Guilherme Benchimol, da XP Investimentos, prova que a mentalidade bolsonarista é padrão na chamada elite

Fundador da boutique de investimentos comemora a redução das mortes na classe A e diz que o Brasil 'vai bem'

Covas abertas no cemitério Vila Nova Cachoeirinha, que atende a Brasilândia, bairro onde negros são metade da população e tem o maior número de mortes por Covid-19. Foto: José Cícero da Silva/Agência Pública

Covas abertas no cemitério Vila Nova Cachoeirinha, que atende a Brasilândia, bairro onde negros são metade da população e tem o maior número de mortes por Covid-19. Foto: José Cícero da Silva/Agência Pública

Opinião

O Fernando Morais tem lá a sua lista. Como ele se escondeu no mato bem antes da chegada do coronavírus para escrever um livro sobre a passagem do Lula pelo poder, não sei qual o tamanho atual, se uma lista de supermercado ou um catálogo telefônico. Arrisco-me, de qualquer maneira, a sugerir um nome: Guilherme Benchimol, fundador e presidente da XP Investimentos.

Em entrevista recente, Benchimol afirmou que o Brasil “vai muito bem” e irá “surpreender”. Falava das sequelas sanitárias do coronavírus, mas não só. Melhor seria dizer que “vai muito bem” o Brazil, aquele que não conhece o outro grafado com “s”. O otimismo do executivo se baseia na queda da curva de infectados e óbitos na classe A, nos bairros “nobres”, potenciais clientes da XP. Entendido. O aumento exponencial de casos nas periferias, o fato de o País ocupar a terceira posição em número diário de contaminados e mortos e de vários médicos e cientistas advertirem que este pedaço de terra governador por um Messias, mas abandonado por Deus caminha para se tornar o epicentro mundial da pandemia tornam-se uma nota de rodapé no comentário, um efeito estatístico colateral a ser subestimado a bem das projeções da planilha. E a planilha da XP diz que tudo “vai muito bem”.

Benchimol superou os concorrentes – e olha que a disputa é acirrada, enfrentar o véio da Havan no terreno das sandices exige preparo. Na mesma entrevista, o executivo conseguiu até a proeza de elogiar Nelson Teich, o ministro que lida com as palavras e com a lógica como coloca uma máscara de proteção. Não me ocorre ninguém tão ousado na defesa de uma tese.  A realidade paralela invade este mundo por outros portais além dos celulares do “gabinete do ódio”.

Um traço da loucura é insistir em um erro. Da ignorância, não aprender com o tropeço dos outros. Quando se une loucura e ignorância, e se subtrai a empatia, vira-se brasileiro. Depois dos vexames de Junior Durski, do Madero, de Alexandre Guerra, do Giraffa’s, e do Roberto Justus, cujo topete, desconfio, tem vida própria (e não concorda com as ideias da cabeça que o acomoda), imaginava-se que o Febeapá dos “iluminados”, ou illuminatis, tinha sucumbido aos fatos como um vírus em um cotovelo solitário. Iludidos, eu, você, talvez alguns clientes da XP.

No topo da pirâmide, na penthouse do 1%, Benchimol está alguns degraus acima de Durski, Guerra e Justus. Em outros tempos, seria definido como um oráculo, o que na linguagem de hoje em dia corresponde a chama-lo de influencer. Sua XP organiza e divulga o pensamento da fina flor do que, na falta de definição mais apropriada, costumamos chamar de elite. Por causa da escassez de pesquisas de opinião regulares dos institutos tradicionais, os levantamentos da boutique de investimentos viraram o termômetro do humor dos brasileiros e, em particular, dos endinheirados. O Judiciário, o Congresso, o Ministério da Economia, o varejo, a indústria, todos se rendem ao charme da corretora. Quer saber o que pensa o poder de fato e em tempo real? Assista a um live da XP. A empresa é a Marília Mendonça dos debates na internet.

No início do século passado, o antropólogo Claude Lévi-Strauss vaticinou: O Brasil vai passar da barbárie para a decadência sem conhecer a civilização. Não saberia dizer em qual estágio nos encontramos neste exato instante. Só sei que a turma de patinete da Faria Lima, a Little New York de Benchimol e assemelhados, e os esportistas de sunga e tênis na Baía da Guanabara, a “boca banguela”, segundo Lévi-Strauss, são os artífices da tragédia – eles e a presunção de que mandar no País a qualquer preço é um destino manifesto. Embora alguns torçam o nariz ou finjam desprezo, Bolsonaro é o presidente que mais se aproxima, em modos e pensamento, da visão de mundo da “elite” nacional. O Brasil que celebra e se embebeda nas lives de Eduardo Costa, que enfeita suas paredes com quadros de Romero Britto e conta os dias para tirar o mofo do apartamento em Miami “vai bem”, obrigado.

Há quem acredite, de boa fé, em uma ampla aliança contra o obscurantismo que empurra o Brasil – com “s” e com “z” – para o abismo. Provavelmente morrerá de tédio. Um novo pacto à Moncloa carece, nestes tempos, de personagens à altura (ou nem tanto) para ocupar as cadeiras ao redor da mesa de negociações. O arranjo é outro. A “ala militar”, os ministros “técnicos” e o Centrão vão garantir a governabilidade. Os mercados aplaudem, desde que tenham liberdade para comprar e vender. Não se esqueça, estamos no caminho certo. E Bolsonaro? Tanto faz. O bolsonarismo tornou-se uma força política maior do que o “Mito”. E talvez funcione melhor sem ele.

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É redator-chefe da revista CartaCapital.

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