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A barbárie sob novas máscaras

O colonialismo, o racismo e a violência de Estado reaparecem sob novas máscaras

A barbárie sob novas máscaras
A barbárie sob novas máscaras
Donald Trump abraça Benjamin Netanyahu no Parlamento de Israel. Foto: Evelyn Hockstein / POOL / AFP
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“Muitas vezes invisíveis, vivos ou mortos, nossos pais nos acompanham a cada instante da nossa vida. Sem nos darmos conta. Como uma evidência. Como um arrependimento que carregamos eternamente. Não nos recuperamos da ausência deles. Morremos um pouco mais, todos os dias. Os meus eram e serão sempre uma fonte de força da qual bebo para me reerguer.”

— Rachid Benzine

Há coisas difíceis de mensurar na vida.

A dignidade é uma delas. Mas como medi-la? Quais são seus limites?

Nessas horas, temos de recorrer a nossos pais e avós para encontrar alguma métrica: o nome que carregamos, as posturas que eles adotaram diante da vida, a herança de fatos e recordações que não podem ser traídos por nós.

Primavera é o filme italiano que trata, de forma ficcional, dos anos da vida de Antonio Vivaldi na corte dos doges de Veneza, quando compôs As Quatro Estações, concertos para violino e orquestra.

O filme aborda, de forma alegórica, a difícil conquista da liberdade, o preço caro a pagar e as convenções que cerceiam suas margens.

Faz-nos indagar sobre nossa disponibilidade para conquistá-la e sobre os riscos envolvidos em atingi-la.

No momento em que a agressividade prevalece nas relações internacionais, com o senhor Tramposo à frente, ao lado de Narco Rubio e Benjamin Satanyahu, vale refletir sobre o valor da liberdade e o preço a ser pago por ela.

Em Filosofia Para Quem Não Vai Ser Filósofo (Tomo Editorial), Luis Fernando Munaretti da Rosa afirma:

“É natural do ser humano refletir, e, no entanto, a sociedade atual considera ‘anormal’ fazermos reflexões sobre questões importantes, as quais buscam atingir um conhecimento melhor do que aqueles existentes até então. A irreflexão, sim, que é ‘anormal’, quero dizer, ela parece ir contra a natureza do ser humano, parece ser uma artificialidade que sufoca todo ímpeto questionador. E talvez seja por isso que existam hoje tantas patologias sociais e psicológicas, a angústia, o pânico, a paixão desenfreada por ilusões de consumo e realizações de ordem econômica.”

Tenho dificuldade com a expressão “perseguir objetivos”, uma vez que as metas estão no futuro — e este simplesmente não existe.

Uma das melhores conversas que tive com meu pai foi quando ele me disse para não economizar, pois a vida passa muito rápido.

Mas tememos a liberdade. Talvez a temamos mais do que admitimos e almejamos.

Sua terminologia é explorada pela direita, que se apropria da imagem, mas distorce o conceito, reduzindo-o à mera desregulamentação econômica.

Em Pele negra, máscaras brancas (Editora Ubu), Frantz Fanon cita Aimé Césaire:

“Quando giro o botão do meu rádio e escuto que nos Estados Unidos os negros são linchados, digo que mentiram para nós: Hitler não está morto; quando giro o botão do meu rádio e fico sabendo que os judeus são insultados, desprezados, pogromizados, digo que mentiram para nós: Hitler não está morto; quando giro o botão do meu rádio e ouço que, na África, o trabalho forçado está instituído, legalizado, digo que, verdadeiramente, mentiram para nós: Hitler não está morto.”

Vendo Trump bombardear uma escola de meninas; Narco Rubio tratar a América Latina e o Caribe como colônia; e Satanyahu cometer um genocídio em Gaza, bombardeando e invadindo a Cisjordânia, o Líbano, a Síria e o Irã, cabe, de fato, perguntar se Hitler está morto ou se reencarnou nos três assassinos.

Na mesma obra, Fanon volta a citar Aimé Césaire, em Discurso sobre o colonialismo:

“Falo de milhões de pessoas a quem artificiosamente inculcaram o medo, o complexo de inferioridade, o estremecimento, a genuflexão, o desespero, a subserviência.”

Os que fizeram isso são os mesmos que se dizem a favor da liberdade e até libertários, como no caso do capacho Milei.

Para tentar entender esses agentes das trevas, podemos mais uma vez recorrer a Fanon:

“Jung normalmente equipara o estrangeiro com a obscuridade, com a má índole: ele tem plena razão. Esse mecanismo de projeção, ou de transitivismo, se assim preferirem, foi descrito pela psicanálise clássica. Na medida em que descubro em mim algo insólito, repreensível, só me resta uma solução: livrar-me disso, atribuir a paternidade disso a outro.”

Não é assim — e por isso — que ainda se demonizam os imigrantes atualmente?

É interessante notar que Fanon reproduz a lógica narrativa de Dostoiévski, aliando o coletivo ao individual em uma experiência singular de libertação, na qual o humanismo se une à ciência política e à subjetividade.

Contra o divisionismo daqueles que propagam o cativeiro, a dependência e o medo da liberdade, cabem a esperança, a luta e a inteligência — entendida como a capacidade de refletir para, então, compreender e incorporar a verdade.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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