O que é uma cabeça rolando diante de 500 mil mortos?

A cabeça do ex-ministro do Meio Ambiente não tem peso nem dimensões suficientes para servir de biombo ao atraso na compra de vacinas

Foto: Reprodução/Twitter Ricardo Salles

Foto: Reprodução/Twitter Ricardo Salles

Frente Ampla

Depois de desfilar boiadas para cima e para baixo, na cara do povo brasileiro, finalmente caiu o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, o homem que deveria cuidar das nossas florestas, mas é acusado de favorecer contrabando de madeira.

Poderíamos comemorar, mas é bom lembrar que Salles caiu exatamente quando o País, traumatizado por mais de meio milhão de mortos pela pandemia de coronavírus, se dá conta de que o atraso na compra de vacinas se encaixa nas denúncias de superfaturamento da Covaxin, imunizante que ainda não tinha comprovação de eficácia nem avaliação sobre sua segurança quando o governo Bolsonaro resolveu fechar contrato com o laboratório fabricante, o indiano Bahrat Biotech.

Para os pouquíssimos que podem ter andado distraídos, recapitulo: Bolsonaro não quis comprar a Coronavac e fugiu da Pfizer. Mas comprou a Covaxin por um preço muito superior ao de mercado. A vacina não tinha licença da Anvisa, mas tinha um intermediário que vai ganhar muito dinheiro.

A cabeça de Salles não tem peso nem dimensões suficientes para que possa servir de biombo a um fato incontornável: o atraso na compra de vacinas

O acordo era gastar R$ 1,61 bilhão para adquirir os imunizantes da Covaxin 1000% superfaturados. E Bolsonaro sabia de tudo.

Voltando à defenestração do passador de boiada, é preciso dizer que é bom para o Brasil livrar-se de um Ricardo Salles. Mas convém não esquecer como funciona o cinismo à moda bolsonarista: outro ministro nefasto, Abraham Weintraub, que tanto infelicitou a Educação brasileira, também emprestou a cabeça para rolar pelos noticiários exatamente quando foi preso Fabrício Queiroz, acusado de chefiar o esquema de rachadinhas no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro.

A cabeça de Ricardo Salles não tem peso nem dimensões suficientes para servir de biombo ao atraso na compra de vacinas é o grande responsável pelos mais de 500 mil mortos, pelas UTIs lotadas, pelo estresse diários de quem tenta se proteger do vírus, pelas empresas e comércios falidos, pelo desespero de quem ficou sem trabalho, pela falta de perspectivas de retomada de alguma normalidade no Brasil.

Já era monstruoso imaginar que o desleixo na compra das vacinas pudesse ter sido consequência de “incompetência” ou “teimosia”. Ter cada vez mais claro, porém, que isso foi resultado de uma manobra para encher os bolsos de alguém nos coloca diante de um nível de perversidade similar ao que engendrou as câmaras de gás nazistas, os genocídios em Ruanda, na Armênia e contra o povo Rom.

A avalanche de revelações cada vez mais estarrecedoras sobre como Bolsonaro e sua chusma jogaram com a vida do nosso povo causa indignação, raiva, horror. Que o choque, porém, não nos paralise. Que as cabeças rolando no noticiário não nos distraiam.

Nós, sobreviventes, temos a obrigação de deter o genocídio e punir os responsáveis.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É senador pelo PT do Rio Grande do Norte.

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