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Governar é ouvir
Um Estado que desenvolveu algo tão complexo quanto o Pix não é capaz de nos livrar de calvários anuais como a prova de vida?
“As feridas da alma são curadas com carinho, atenção e paz.”
— Machado de Assis
Muitas vezes, governar é ouvir.
Por exemplo, pessoas de outra geração são chamadas a um recadastramento anual, caso sejam funcionários públicos aposentados — e ameaçadas de sanções se não o fizerem.
Ocorre que os mais idosos não somos da cultura informática, por sermos de outra época.
Ao não conseguirmos nos adaptar, temos de pedir socorro a filhos, netos etc.
Pior, os solteiros têm de pedir ajuda profissional e passar as senhas.
Ainda por cima, temos de fazer prova de vida, outra humilhação anual.
Um Estado que desenvolveu algo tão complexo quanto o Pix não é capaz de nos livrar desses calvários anuais?
Isso dá a medida do isolamento de quem governa, incapaz de ouvir a fila do pão ou aquela do coletivo, pois ambas não são nem sequer frequentadas por eles.
Em O poder do hábito (Editora Objetiva), Charles Duhigg observa: “…quando um hábito surge, o cérebro para de participar totalmente da tomada de decisões.”
Não é disso que se tratam essas cobranças abusivas, no conteúdo e na forma? Não é a inércia que ainda as mantém-nos assombrando? O que fez o governo de centro-esquerda para cessá-las ou ao menos facilitar sua execução? Não há nenhuma diferença entre o governo ilegítimo de Michel Temer, o genocida de Jair Bolsonaro e este, nesse quesito? Se há, que se demonstre, suprimindo ou modificando, pelo menos, o vexame a que são expostos aqueles que concederam o melhor de suas vidas ao bem público.
Na mesma obra, aquele autor complementa o pensamento: “Isso explica por que é tão difícil criar o hábito de fazer exercícios, por exemplo, ou de mudar nossa alimentação. Uma vez que adquirimos uma rotina de sentar no sofá em vez de sair para correr, ou de fazer um lanchinho sempre que passamos por uma caixa de donuts, esses padrões continuam para sempre dentro de nossas cabeças. Segundo a mesma regra, no entanto, se aprendermos a criar novas rotinas neurológicas que sejam mais poderosas que esses comportamentos… podemos forçar essas tendências nocivas a ficar em segundo plano.”
Coisas simples assim fazem enorme diferença para quem está do outro lado do balcão e permitem a percepção de que a direção está ao nosso lado, não apenas nos slogans…
A propósito, a presidenta do México acaba de atingir 83% de aprovação popular.
Sempre no âmbito internacional, uma luz no fim do túnel genocida israelense: o presidente de Israel recusou imunidade aos crimes comuns aparentemente cometidos pelo genocida primeiro-ministro de Israel. Bibi atrás das merecidas grades está cada dia mais próximo.
Sobre a importância de estarmos abertos à audição dos demais, o cardeal português José Tolentino Mendonça, em *A mística do instante* — editora Paulinas —, recorda: “A qualidade da escuta determina a qualidade da resposta… A vida de cada um de nós não se basta a si mesma: precisaremos sempre da audição do outro, que nos mira de um outro ângulo, com uma outra perspectiva e outro humor.”
No referido livro, o autor cita Ditos e feitos dos Padres do Deserto: “Percebermos agora. Amas aquele que verdadeiramente te escuta.”
Ainda naquela obra, o cardeal cita também Kafka, que, em diapasão contrário, ressalta a impossibilidade da solidão: “Nunca conseguiremos estar suficientemente sozinhos quando escrevemos, nunca há silêncio suficiente à nossa volta quando escrevemos, até mesmo a noite nunca é noite o suficiente.”
Vivemos em sociedade, somos seres gregários e políticos, quer queiramos ou não.
Em Poder, uma força sedutora (Editora Vozes), Anselm Grün afirma: “Karl Rahner acredita que, num mundo sem pecado, ou seja, no paraíso, o poder é desnecessário… Na opinião de Rahner, não podemos viver nossa liberdade de forma absoluta, mas apenas sempre num mundo moldado e limitado pelo poder dos poderosos.”
Grün nota: “…a palavra ‘virtude’ em alemão (Tugend) deriva de ‘taugen’, ser útil, servir, ser apropriado. Virtude é a capacidade de fazer algo de forma boa. Assim, sempre que exercemos o poder, devemos perguntar a nós mesmos se estamos fazendo jus a essas três virtudes.”
Nesse sentido, cita o profeta Oseias: “Uma pessoa que foi cegada pelo poder não se importa com a justiça. Mas o poder só se transformará em bênção se ele permitir que a justiça o guie. Aquele que semeia justiça colherá amor e paz.”
No campo externo, isso quer dizer pactuar com quem merece confiança. Não é o caso da chamada União Europeia, que, nem bem assinou acordo desvantajoso para o Brasil, suspendeu as importações de proteína animal brasileira, alegando salvaguardas fitossanitárias. Não respeitaram nem mesmo um prazo decoroso que escondesse a manobra…
Em A gente mira no amor e acerta na solidão (Editora Paidós), Ana Suy faz o contraponto do fechamento em nós mesmos: “A gente não ama o outro porque ele é nosso espelho, a gente ama o outro na notícia que ele dá de que há um mundo para além do nosso umbigo. Ter o nosso narcisismo furado é um baita alívio, e, no amor, é disso que se trata.”
Buscar o outro, de forma individual ou coletiva, é uma virtude, mas, no caso do acordo Mercosul-UE, supracitado, melhor seria a solidão. De resto, o que esperar de um instrumento previamente negociado por Temer e Bolsonaro?
Empresto as palavras da autora para encerrar estas reflexões: “Vemos que o problema não é, então, ficarmos verdadeiramente sozinhos, mas a dificuldade que muitas vezes pode vir de sermos acompanhados de nós mesmos.”
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