Arthur Chioro

Ex-ministro da Saúde

Opinião

assine e leia

Hospitais Inteligentes

O SUS passará a contar com uma rede capaz de aprender com dados em tempo real, antecipar riscos e identificar surtos com agilidade

Hospitais Inteligentes
Hospitais Inteligentes
Da esquerda para a direita: o ministro da Casa Civil, Rui Costa; a presidente do Banco dos Brics, Dilma Rousseff; o presidente Lula; a médica cardiologista Ludhmila Hajjar; o ministro da Saúde, Alexandre Padilha; o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan; e o vice-presidente Geraldo Alckmin. Foto: Ricardo Stuckert/PR
Apoie Siga-nos no

O presidente Lula e o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, lançaram o Programa Nacional de Hospitais Inteligentes para constituir uma Rede Nacional de Hospitais e Serviços Inteligentes. Trata-se de uma iniciativa estruturante, capaz de redefinir o jeito de cuidar, e que aposta que o futuro do SUS passa pela transformação digital.

O termo “inteligente” não é jargão de marketing digital e nem menosprezo à competência dos nossos hospitais. É uma resposta política e simbólica ao caos gerencial que devastou o Ministério da Saúde entre 2016 e 2022. A noção de “inteligência” busca ampliar capacidades clínicas, otimizar fluxos assistenciais, reduzir desperdícios e garantir qualidade de cuidado com eficiência ética e democrática.

O que se quer são hospitais que “aprendam” com dados em tempo real, antecipem riscos de agravamento, identifiquem surtos com agilidade e encurtem o abismo entre o cuidado básico e o especializado.

Hospitais integrados em rede aos demais serviços do SUS que incorporem Inteligência Artificial, prontuário eletrônico e sistemas interoperáveis, plataformas de apoio à decisão clínica, telemedicina, robótica e monitoramento remoto de pacientes. Ao utilizar a infraestrutura digital, os hospitais devem otimizar processos, realizar diagnósticos e tratamentos mais rápidos e precisos, reduzir erros, racionalizar custos e, sobretudo, melhorar desfechos clínicos.

Segundo Ludhmila Hajjar, professora titular de Emergências e líder do projeto na Universidade de São Paulo (USP), o tempo de espera em situações críticas de urgência e emergência pode ser reduzido em mais de cinco vezes em hospitais inteligentes. Em condições como acidente vascular encefálico, infarto agudo do miocárdio e choque por politraumatismos, a mortalidade pode ser reduzida pela metade – além de haver menor tempo de internação e menos complicações e sequelas.

A Rede Nacional será estruturada em três eixos. O primeiro prevê inicialmente 14 UTIs inteligentes, com foco em cardiologia e neurologia, em hospitais em 13 estados, com investimentos de 34 milhões de reais.

No segundo, destaca-se o Instituto Tecnológico de Emergência do Hospital das Clínicas da USP e a construção de um hospital inteligente de 800 leitos voltado à urgência e emergência, sendo 350 de UTI, integralmente destinados ao SUS. Esse eixo inclui a implantação do Centro Nacional de Pesquisa e Inovação, que articulará a Rede Nacional de UTIs Inteligentes. Para tanto, o Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS assegurará aporte de 1,7 bilhão de reais.

O terceiro, com mais de 3 bilhões de reais de investimentos, concentra-se na modernização de hospitais de excelência do SUS, como o novo hospital da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), na Zona Sul da capital paulista, com 326 leitos, que começa a ser construído neste semestre. Também haverá investimentos em hospitais federais e no Instituto do Cérebro, no Rio de Janeiro, e na construção de dois hospitais, um oncológico, na Baixada Fluminense, e outro em Porto Alegre.

Para Dilma Rousseff, presidenta do Novo Banco de Desenvolvimento do ­BRICS, presente no ato, a tecnologia em saúde, no Sul Global, não pode reproduzir o modelo extrativista do Norte, que gera dependência, captura dados sensíveis e aprofunda desigualdades. A aposta em parcerias estratégicas com China e Índia aponta para infraestruturas sustentáveis e interoperáveis, estímulo ao desenvolvimento local, indução de produção nacional de dispositivos e algoritmos éticos.

Ao contrário da retórica privatista, o programa reafirma o papel do Estado como indutor da inovação. “Queremos hospitais modernos, sim”, disse Lula, no ato. “Mas queremos também enfermeiros e médicos que cuidem do povo com dignidade e tempo, e que tenham à sua disposição o que há de melhor na ciência e na técnica.”

O presidente encerrou sua fala com uma síntese precisa:“Hospital inteligente é aquele que salva vidas, acolhe com respeito e não nega atendimento a quem precisa”. Em tempos de plataformas digitais e algoritmos, é fundamental reiterar que a inteligência do SUS não se mede apenas pela infraestrutura tecnológica, mas pela capacidade de garantir o direito à saúde.

A Rede de Hospitais Inteligentes é, portanto, um gesto de futuro. Um programa que carrega o DNA de um Brasil que ainda acredita que cuidar do povo é o maior projeto de nação. •

Publicado na edição n° 1396 de CartaCapital, em 21 de janeiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Hospitais Inteligentes’

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo