Opinião

Impacto das fake news em 2022 não será resolvido com educação midiática

Pois parte de uma fantasia social que divide competentes de incautos como premissa e diagnóstico

Fake news
Fake news

Este texto surgiu de um recente episódio do podcastCafé da Manhã”, que contou com a participação de Patrícia Blanco, presidente do Instituto Palavra Aberta e membro do conselho editorial do jornal Folha de S.Paulo. O título não deixa dúvidas: as fake news são um problema a ser enfrentado num mundo em que a política e outras dimensões do cotidiano estão cada vez mais vivos e entranhados nas plataformas digitais. Mas o que fazer para “não cair em fake news em 2022”?

O episódio nos leva à seguinte resposta: precisamos da chamada “educação midiática”. E, por ser assim, a premissa é a de que as pessoas, por falta de habilidades e competências hermenêuticas ou educacionais de alguma outra ordem, por falta de formação, são levadas ao engano pelas falsas notícias ou notícias falsas que circulam pelas arenas digitais. A solução, portanto, seria desenvolver e aplicar um tipo de pedagogia que nos imunizaria contra essa moléstia digital.

Será mesmo que é um bom caminho?

Estamos falando de vinho velho em garrafa nova. Não é a primeira vez que “educação midiática” surge nos debates que envolvem sociedades e os supostos efeitos nocivos dos media sobre os indivíduos. Ao longo dos anos 1980 e 1990, por exemplo, consensos sobre os supostos (e péssimos) efeitos da mídia sobre as pessoas levaram certos educadores a defender que precisava-se aprender a, por exemplo, assistir televisão.

Sei do que falo, pois tive o privilégio e o dissabor de ser cobaia desse experimento. A educação midiática da minha época implicava, basicamente, em ensinar a decifrar textos e encontrar embutida nas entrelinhas a lógica da luta de classes. Onde estava a relação entre opressão e exploração inscrita naqueles textos e que, potencialmente, nos faria reproduzir e reforçar o status quo social, cultural econômico e político do momento. Ser crítico, basicamente, era encontrar aquilo contra o qual, normativamente, deveríamos ser contra. A empreitada era flagrantemente enviesado em temos ideológicos.

 

Em sua versão contemporânea, a luta de classes saiu de moda, mas a ideia de que pessoas podem ser levadas ao engano, à alienação, às decisões equivocadas e ao mau comportamento porque lhes falta “letramento midiático”, não. É daí que surgem estranhos truísmos como o de que as fake news elegeram Jair Bolsonaro. E sempre com a mesma chave de leitura: todos fomos bombardeados por fake news em 2018, mas, curiosamente, só nós resistimos aos efeitos desses conteúdos e votamos contra o atual presidente. O problema são sempre os outros: os “iletrados” que não sabem verificar as fontes da informação e não conseguem distinguir reportagem de coluna de opinião, conforme comentou-se no podcast da Folha.

No melhor momento do episódio, temos uma pergunta óbvia que, inevitavelmente, fragiliza o diagnóstico da especialista: mas e os graduandos e pós-graduandos que se lambuzaram de fake news em 2018? Médicos e advogados que passaram a vida desfrutando de educação privilegiada? Bom, diante desse fato inquestionável, a especialista não poderia alegar falta de letramento midiático. Então, eis que saca algo que condiz melhor com a realidade: sujeitos com excelentes formações e familiaridade com conteúdos digitais acreditam e repercutem fake news porque elas carregam, dentre outras coisas, teorias conspiratórias que lhe são politicamente úteis.

Ufa! Mas, ainda assim, perdura a divisão entre “educados” e “deseducados”. Os primeiros surfando na oportunidade das fake news, os segundos que precisam ser salvos por nós. Neste ponto, temos a velha reprodução inercial de uma mentalidade classista que permeia muitas reflexões nesse ramo, como a própria ideia de que baixa educação produz votos menos conscientes, racionais e elaborados do que os do eleitor bem formado. Nada mais falso.

Os “deseducados” aderem às fake news não porque não sabem “ler” e precisam de educação mediática, mas sim porque, como aos educados, as fake news a que se agarram lhes são politicamente úteis. As pessoas, de maneira indistinta, possuem a propensão a aderir a certos conteúdos falsos, objetivamente incorretos e a teorias conspiratórias porque, em primeiro lugar, esses conteúdos possuem propriedades que se relacionam com suas preocupações e aspirações.

No contexto do Brexit, a mentira sobre o aumento do investimento em saúde decorrente da saída da União Europeia fez com que essa fake news apertasse o gatilho das insatisfações da população britânica com as políticas de austeridade que precarizam o sistema público de saúde inglês. No Brasil, as fake news sobre ideologia de gênero, incesto e educação sexual, dentre outras, apertaram os gatilhos da ansiedade de muitos com as mudanças culturais, assim como um conjunto expressivo de preconceitos socialmente enraizados. Foi assim que fomos parar em Bolsonaro.

Em segundo lugar, as fake news são cuidadosamente selecionadas numa lógica de apropriação e descarte. As pessoas não aderem indiscriminadamente a notícias falsas e a conspiracionismos, como esse tipo de diagnóstico faz parecer. Ou seja, não são enganadas. Elas aderem, adotam, alimentam e distribuem fake news como fazem com qualquer informação. Descarta-se aquelas que invalidam nossas convicções prévias, adota-se aquelas que reforçam nossas crenças e convicções. Viés de confirmação contra a dissonância cognitiva.

Como se pode ver, o buraco é muito mais embaixo, o problema é muito mais complexo e não creio que o expediente da educação midiática nos traga algum resultado esperado porque, a meu ver, parte de uma fantasia social que divide competentes de incautos como premissa e diagnóstico. Fake news não respeitam cor, credo, gênero ou classe social. Muito menos educação e escolaridade. O remédio para ela está em outro lugar. Volto a escrever sobre o tema na próxima coluna.

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