Opinião

Há sinais promissores contra o precário concerto internacional

Até do Velho Continente vêm sinais de novo protagonismo diplomático

O presidente da Comissão da União Africana, Moussa Faki Mahamat, discursa numa conferência de imprensa em 20 de Novembro de 2023. Foto: Tobias Schwarz/AFP
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“Não fazer nada também é fazer algo. Não adie uma decisão importante nem evite agir porque acha que as coisas se resolverão sozinhas. Muitas vezes, aquele que não faz nada comete injustiça, não só aquele que faz alguma coisa” – Marco Aurélio

Essa assertiva do sábio imperador Marco Aurélio serve tanto para nossas vidas pessoais, quanto para a política, entendida como experiência coletiva.

Apesar do horror das atuais guerras, vemos como a cena internacional vai em busca de maior democracia entre os povos, a despeito da tentativa das potências coloniais de manter o status de metrópole exploradora das ex-colônias.

Entre as iniciativas que demonstram a ascensão de novos atores regionais, vemos, por exemplo, a Arábia Saudita, o país que mais cresce do G20, lançar a segunda linha área nacional, a Riyadair.

Evidentemente, sobre essa importante notícia, nem traço na imprensa local.

Compreende-se: como os colonizados daqui vão noticiar que empresas públicas são boas e prosperam até em país símbolo do capitalismo?

Ideologicamente compartimentados, não vão refletir sobre a importância de se contar com linha área própria, pública, que irá, inclusive, facilitar, baratear e tornar as exportações nacionais mais competitivas.

A estreiteza mental não lhes permite. Os amos, tampouco.

Mas como seria desejável que esse provincianismo estivesse limitado só à direita.

Entretanto, não está.

Por exemplo, quase nada se ouviu sobre o fato de a Tailândia, uma economia menor que a do Brasil, ter repatriado mais de 8 mil tailandeses vivendo em Israel, 10 dos quais foram sequestrados e libertados pelo Hamas, na primeira troca de prisioneiros.

Para isso, a diplomacia tailandesa envidou todos os esforços. O chanceler viajou ao Irã e ao Catar, em busca daquela liberação pelo Hamas.

Da África, outro sinal auspicioso: o presidente da Comissão da União Africana reiterou na semana passada, em Luanda, que seja a própria África a encontrar soluções para seus problemas, historicamente dilacerada pelas intervenções das ex-metrópoles, que só lhe trouxeram destruição.

Até do Velho Continente vêm sinais de novo protagonismo diplomático: o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sanchez, declarou que, caso a União Europeia não reconheça a independência da Palestina, a Espanha o fará, devendo ser seguida pela Bélgica, segundo declaração concomitante de seu homólogo belga.

São sinais promissores de que novos atores diplomáticos entram em cena, no Oriente Médio, na Ásia, na África e até na Europa, trazendo maior equidade ao precário concerto internacional.

Será importante que o Brasil colha e reflita sobre eles, seja para a reforma do Conselho de Segurança da ONU, seja para a democratização dos organismos financeiros de Bretton Woods: o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial.

No outro polo, o do desequilíbrio, temos a imprensa “ocidental”, estatal, sob controle dos respectivos governos neocoloniais, a BBC e a France 24 Heures, que – a par da cobertura totalmente pró-Israel do genocídio palestino, mas coerentemente pró-colonialismo – insistem em chamar o recém-eleito presidente da Argentina, Javier Milei, de “libertário”, o que é um escárnio com os verdadeiros libertários anarquistas que construíram a nação argentina, quando na verdade trata-se de um “liberticida”.

Evidentemente, O Estado de S. Paulo também o qualifica daquela forma, para surpresa de ninguém.

Vale notar que após a eleição de Milei, a Bolsa de Buenos Aires teve alta e os preços da cesta básica aumentaram entre 40 e 50% no país, deixando claro o contentamento com o caos de boa parte da oligarquia local e internacional, esta que, como no Brasil, controla boa parte da distribuição no país vizinho.

Em Virtudes para um outro mundo possível (editora Vozes), Leonardo Boff no recorda:

“Cabe lembrar uma vez mais a bela definição da ‘Carta da Terra’: ‘a paz é a plenitude que resulta das relações corretas consigo mesmo, com outras pessoas, outras culturas, outras vidas, com a Terra e com o grande Todo do qual somos parte’. Uma compreensão mais ampliada e política foi expressa pelo Secretário-Geral da ONU Kofi Annan por ocasião do lançamento do Ano Internacional da Paz em 2001: ‘A verdadeira paz é muito mais do que a ausência de guerra. É um fenômeno que envolve desenvolvimento econômico e justiça social; supõe a salvaguarda do ambiente global e o decréscimo da corrida armamentista; significa democracia, diversidade e dignidade; respeito pelos direitos humanos e pelo estado de direito; e mais, e muito mais…Nestas condições podemos construir a paz? A lição da história não é promissora. Segundo o historiador Alfred Weber, irmão de Max Weber, dos 3.400 anos de história da humanidade que podemos datar com documentos, 3.166 foram de guerra. Os restantes 234 não foram certamente de paz, mas de trégua e de preparação para outra guerra”.

O pensador conclui:

“Esse déficit em humanidade resulta de um tipo de sociedade com sua cultura correspondente que privilegia o indivíduo sobre a sociedade, valoriza mais a apropriação privada de tudo o que se produz do que a coparticipação solidária e fraterna, reforça mais mais os mecanismos de concorrência e da competição do que os valores da solidariedade e da cooperação, dá mais centralidade aos valores ligados ao masculino (no homem e na mulher) como a racionalidade, o poder, o uso da força, a vontade de dominação e a instauração da competição do que os valores ligados ao feminino (também no homem e na mulher) como a sensibilidade aos processos da vida, o cuidado e a disposição à cooperação”.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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