Renan Kalil

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Doutor em Direito pela Universidade de São Paulo e Procurador do Trabalho

Opinião

O gerenciamento algorítmico nas plataformas digitais

Sem levar em consideração o papel da programação e do algoritmo, não é possível entender as dinâmicas das novas relações de trabalho

(Foto: iStock)
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Apesar de não serem invenção recente, os algoritmos ganharam relevância a partir do seu uso em softwares para captura, armazenamento e processamento de dados. O objetivo é solucionar um problema ou executar de uma tarefa.

Embora esteja integrado em diversos aspectos do cotidiano, o algoritmo é apresentado como algo invisível. Isso o transforma em uma caixa preta, afastando-o do escrutínio do público e leva-o a ser encarado como um elemento natural. Contudo, não há neutralidade no gerenciamento de informações que dependem das escolhas de um dispositivo programado por pessoas para automatizar julgamentos.

Aceitar uma certa porcentagem de trabalhos; completar um número de tarefas por hora; ficar online por uma quantidade de minutos por hora e ter uma média de avaliações muito elevada colocam trabalhadores em um seleto grupo que tem acesso a melhores condições de trabalho

O gerenciamento algorítmico é a automação de atividades anteriormente atribuídas a gerentes, contadores, atendentes e trabalhadores do setor de recursos humanos. Os algoritmos passam, por exemplo, a distribuir atividades entre os trabalhadores, a fixar do valor do trabalho, a indicar o tempo para realização de dada tarefa. Também estabelecem a duração de pausas, a avaliação dos trabalhadores, a aplicação de sanções, dentre outras coisas.

O sistema de avaliações é um dos principais instrumentos do gerenciamento algorítmico. Parte das empresas proprietárias de plataformas digitais dá a seus clientes a chance de dar notas aos trabalhadores. Essa avaliação leva em conta a expectativa gerada pela empresa sobre a prestação do serviço, o que influi na distribuição de trabalho e na continuidade do vínculo com o trabalhador. Ter uma avaliação média muito alta garante trabalho em localidades preferenciais.

E para que seja possível continuar trabalhando para as empresas, os trabalhadores devem manter uma média alta; uma média inferior ao patamar estabelecido pela empresa acarreta punições, que vão desde a suspensão até a exclusão definitiva do cadastro (ou seja, a dispensa).

A assiduidade dos trabalhadores tem grande influência na distribuição de trabalho. A maior parte das empresas espera que os trabalhadores aceitem as atividades que lhes são designadas quando estão conectados – a rejeição, conforme se repete, provoca desde a redução do envio de tarefas até a suspensão temporária de acesso à plataforma.

Outro aspecto é a remuneração dos trabalhadores. O preço das tarifas são determinados unilateralmente pelas empresas, e raramente os trabalhadores são informados quanto receberão antes de aceitar uma tarefa. Algumas empresas adotam o preço dinâmico, em que o valor do serviço sobe em razão do aumento de sua demanda. A formatação do preço dinâmico é feita pelos algoritmos, sem qualquer explicação aos trabalhadores.

Ainda sobre a remuneração, instituem-se promoções e bônus com o objetivo de estimular os trabalhadores a realizarem mais atividades. Engenheiros de software de uma conhecida empresa relataram que programam a oferta de bônus aos trabalhadores comparando-os a coelhos, para os quais deixam sempre a cenoura (ou o dinheiro) ao seu alcance a fim de que continuem se movimentando (ou trabalhando) para obtê-la.

As empresas também dividem de seus trabalhadores baseando-se em critérios por elas fixados. Aceitar uma certa porcentagem de trabalhos; completar um número de tarefas por hora; ficar online por uma quantidade de minutos por hora e ter uma média de avaliações muito elevada, colocam trabalhadores em um seleto grupo que tem acesso a melhores condições de trabalho, como promoções mais frequentes, aplicação de multiplicador de ganhos e tarefas mais vantajosas. Não atender a estes parâmetros implica menos oportunidades de trabalho.

Essa segmentação cria uma hierarquia entre os trabalhadores e dissemina insegurança, uma vez que os critérios de classificação são opacos e instáveis.

Em todos esses casos, as empresas é que fixam as regras para designar quem deve realizar determinada tarefa, eventuais sanções, o valor de cada atividade, ofertam bônus e promoções e asseguram vantagens para trabalhadores que atendam às suas demandas de disponibilidade. A partir de dados, os algoritmos processam as informações recebidas e colocam em prática as políticas das empresas.

As técnicas de gestão de mão-de-obra evoluíram nas últimas décadas e, sem levar em consideração o papel da programação e do algoritmo, não é possível entender as dinâmicas das relações de trabalho nesse modelo.

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