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Unidade em 2022

Não basta construir uma estratégia para as eleições, é preciso criar conjuntamente um projeto para o País

Foto: Reprodução/Instagram
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A eleição do ano que vem será uma verdadeira guerra. Bolsonaro, apesar de todo o desastre de seu governo, não é cachorro morto. A margem de manobra que deverá ter com a PEC dos Precatórios e o pagamento do Auxílio Brasil pode torná-lo mais competitivo e permitir com que atraia parte expressiva do establishment. Na medida em que a terceira via segue sem nome nem rumo, a tendência é, de fato, uma polarização entre Lula e o genocida. As eleições do Chile são um alerta de que a extrema-direita segue viva na América Latina.

Este cenário coloca na ordem do dia a construção da unidade da esquerda contra Bolsonaro. Durante 2021 atuamos para viabilizar essa unidade nas mobilizações sociais, com sucessivos atos nacionais. As campanhas e manifestações de combate à fome também foram nessa direção. Agora é momento de construir as condições para a unidade política nas eleições de 2022, evidentemente sem descuidar das ruas. Não há dúvidas de que Lula é, hoje, o melhor nome para canalizar a unidade progressista no processo eleitoral. Por sua história e capilaridade nos setores populares e por sua posição nas pesquisas, Lula é quem tem melhores condições de derrotar Bolsonaro.

Mas precisamos entender a dimensão dessa tarefa. Não se trata apenas de superá-lo nas urnas, é preciso também derrotar o projeto de seu governo. Em três anos, avançaram como nunca na destruição do Estado brasileiro, aprofundando uma agenda neoliberal que devolveu o País ao mapa da fome e produziu desemprego recorde. Além disso, a aliança de Bolsonaro com o “Centrão” loteou o orçamento da União de forma inédita. Ao pulverizar a capacidade de investimento público em emendas parlamentares, o governo abriu mão de qualquer planejamento e terceirizou o poder real para Arthur Lira, que opera como um verdadeiro primeiro-ministro.

Este será o Brasil que teremos em 2023, se o campo progressista vencer as eleições. Um país com terra arrasada e praticamente ingovernável. É muito diferente do cenário de 20 anos atrás, quando Lula ganhou sua primeira eleição. O desafio inicial será o de reconstrução nacional. Para isso, precisaremos ter mais ousadia, desde a disputa de consciências na campanha eleitoral até as políticas de governo. As eleições precisarão disputar votos, mas também um projeto de país. Nesse sentido, precisaremos realizar um debate amplo entre as forças progressistas dispostas a viabilizar uma frente de oposição a Bolsonaro. Entendo que ao menos três pontos devem ser colocados como balizas iniciais.

O primeiro é a revogação do teto de gastos. Essa amarra aprovada por Temer bloqueia qualquer possibilidade de desenvolvimento nacional. Para recuperar o emprego, o Brasil terá de realizar um plano forte de obras públicas, em infraestrutura, saneamento, moradia popular e outras áreas. Isso simplesmente não cabe no teto e seria ingenuidade acreditar que o Congresso e o establishment farão as mesmas vistas grossas que fazem com os furos da dupla Bolsonaro/Guedes. Substituir o teto por uma nova regra fiscal que possibilite o investimento social e seja expansiva nos momentos de crise, é condição para um governo popular.

O segundo ponto é uma reforma tributária progressiva. Lula pôde fazer políticas sociais em seus dois mandatos sem alterar o sistema tributário porque o crescimento econômico da época permitia investimentos sociais por manejo orçamentário. Esse não é mais o cenário nem no Brasil nem no mundo. Tanto é que vários países – a começar pelos EUA, com o plano Biden – têm colocado na agenda a tributação progressiva, com imposto sobre grandes fortunas, tributação de lucros e dividendos e aumento da taxação dos bancos e operações financeiras. Chegou a hora de o Brasil enfrentar esse gargalo.

O terceiro ponto é a agenda ambiental. A rejeição de Bolsonaro na comunidade internacional está diretamente ligada à sua postura de liberação do desmatamento na Amazônia e à falta de compromisso com medidas de combate às mudanças climáticas. Isso nos dá a oportunidade de uma agenda ambiental mais ousada. O Brasil precisa pautar o desmatamento zero, a garantia das terras indígenas e um projeto de transição energética e de modais de transporte que nos coloque na vanguarda do movimento para zerar as emissões de carbono até 2050, meta do IPCC. O modelo primário-extrativista, além de destrutivo ambientalmente, reduziu a nossa soberania nas relações globais de troca.

Enfim, a unidade para vencer Bolsonaro precisa ser também uma unidade para derrotar o projeto político e econômico de seu governo. Esse debate precisa ser aberto o quanto antes na esquerda, com a participação dos partidos, movimentos sociais e de ativistas nos quatro cantos do País.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1185 DE CARTACAPITAL, EM 25 DE NOVEMBRO DE 2021.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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Guilherme Boulos

Guilherme Boulos Coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Foi candidato à Presidência da República em 2018, pelo PSOL.

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