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Tortura, o limiar do humano

Não surpreende o ataque do filhote de Bolsonaro contra a jornalista Miriam Leitão. O que choca é a sociedade não reagir a tamanha infâmia

Foto: EVARISTO SA / AFP
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“Fui levada para uma grande sala vazia. (…) Chegaram três homens à paisana. Mandaram eu tirar a roupa. Fui tirando, constrangida, cada peça. Quando estava nua, eles mandaram entrar uns dez soldados na sala. Eu tentava esconder minha nudez com as mãos. Os soldados ficaram me olhando e os três homens à paisana gritavam, ameaçando me atacar (…) um homem voltou trazendo uma cobra grande, assustadora, que ele botou no chão da sala, e antes que eu a visse direito apagaram a luz, saíram e me deixaram ali, sozinha com a cobra. (…) Eu não tinha noção de dia ou noite na sala escurecida pelo plástico preto. E eu ali, sozinha, nua. Só eu e a cobra. Eu e o medo. (…) Não era possível nem chorar, poderia atrair a cobra. Passei o resto da vida lembrando dessa sala de um quartel do Exército brasileiro.”

Esses são trechos do depoimento da jornalista Miriam Leitão à Comissão Nacional da Verdade, sobre o momento em que foi torturada pela ditadura. Era dezembro de 1972, estava presa em um quartel de Vila Velha, no Espírito Santo. Miriam foi retirada da cela e escoltada até o pátio sob tapas, chutes e golpes que abriram a sua cabeça, após horas intermináveis trancada na sala escura com uma jiboia. A caminho do pátio, os torturadores avisaram que seria último passeio, ameaçando que seria fuzilada.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Guilherme Boulos

Guilherme Boulos
Coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Foi candidato à Presidência da República em 2018, pelo PSOL.

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