Precisamos falar sobre as ameaças a Manuela e sua filha

'Essas atitudes são fruto de uma sociedade ideologicamente doente, que não sabe mais conviver com o contraditório', escreve Jandira Feghali

Manuela D'Ávila. Foto: Reprodução/YouTube

Manuela D'Ávila. Foto: Reprodução/YouTube

Frente Ampla

Num país verdadeiramente democrático e que eu defendo, as mulheres deveriam ser livres de uma vida sem violência. Deveriam poder optar pela vida pública sem que se tornassem alvo de preconceito, ódio, assédio e discriminação. Poderiam expor, orgulhosas, fotos de seus filhos e filhas em redes sociais como prova de amor, de companheirismo e de realização. Exporiam livremente suas opiniões sem que isso fosse motivo para ataques e ameaças.

Lamentavelmente, essas coisas, aparentemente simples, são inalcançáveis neste ambiente polarizado que é alimentado pelo ódio e intolerância no dia a dia. Vivemos tempos estranhos em que defender determinadas pautas virou crime. Um crime sem qualquer sustentação racional, sem direito a julgamento e punível com cancelamentos, xingamentos e perseguição, inclusive aos membros da família de quem “ousa” desafiar o senso comum e lutar por uma sociedade generosa e justa. Onde a solidariedade ocupe o lugar do individualismo e a compaixão impulsione os gestos das pessoas em direção ao sofrimento do outro.

O crime no Brasil atual é ser mulher, lutar pela concretização de ideias e confrontar quem pratica as políticas geradoras de fome, morte e desigualdades. E algumas pessoas se atrevem a achar “normal” expor e ameaçar de estupro uma criança de 5 anos para atingir o objetivo de, na falta de argumentos, aniquilar a mãe, que julgam sua inimiga.

A sociedade precisa entender que o verdadeiro crime é ameaçar de estupro e morte. Nós, mulheres que enfrentamos diariamente os obstáculos para exercer a vida pública, não nos calaremos. Nada justifica as cruéis ameaças que Manuela, sua filha Laura e seus familiares vêm sofrendo. Essas atitudes são fruto de uma sociedade ideologicamente doente, que não sabe mais conviver com o contraditório e que vê numa guerra suja, criminosa e vil a única opção para eliminar adversários.

As mulheres têm sido as maiores vítimas, mas Manuela tem sido o alvo principal das redes de ódio e de fakenews desses manipuladores, que têm ojeriza à democracia. Já agrediram fisicamente sua filha, quando bebê, e agora esta ameaça imoral, inescrupulosa e violadora das leis e do código penal.

Todos nós deveríamos nos revoltar contra o que assistimos. Todos deveriam exigir apuração e punição rigorosas para quem usa as redes ou as ruas para promover ataques, ameaças e destilar mentiras. Enquanto apenas uma parte se revolta, espero que majoritária, a minoria impune continua se valendo de atitudes ilegais. Isso afeta a todas nós, mulheres, pois é uma péssima referência e um desestímulo para que permaneçamos na vida pública.

E, por isso, Manuela não se cala. Por isso, não nos calamos. É no nosso compromisso com as outras e com a superação das profundas desigualdades que encontramos forças para enfrentar tamanha crueldade até que um dia o Brasil perceba que é fundamental que exista o protagonismo das mulheres e da pluralidade de pensamentos e opiniões.

O que não podemos admitir é que passe sem punição qualquer tipo de violência contra as mulheres e, neste caso, a violência política de gênero e a violação explicita do estatuto da criança e do adolescente.

Justiça para Manuela e Laura. Paz para as duas. Justiça e paz para todas as mulheres, mães ou filhas, que não abandonam o caminho que escolheram e se mantêm firmes ecoando suas vozes e dando as mãos por um outro Brasil!

Força, Manu!

Nosso carinho para Laura!

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É deputada federal (PCdoB-RJ) e vice-líder da Minoria na Câmara dos Deputados.

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