Paulo Artaxo

Cientistas e pesquisador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP.

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IA: riscos e potenciais

O controle social sobre o desenvolvimento e uso da Inteligência Artificial é absolutamente necessário

IA: riscos e potenciais
IA: riscos e potenciais
Foto: Shutterstock
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Um processo muito importante está em curso, o uso de Inteligência Artificial em todos os setores econômicos e atividades humanas. Isso ocorre sem qualquer regulação em nível algum. Em geral, os cidadãos não fazem ideia do risco da IA para seus empregos e atividades. De carros autônomos a ligações telefônicas, previsão do tempo, atividades advocatícias, ensino, pesquisas acadêmicas e por aí afora, todas estão sendo profundamente modificadas pela IA, certamente uma ferramenta poderosa. Ela traz, no entanto, riscos e preocupações que devem ser discutidos amplamente.

Quem controla todo o processo são alguns poucos bilionários, a maioria deles norte-americanos e chineses. E o resto da humanidade, como fica nos processos decisórios de implementação e de uso? Muitos dizem que a IA não será capaz de pensar como nós, mas que pode ter um efeito catastrófico no emprego e no aumento das desigualdades. Há previsões de cenários sombrios, com sistemas inteligentes ganhando mais autonomia e tornando-se mais imprevisíveis, eventualmente com fins malignos.

Temos também o impacto ambiental e climático direto dos gigantescos data centers necessários à armazenagem e ao processamento de IA. Eles usam enormes quantidades de eletricidade e água de resfriamento para os processadores e as memórias. Grandes projetos de data centers no Nordeste brasileiro já enfrentam problemas importantes em sua implementação, pois precisam de energia segura e de baixas emissões de carbono. Energias solar e eólica seriam ideais, mas a questão da intermitência é importante, e baterias são caras. O uso intensivo de milhões de litros de água é outro grande problema na implementação desses data centers, especialmente no Nordeste. Estimativa da Agência Internacional de Energia prevê que, em 2026, o consumo de eletricidade por data centers chegará a mil ­terawatts, equivalente ao consumo total anual do Japão. E, nos próximos dez anos, o consumo poderá representar 10% de toda a eletricidade do planeta. O uso de água também será altíssimo. Essas questões limitam as localidades adequadas para a instalação dessas estruturas.

Outra questão importante é que essas atividades intensivas em capital não geram muitos empregos diretos. A operação desses data centers não é intensiva do ponto de vista de empregos. Não há dúvida de que a IA pode trazer ganhos de produtividade, mas os riscos para os empregos em muitas áreas são enormes. Para advogados, a IA pode, em segundos, levantar toda a jurisprudência de um caso, o que, sem ela, poderia levar horas ou dias. Na indústria, robôs humanoides são utilizados em linhas de produção de forma mais autônoma, substituindo a mão de obra humana.

Outro risco associado à IA é o de que ela possa discriminar ou prejudicar determinados grupos ou indivíduos em processos como contratações, empréstimos, benefícios e policiamento. Isso pode acontecer porque os sistemas de IA dependem de dados para funcionar, e esses dados quase sempre contêm vieses ou erros que refletem as desigualdades ou preconceitos existentes na sociedade. A desinformação, ou fake news, é outra área importante, especialmente em processos eleitorais. Deepfakes criam, em segundos, vídeos de qualquer político falando qualquer coisa que queiramos, com alta credibilidade nas redes sociais.

A IA veio para ficar, e seu uso precisa ser regulamentado. O Brasil possui um Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, a estratégia nacional para garantir que o País não seja apenas um consumidor de tecnologia, mas um desenvolvedor soberano. Recursos da ordem de 23 bilhões de reais estão sendo aplicados pelo BNDES, pela Finep e pelo FNDCT. O PBIA tem cinco eixos estratégicos: Infraestrutura e Desenvolvimento (construção de data centers e expansão da conectividade), Difusão, Formação e Capacitação (meta de treinar cerca de 200 mil profissionais e capacitar pelo menos 115 mil servidores públicos em IA até o fim deste ano), Serviços Públicos (uso de IA para reduzir filas no SUS, agilizar processos judiciais e melhorar a gestão de benefícios sociais), Inovação Empresarial (crédito subsidiado para indústrias que automatizam linhas de produção e desenvolvem software nacional) e Regulação e Governança (apoio ao debate no Congresso para criar uma lei de IA que proteja o cidadão).

O controle social sobre o desenvolvimento e uso da IA é absolutamente necessário. Colocar regras e limites que orientem a Inteligência Artificial para o bem da humanidade não será tarefa fácil, mas é a única maneira de fazer com que esta nova tecnologia traga benefícios ao ser humano. •

Publicado na edição n° 1411 de CartaCapital, em 06 de maio de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘IA: riscos e potenciais’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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