Impeachment já

O presidente da Câmara não tem mais saída senão atentar para a vontade do povo. Mais de 100 pedidos de impeachment não podem ser ignorados

Manifestantes reivindicam derrubada imediata do presidente Jair Bolsonaro. Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas

Manifestantes reivindicam derrubada imediata do presidente Jair Bolsonaro. Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas

Opinião

Parece que vem surgindo alguma dramaturgia excepcional no horizonte. Todas as vezes em que o mundo passou por profundas transformações de ordem política, econômica, e social algum movimento sísmico pariu um marco dramatúrgico: foi assim com Shakespeare na passagem para o mercantilismo, com Tchecov na boca da revolução socialista, com Brecht sobre a bomba que inaugurava a idade atômica atual, para não falar das Grécias e Troias.

 

 

 

A presença do Apocalipse na presidência da república do Brasil, não é alerta nacional, mas é a encarnação do perigo para vida, para o globo, para a humanidade. O presidente da Câmara não tem mais saída senão atentar para a vontade do povo. Mais de 100 pedidos de impeachment não podem ser ignorados: o Brasil, laboratório para o mundo, dá real testemunho desse divórcio profundo entre democracia liberal e poder econômico.

Democracia uma pinoia!

Alguma coisa vai se esgotando aí com as desigualdades que vão crescendo, com as polícias “democráticas” cada vez assassinando mais; novas formas de racismo, de homofobia, de preconceitos e discriminação de todas as qualidades. O neoliberalismo tupiniquim (em outros lugares é um pouco mais sofisticado) não consegue mais dar conta de suas promessas falsas de emprego pleno e as fórmulas mirabolantes do empreendedorismo, da uberização, da pejotização, verdadeiros dogmas religiosos do sistema vão caindo por terra, insustentáveis em seus pés de barro.

A pandemia caiu como uma luva para os propósitos dessa gente desqualificada: 500 mil mortos basicamente pobres, negros e velhos, representam uma fantástica reforma fiscal, uma economia publica sem precedentes a longo prazo.

Além do que o jogo mortal deveria amedrontar as pessoas, esvaziar ruas e praças, diminuir a capacidade de agregação, socialização, associativismo, sindicalização. A intenção é clara: Diminuir a potência dos movimentos sociais, o desemprego e a miséria transformando cada ser em competidor, adversário, inimigo, do outro, de cada um.
O espaço publico sendo confinado e privatizado, políticas de diminuição de danos e de resgate social e histórico combatidas e demonizadas como privilégios a serem eliminados.

 

Manifestações contra Bolsonaro acusaram governo de genocídio. Foto: Rener Pinheiro

 

O vírus utilizado como cavalo de troia sem trégua e sem descanso na destruição do espaço publico, da sociedade, da política como instrumento de bem-estar: o imaginário simbólico sendo substituído por um novo darwinismo onde prevaleçam os mais fortes, resistentes, portadores de armas e insígnias. O progresso: Uma sociedade militarizada. Mediatizada. Privatizada.

Mas a vida insiste e se reinventa em sua eterna teimosia. De repente, dos becos que conspiravam, de cada cantinho do território, as pessoas começam a juntar as suas coragens, indignação perdendo timidez, as estruturas populares, os movimentos sociais rearticulam e orquestram as vozes, as máscaras e os cuidados, e as ruas voltam a se colorir de gente e finalmente uma energia solar e quente começa a afastar para longe esse hálito podre, sombrio e mortífero que nos vampiriza.

Re-existir é fundamental. Artistas desde o primeiro momento acreditam firmemente que o impeachment é a mais necessária e imediata garantia para restauração da saúde publica da brasilidade.

Daí estarmos, já há alguns meses, sem descanso, em campanha e assembleia publica pela legitimidade e a urgência de todos os pedidos de impeachment.

Nossa assinatura está simbolicamente em todos eles, porque sabemos que o sonho de uma sociedade diversa, justa e democrática de fato começa a ser desenhado somente a partir daí. Somos, junto à sociedade, coadjuvantes desta dramaturgia e espetáculo maior que é o impeachment já. Na fé na imaginação, na solidariedade e na generosidade, características genuínas do povo brasileiro, é que juntamos as nossas vozes com todas as forças pelo impeachment já.

 

Signatários

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Afonso Tostes – Artista Plástico
Ailton Graça – Ator
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Alain Fresnot – Cineasta
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Cacá Machado – Compositor
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Camila Márdila – Atriz
Camila Pitanga – Atriz
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Chico César – Cantor e Compositor
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Márcio Abreu – Ator e Encenador
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Marco Antonio Rodrigues – Encenador e Docente
Marcos Palmeira – Ator
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Renato Borghi – Ator
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Roberto Lage – Encenador
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Sergio Siviero – Ator e Performer
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Stella Marini – Produtora
Tânia Farias – Atriz, Figurinista e Encenadora
Tarcísio Filho – Ator
Tarcísio Meira – Ator
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Thiago Lacerda – Ator
Thiago Vasconcelos – Encenador
Toni Venturi – Cineasta
Tonico Pereira – Ator
Tuca Andrada – Ator
Vik Muniz – Artista Plástico
Vadim Nikitin – Dramaturgo
Yara de Novaes – Atriz
Zezé Polessa – Atriz

 

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