, a compaixão, a honestidade e o respeito ao próximo”, disse Jessie Diggins, medalhista de ouro olímpica no esqui cross-country. “Não apoio o ódio, a violência ou a discriminação.”

O próprio Trump envolveu-se em uma troca de farpas com o esquiador Hunter Hess. O atleta foi questionado sobre como era representar os EUA nas Olimpía­das, dada a situação atual do país, que incluiu operações do ICE e uma série de crises geopolíticas. Hess disse que representar os EUA lhe causava “sentimentos mistos” e que era “um pouco difícil”. “Só porque estou vestindo a bandeira não significa que represento tudo o que está acontecendo nos EUA.”

Extremistas de direita dos EUA passaram a pedir a exclusão de Hess da delegação. Trump deixou clara sua indignação. “Ele (Hess) não representa seu país nas atuais Olimpíadas de Inverno. Se for esse o caso, ele não deveria ter tentado entrar para a equipe, e é uma pena que esteja nela. É muito difícil torcer por alguém assim”, escreveu o presidente, que o chamou de “perdedor”.

O mal-estar ganhou tal dimensão que os próprios organizadores tiveram de tomar medidas de precaução. Para evitar uma polêmica ainda maior, a delegação norte-americana renomeou a casa que havia alugado em Milão para promover atletas e patrocinadores. O nome original era ICE House, numa referência ao gelo. Mas, a poucos dias da abertura do evento, o local passou a se chamar Winter House, ou a Casa de Inverno. Que venha a primavera. •

Publicado na edição n° 1400 de CartaCapital, em 18 de fevereiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Imperador impopular’

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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