Home office, doce home office

'Já faz mais de ano que a vida é como ela é, entre essas paredes', escreve Alberto Villas

Foto: iStock

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Opinião

Ele trabalhava num blog quando tudo começou. O Jornal Nacional passou a mostrar, toda noite, o mapa com o número de mortes e infectados. Quando o Marcio Gomes aparecia dava um frio na barriga. Assustadas, as firmas começaram a aconselhar seus funcionários a trabalhar de casa, que aqui, onde se fala português, chamam de home office.

Ele logo pensou que não ia ser tão ruim assim, já que tinha um escritório montado em casa, com computador, telefone e até um velho fax ele tinha. Buscar notícias, redigir textos, gravar um pequeno jornal no final da tarde, ia ser bico.

No primeiro dia, acordou tranquilo, sem o barulhinho chato do celular, fez uma hora na cama e levantou para preparar o café. Leu os jornais e, onze horas, ainda estava de pijama. Deitou na rede para ver as noticias no laptop e pensou: que vida boa não ter de vestir uma calça, uma camisa, meias, calçar um tênis All Star e ir trabalhar.

Sentiu falta de fotografar a cidade da janela do ônibus Ipiranga que o levava da Lapa até Higienópolis, esquina de Aureliano Coutinho, onde estava instalada a firma. Sentiu falta da variedade de saladas do Sabor & Arte, onde almoçava todos os dias. E daquela paçoquinha de amendoim que comia de sobremesa, caminhando no entorno da Santa Casa de Misericórdia até voltar ao batente.

Sentiu falta dos amigos de mesa, todos ombudsman da Globonews, sempre ligada. Sentiu saudade de ouvir coisas do tipo Andreia Sadi aparou cabelos, Maria Beltrão está de óculos novo, Valdo Cruz está com cara de sono. Sentiu falta do café vindo da Nicarágua que tomava todo dia ao cair de tarde.

Mas tudo bem. Estava feliz com a liberdade de se sentir em casa às duas horas da tarde, até dar uma cochilada durante o interminável Jornal Hoje. O primeiro dia passou e ele se sentiu bem de não esperar meia hora o Ipiranga pra voltar pra casa, geralmente de pé.

Mas o tempo foi correndo, o número de mortos aumentando, o Alan Severiano, agora no lugar do Marcio Gomes, anunciando mil mortos em 24 horas e ele ali, sem sair de casa. Um dia, recebeu pelo WhatsApp umas fotos da firma vazia, sem sua mesa, sua cadeira, sem a máquina da Nespresso, sem o pôster Lula Livre, não tinha nada mais ali.
A firma não havia mais e ele passou a trabalhar por conta própria.

Inventou um jornal diário chamado Sol, um check-up da imprensa nacional e internacional, e depois inventou uma live, um outro jornal, toda sexta. Achou pouco e passou a fazer três vezes por semana.

Nesse meio tempo, cultivou uma horta na varanda do apartamento, colheu tomatinhos cereja, mas viu tudo ir murchando de repente, sem poder repor. Adotou um vira-lata e deu o nome a ele de Millôr. O cachorro não deu a mínima e teve o nome trocado para Canela. Ai sim, deu certo.

Pediu comida japonesa pelo iFood, viu a live da Tereza Cristina, fez mil e uma reuniões de trabalho, uns jantares virtuais com a família, mandou zaps, pagou contas pelo celular, transferiu dinheiro pelo Pix, arrumou gavetas e armários, separou livros para doar, fotografou o por do sol pela janela lateral, limpou os poucos vinis que ainda restam, gritou genocida na varanda.

Já faz mais de ano que a vida é como ela é, entre essas paredes. Perdeu de vista alguns amigos, ganhou peso, mas, apesar dos pesares, manteve o humor.

Quinta-feira passada, por exemplo, nove em ponto, quando a professora de yoga apareceu na tela do computador e disse: pode pegar as tornozeleiras, ele pegou colocou uma em cada tornozelo e brincou: Estou em prisão domiciliar e com tornozeleira…

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

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