Protestos de rua podem ser a fagulha que falta para derrotar Bolsonaro

Não é desejo de ninguém ir às ruas neste momento. Mas estou entre aqueles que defendem que as circunstâncias não nos deixam alternativas

 Foto: Reprodução

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Frente Ampla

A esquerda brasileira e os movimentos populares têm debatido a retomada das mobilizações de rua. Não é uma decisão fácil. Estamos ainda numa situação delicada da pandemia no País, em grande medida pela condução criminosa do governo Bolsonaro, e com o risco de uma terceira onda. Certamente, não é desejo de ninguém ir às ruas neste momento. Mas estou entre aqueles que defendem que as circunstâncias não nos deixam alternativas. Sim, é hora de retomar as manifestações. Com cuidados redobrados e orientação correta.

Está cada dia mais claro que não há porta de saída para a pandemia com Bolsonaro no governo. A expectativa de que poderíamos esperar o fim da crise sanitária para então nos mobilizarmos contra o genocídio, a fome e pelo impeachment mostrou-se irreal. Ao manter as mesmas políticas sanitárias e, principalmente, trabalhar contra o processo de vacinação, o governo Bolsonaro criou as condições para a terceira onda e, se permanecer lá até o fim de 2022, para uma quarta e outras ondas de contágio e morte pelo coronavírus.

 

Se seguirmos o ritmo atual de imunização, a população brasileira só estará integralmente vacinada em 2024. Há, inclusive, importantes pesquisadores, como a professora Deisi Ventura, que falam na hipótese de a pandemia converter-se no Brasil numa endemia, ou seja, incorporar-se à vida social por longo período, mais controlada do que hoje, mas alternando momentos de picos e recuos.

Enquanto isso, Bolsonaro faz do Brasil terra arrasada. Temos 14 milhões de ­desempregados, voltamos ao mapa da fome de modo dramático e a agenda neoliberal de Paulo Guedes tenta limpar a prateleira e entregar o que restou do patrimônio nacional. Não há mais como esperar. Aliás, a maior parte do povo nem sequer teve direito a quarentena. Milhões de trabalhadores estão nas ruas diariamente, em ônibus e trens lotados, buscando garantir o pão na mesa, sobretudo após os cortes no auxílio emergencial.

A única forma de assegurar o isolamento social em massa num país tão desigual como o nosso teria sido manter um auxílio com valor digno aos desempregados e informais, garantia do emprego aos trabalhadores formais e apoio com crédito emergencial a pequenos comerciantes e microempresários. Essas medidas, quando ocorreram, foram erráticas e tiveram prazo limitado, o que foi decisivo para o descontrole da pandemia.

Não existe solução para esses problemas com Bolsonaro no governo, e pedir que simplesmente se espere pacientemente até 2022 é faltar com empatia com quem não tem nenhuma alternativa e todos os dias arrisca-se nas ruas para buscar a sobrevivência. Como ensinaram os colombianos, quando um governo se torna mais perigoso do que o vírus, é preciso reagir contra ele. Aqui, o governo Bolsonaro potencializou os efeitos do vírus a ponto de nos tornar o pior país no combate à pandemia. E continuará agindo assim, enquanto não for tirado do poder. O caminho mais viável para isso é o impeachment, que depende de três condições, além da existência de crime de responsabilidade: perda de apoio social, crise política e mobilizações de rua.

Crimes de responsabilidade não faltam a Bolsonaro. É uma verdadeira ficha corrida. Em termos de apoio social, ele está nos piores níveis desde que assumiu o governo, descendo cada vez mais próximo do seu piso de apoio composto de fanáticos e terraplanistas. A CPI do Genocídio criou as condições para a corrosão da sua base de apoio político. Há algum tempo o fiel da balança que sustenta o governo é sua aliança fisiológica com o Centrão, mas mesmo com a farra de emendas, o escândalo dos tratores superfaturados e a oferta de ministérios, esse acordo tem fragilidade. O Centrão não é nem nunca foi leal a qualquer governo. Ajudaram a eleger Dilma e a traíram, mesmo ocupando postos no governo, quando seus interesses levaram para outro caminho. Os deputados do Centrão estão focados na batalha da reeleição e, com Bolsonaro tornando-se tóxico em suas bases sociais, não afundarão com ele. A crise de popularidade do governo e a piora do ambiente político com a CPI podem corroer a base bolsonarista e criar as condições para o impeachment.

Não existe solução para esses problemas com Bolsonaro no governo, e pedir que simplesmente se espere pacientemente até 2022 é faltar com empatia com quem não tem nenhuma alternativa

Para isso, as ruas são fundamentais. A retomada de mobilizações pode ser a fagulha que falta para derrotar Bolsonaro. É evidente que temos o dever político e ético de conduzir esse processo com responsabilidade. Não podemos reproduzir as práticas e exemplos bolsonaristas de gente sem máscara e sem cuidados básicos nas manifestações. Por isso, quem for às ruas no dia 29 e nas mobilizações que virão, siga as recomendações: use máscara PFF2 ou N95, busque manter a distância regulamentar e use álcool em gel todo o tempo. Lutar contra o genocídio é um serviço essencial, daí a legitimidade das manifestações, mas façamos com todos os cuidados por nós e pelos nossos.

Publicado na edição nº 1158 de CartaCapital, em 27 de maio de 2021.

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Coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Foi candidato à Presidência da República em 2018, pelo PSOL.

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