Uma trégua pela democracia

Somente uma ampla e generosa frente de todos os espectros políticos pode criar as condições necessárias para o impeachment

Ciro Gomes, pré-candidato à Presidência da República pelo PDT. Foto: Divulgação

Ciro Gomes, pré-candidato à Presidência da República pelo PDT. Foto: Divulgação

Frente Ampla

Mais uma vez, parte do povo brasileiro se mobilizou para defender a sua democracia. Partidos e movimentos de diversas orientações políticas reuniram-se em 2 de outubro para pedir que a Constituição seja cumprida e o impeachment do presidente criminoso que hoje ocupa o Planalto. Mais uma vez eu estava lá, de peito aberto, para lutar pelo povo brasileiro. Sabia que enfrentaria os radicais. Mas não fui às ruas para dar lição a ninguém, e sim para oferecer minha história e minha experiência. Luto contra o autoritarismo desde a minha juventude, e posso dizer que até aqui tenho sido vitorioso juntamente com o povo nesta luta.

As manifestações cresceram em relação a 12 de setembro, mas, ainda assim, estão muito abaixo do público necessário para tirar o presidente da Câmara, Arthur Lira, de sua inércia em relação ao impedimento do presidente. Em meu último artigo para CartaCapital, alertei que a antecipação da disputa eleitoral de 2022 estava desmobilizando os protestos pelo impeachment. O PT trabalhou abertamente contra a mobilização dos protestos do dia 12, e agora o MBL esteve ausente dos protestos de 2 de outubro.

Atos de violência mais uma vez foram cometidos por pequenos setores radicalizados, que não deixam nada a dever em autoritarismo e intolerância ao bolsonarismo mais radical. São pessoas que, sabemos bem, sonham com um paredão para chamar de seu, e não com democracia. Esses episódios de violência, aliados à exploração eleitoral, afastam a grande massa das manifestações. Essas atitudes certamente partem de quem, de fato, não está interessado no impeachment. A maior parte da população entende isso perfeitamente, e não quer ser massa de manobra. Sem ela, não será possível deter o genocida golpista.

Bolsonaro tem de sofrer impeachment por vários motivos. Por ameaçar nossa democracia, ameaçar nossas instituições, interferir em seu livre funcionamento, ser responsável por mais de 600 mil mortes, por envolvimento em negociações ilegais de vacina, por destruir nossa imagem no exterior, por charlatanismo, por atuar contra as recomendações sanitárias na pandemia, por incinerar a Amazônia. Mas tudo isso pode ser resumido ao fato de que não podemos deixar impune o presidente mais criminoso da história do País, sob o risco iminente de desmoralizarmos a Constituição e o instituto do impeachment para sempre.

 

Para abrirmos o processo, precisamos de 342 deputados. Essa não é tarefa fácil, se lembrarmos que os autodenominados partidos “progressistas”, caso realmente estejam determinados a fazer o impeachment, só contam com 120 votos nesta legislatura.

 

Quem for verdadeiramente contra o golpe, quem for verdadeiramente a favor do impeachment, quem de fato é democrata e quer lutar pela democracia, tem de ser generoso, tem de abraçar todos os democratas de todos os espectros políticos nesta luta, pois somente uma ampla e generosa frente pode criar as condições necessárias para iniciar o processo.

Não vamos dar valor a esses pequenos incidentes já no passado, mas sim aprendermos com eles. Proponho aqui uma trégua durante as manifestações. Proponho que busquemos trazer políticos do MDB, do DEM, do PSDB, do PSD, movimentos como o MBL e todos os que estejam tendendo para o impeachment. E que garantamos um ambiente de paz e festa da democracia.

Não só isso. Proponho, para energizar o movimento, que realizemos atos toda semana, mas em uma única e diferente capital do País de cada vez. Assim poderíamos trazer todas as lideranças e concentrar esforços de mobilização para um único lugar, com a presença de artistas que assumam a causa, como uma nova campanha das “Diretas Já”.

Realizar essa trégua com todos os democratas não significa colocarmos de lado nossas diferenças de concepções, ideias, valores e projetos no dia a dia. Continuarei criticando não só o PT, mas projetos e ideias com os quais não concordo em todos os partidos. A trégua é nos atos e pelos atos, na luta pelo direito de criticarmos as ideias que bem entendermos, sem sofrermos violência. Esta é a essência da democracia e de nossa luta.

Para lutar realmente pela democracia, e não por candidaturas, os atos deveriam se concentrar em duas únicas pautas: o impeachment de Bolsonaro e a defesa da Constituição.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1178 DE CARTACAPITAL, EM 7 DE OUTUBRO DE 2021.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Filiado ao PDT, foi ministro da Integração Nacional e da Fazenda e governador do Ceará.

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