Ana Paula Sousa

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Editora de Cultura da edição impressa de CartaCapital. Doutora em Sociologia pela Unicamp.

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Hollywood no espelho

As vitórias obtidas por Uma Batalha Após a Outra simbolizam a defesa de um tipo de cinema hoje sob ameaça

Hollywood no espelho
Hollywood no espelho
Chegou a hora. Paul Thomas Anderson, premiado em todos os grandes festivais europeus, havia concorrido pela primeira vez 28 anos atrás. Di Caprio não venceu – Imagem: Warner Bros. Pictures e Mike Coppola/Getty Images/AFP
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Em um momento de tamanha polarização política nos Estados Unidos, o Dolby ­Theatre, em Los Angeles, não teria como não reverberar os ecos de uma sociedade dividida.

Embora alguns analistas da cerimônia da 98ª edição do Oscar, realizada no domingo 15, tenham ficado desapontados com a ausência de discursos mais enfáticos contra a guerra e contra a administração Donald Trump, as vitórias obtidas por Uma Batalha Após a Outra – ganhador em seis categorias – podem ser consideradas, elas próprias, um gesto.

O filme de Paul Thomas Anderson, que usa a potência do cinema para nos lançar, de forma vertiginosa, ao centro das contradições contemporâneas, é tanto um símbolo de uma sociedade fraturada quanto de um tipo de produção cinematográfica que se vê ameaçada pela nova configuração do mercado audiovisual.

O The New York Times, no texto sobre a premiação, definiu Uma Batalha Após a Outra como um “grito original sobre o autoritarismo” e um “ato de resistência” a favor da cidadania. Se, por aqui, o filme soa como pura Hollywood, por lá, ele irritou profundamente os conservadores, que chegam a dizer que se trata de uma apologia do terrorismo.

Do ponto de vista da indústria, a obra é considerada um dos últimos suspiros de um tipo de cinema que os velhos estúdios, vez por outra, se dispõem a produzir: uma obra de alto investimento e de retorno pouco garantido.

Marco. Pecadores levou dois prêmios históricos: Michael B. Jordan foi o sexto homem negro a ganhar, e Autumn Arkapaw, a primeira diretora de fotografia – Imagem: Maximity Media/Warner Bros. Pictures

Uma Batalha Após a Outra foi produzido pela Warner Bros., empresa centenária que tem no catálogo tesouros de Hollywood e que, ainda hoje, consegue equilibrar grandes sucessos de bilheteria com produções de maior ousadia artística – ou seja, que não são nem franquias, nem sequências, nem remakes, nem adaptações de livros.

Em 2025, couberam à Warner Bros. tanto alguns dos principais blockbusters do ano – Um Filme Minecraft, Invocação do Mal 4: O Último Ritual e Superman – quanto títulos de grande impacto cultural e social, como o filme de Anderson e o outro grande destaque desta edição do Oscar, Pecadores, uma potente alegoria sobre o trauma afro-americano.

Dentre as quatro estatuetas conquistadas por Pecadores, de Ryan Coogler, duas foram consideradas historicamente marcantes: a recebida pelo ator Michael B. Jordan, o sexto homem negro a vencer como Melhor Ator em quase um século, e a de Autumn Durald Arkapaw, a primeira mulher a levar a estatueta de Melhor Fotografia.

Tanto Uma Batalha Após a Outra quanto Pecadores são roteiros originais – ou seja, não adaptados – e trazem propostas estéticas que de acomodadas nada têm.

As seis estatuetas recebidas por Uma Batalha Após a Outra foram, ainda, o reconhecimento tardio de um diretor de Hollywood cuja carreira foi alavancada pelos grandes festivais europeus voltados ao que se chama, genericamente, de cinema de autor.

Décadas antes de subir ao palco do Dolby Theatre, visivelmente nervoso, apertando com força a estatueta – quase como se quisesse sentir se era mesmo de verdade –, Anderson já havia recebido o prêmio de melhor diretor nos três grandes festivais do mundo.

Em Berlim, foi laureado por Magnólia (2000) e Sangue Negro (2008); em ­Cannes, por Embriagado de Amor (2002); e, em Veneza, por O Mestre (2012). No Oscar, recebeu, ao longo de 28 anos, 11 indicações. Mas só agora recebe a honraria máxima da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de seu país.

E, provavelmente não por coincidência, à sua vitória como artista misturou-se o sentimento de que vencia também um cinema fragilizado – justamente esse que a Warner ainda faz.

A Warner Bros., colocada à venda, saiu da cerimônia como o estúdio mais premiado

No fim de fevereiro, a mídia norte-americana noticiou a compra da Warne­r Bros. Discovery pela Paramount Skydance. O negócio, avaliado em 111 bilhões de dólares, já enfrentou reveses.

Após investida inicial da Paramount Skydance, a Netflix também tentou, no fim do ano passado, adquirir o estúdio, tornando sua oferta pública e acirrando a disputa.

Na ocasião, o presidente Trump afirmou que qualquer transação desse porte teria de ser avaliada à luz das regras comerciais, dada a forte concentração de mercado. Passados poucos meses, a ­Netflix desistiu do negócio, e o caminho ficou livre para o grupo de David Ellison.

Agora, aguarda-se a aprovação regulatória para a fusão definitiva. Enquanto o serviço de vídeo sob demanda do grupo resultante, o Paramount Plus, possui 80 milhões de assinantes, a Netflix consolidou sua liderança global com 325 milhões.

E por que essa reconfiguração econômica é entendida como o fim de uma era do cinema? Porque uma joia da coroa da velha Hollywood passa a pertencer a uma empresa de streaming – cujo modelo de negócios é baseado em algoritmo e retenção de assinantes.

E se a Warner Bros. saiu da cerimônia como o estúdio mais premiado este ano – com 11 vitórias –, a Netflix consolidou-se como a outra grande força da noite, levando sete Oscars – seu recorde histórico. Uma delas foi a de Melhor Animação, por Guerreiras do K-Pop. E o CEO da maior plataforma do mundo, Ted ­Sarandos, estava lá para ver isso de perto. •


Uma categoria de pesos-pesados

Dos cinco indicados como Filme Internacional, três venceram em Cannes. Agora, só um ganhou. Mas todos chegaram lá

No palco. Wagner Moura foi um dos apresentadores – Imagem: Patrick T. Fallon/AFP

De 1929, quando começou a existir, até 1956, o Oscar foi uma premiação exclusiva do cinema norte-americano. A categoria de Melhor Filme Estrangeiro foi criada em 1957 e teve, como primeiro ganhador, A Estrada da Vida, de Federico Fellini.

O olhar da Academia para o que se fazia fora do território norte-americano remonta, no entanto, ao pós-Segunda Guerra Mundial. Em 1947, Vítimas da Tormenta, de Vittorio­ De Sica, recebeu um prêmio honorário. Itália, França e Japão foram
os três países a receber esse tipo de menção até a criação da categoria oficial – evidenciando tratar-se de um gesto não só cultural, mas político.

Durante muito tempo, o “Filme Estrangeiro”, foi, no entanto, uma categoria secundária, e dominada por produções europeias, que oscilava entre grandes nomes – Ingmar Bergman­, Luís Buñuel e Akira Kurosawa ganharam a estatueta – e produções de tom humanista e, não raro, saudosistas.

Foi em 2019 que houve uma mudança importante, acompanhada de uma reforma profunda no corpo de votantes. Ao convidar novos membros de outros países, o Oscar deixou de ser apenas o olhar dos norte-americanos para o mundo para tornar-se mais global.

O marco dessa nova fase é Parasita (2019). Desde então, obras com linguagem fragmentada, complexidade temática e diferentes ritmos têm se tornado mais presentes na lista dos indicados.

As indicações recebidas por O Agente Secreto refletem as novas feições do Oscar. Mas não só. Elas mostram que Kleber Mendonça Filho, assim como Walter Salles – que ganhou em 2025 com Ainda Estou Aqui – chegaram ao topo do que se pode definir como um cinema internacional de autor.

Nesse topo, figuram realizadores com carreiras sólidas e filmes que passam por um funil estreitíssimo. Dos cinco
indicados em 2026, três saíram premiados de Cannes – O Agente Secreto, Foi Apenas Um Acidente e Valor Sentimental. Agora, apenas um levou a estatueta. Mas todos chegaram lá. – Ana Paula Sousa

Publicado na edição n° 1405 de CartaCapital, em 25 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Hollywood no espelho’

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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