Nikkole Presotto

Fotógrafa e cinegrafista, apaixonada por arte, cinema, rock do fim dos anos 60, poesia e cultura psicodélica. Estudou Direção Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema (AIC).

Colunas

Huxley, os psicodélicos e a experiência visionária em ‘Moksha’

O livro reúne cartas e reflexões que dialogam com toda a obra do autor

Huxley, os psicodélicos e a experiência visionária em ‘Moksha’
Huxley, os psicodélicos e a experiência visionária em ‘Moksha’
Huxley nos deixa uma pergunta incômoda: não deveríamos poder escolher nossa própria medicina moksha nos grandes ritos de passagem da vida?(Ilustração: Pilar Velloso)
Apoie Siga-nos no

22 de novembro de 1963. Enquanto o mundo voltava os olhos para o assassinato do presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, em outro canto do planeta, o escritor britânico Aldous Huxley — autor de Admirável Mundo Novo, As Portas da Percepção e A Ilha — morria em silêncio.

E sua última viagem não foi uma despedida qualquer. Mais conhecido por sua distopia Admirável Mundo Novo (Biblioteca Azul/Globo Livros, edições recentes no Brasil), Huxley também se destacou por sua exploração filosófica de substâncias como a mescalina, presente no cacto peiote. Suas experiências foram relatadas em As Portas da Percepção e Céu e Inferno (Biblioteca Azul/Globo Livros, edições brasileiras conjuntas). Com isso, tornou-se uma espécie de avô intelectual da cultura psicodélica.

O livro Moksha – escritos de Aldous Huxley sobre psicodélicos e a experiência visionária (Biblioteca Azul/Globo Livros, 2022; em circulação no Brasil) reúne cartas e reflexões que dialogam com toda a obra do autor. A coletânea funciona quase como uma continuação espiritual de As Portas da Percepção e Céu e Inferno, oferecendo um mergulho em suas ideias sobre consciência, espiritualidade e os possíveis usos das substâncias psicoativas.

O termo “moksha”, oriundo da filosofia hindu, refere-se à libertação alcançada pela iluminação da consciência — algo próximo ao conceito de nirvana. No livro aparecem correspondências com figuras centrais da nascente cena psicodélica, como o psiquiatra Humphry Osmond, responsável por cunhar o termo “psicodélico”, além de Timothy Leary e Albert Hofmann, químico suíço que descobriu o LSD.

Ao longo das páginas surgem relatos de experiências com psicodélicos, reflexões filosóficas e ecos de ideias presentes em A Ilha (Biblioteca Azul/Globo Livros, edições recentes no Brasil). Nesse romance, Huxley apresenta a chamada “medicina moksha”, concebida como o oposto simbólico do soma — a droga de felicidade artificial que mantém a sociedade anestesiada em Admirável Mundo Novo.

Se o soma serve para esquecer o mundo, a medicina moksha apontaria na direção contrária: um catalisador de consciência, algo próximo a um cogumelo psilocíbico. Não uma droga para escapar da realidade, mas um sacramento para enxergá-la com mais clareza.

Em A Ilha, essa substância é utilizada em momentos de transição da vida — ritos de iniciação, crises espirituais e até no processo de aceitar a morte. Durante as experiências repete-se um mantra simples: “aqui e agora”, lembrando a importância da presença no momento.

A substância nunca é tomada de forma solitária. Há sempre o acompanhamento de alguém mais experiente — um guia espiritual ou aquilo que hoje chamaríamos de terapeuta psicodélico. Décadas antes de o termo se popularizar, Huxley já intuía algo que hoje se tornou central nas pesquisas com psicodélicos: o chamado set and setting — o estado mental e o ambiente que moldam profundamente a experiência.

Entre ensaios sobre drogas, rituais e cultura, Huxley também desenvolve uma de suas ideias mais conhecidas: a teoria da válvula redutora da percepção. Segundo ele, o cérebro não produz a consciência — ele a filtra, reduzindo a vasta quantidade de realidade disponível à mente humana. Os psicodélicos, assim como outros estados alterados de consciência, poderiam temporariamente abrir essa válvula, permitindo vislumbrar camadas mais amplas da experiência.

Huxley chama essas experiências de “estados visionários”. Em seus textos, reúne exemplos históricos de indivíduos que, por meio de técnicas capazes de levar corpo e mente ao limite, alcançaram esse estado de percepção ampliada. Mas sugere também que ele pode surgir espontaneamente — na intensidade da infância, na imaginação de alguns poetas e artistas ou até em situações extremas, como a proximidade da morte, a sede ou a fome.

Com um tom ao mesmo tempo filosófico, acadêmico e profundamente humano, Moksha talvez seja o livro que melhor captura a essência intelectual, espiritual e mística de Huxley.

O livro termina com o relato de Laura Archera Huxley sobre os momentos finais do escritor. Já debilitado pela doença que o levaria à morte, ele pediu duas doses de LSD, aplicadas na tarde em que viria a falecer.

Guiado pela voz da esposa, cercado de silêncio e cuidado, Huxley atravessou suas últimas horas em estado de expansão — como se, pela última vez, abrisse as próprias portas da percepção e atravessasse serenamente os portões do infinito.

Huxley nos deixa uma pergunta incômoda: não deveríamos poder escolher nossa própria medicina moksha nos grandes ritos de passagem da vida?

A opinião de colunistas e convidados não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

ENTENDA MAIS SOBRE: , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Depois de anos bicudos, voltamos a um Brasil minimamente normal. Este novo normal, contudo, segue repleto de incertezas. A ameaça bolsonarista persiste e os apetites do mercado e do Congresso continuam a pressionar o governo. Lá fora, o avanço global da extrema-direita e a brutalidade em Gaza e na Ucrânia arriscam implodir os frágeis alicerces da governança mundial.

CartaCapital não tem o apoio de bancos e fundações. Sobrevive, unicamente, da venda de anúncios e projetos e das contribuições de seus leitores. E seu apoio, leitor, é cada vez mais fundamental.

Não deixe a Carta parar. Se você valoriza o bom jornalismo, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal da revista ou contribua com o quanto puder.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo