O Brasil é imbatível quando joga junto

Nem nos nossos piores sonhos, imaginávamos combater uma pandemia e resistir a um governo negacionista

Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado

Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado

Frente Ampla

Até pouco tempo, a realização das Olimpíadas 2020 não era uma certeza. Não à toa, elas estão sendo realizadas agora, em 2021. O mundo, na data de hoje, ultrapassa as quatro milhões de mortes por Covid-19. O Brasil, em suas especificidades, se aproxima dos 555 mil óbitos, em meio à alta de preços da cesta básica, do gás de cozinha, da gasolina e do índice histórico de atuais 14,8 milhões de desempregados.

Chegamos às Olimpíadas com uma crise política sem precedentes. Era difícil prever como o povo se portaria diante das transmissões sabendo da nossa realidade. O Brasil tem 302 atletas em 35 modalidades nas Olímpiadas de Tóquio e, a esta altura do campeonato, nossa equipe nos mostrou que o esporte não é apenas entretenimento. É sinônimo de luta, de esperança e de superação de obstáculos. Basicamente tudo que precisamos hoje no País.

As redes sociais são as responsáveis pela externalização desse espírito esportivo contagiante do brasileiro. Foi na prata da Rayssa Leal que refletimos a espontaneidade e o ânimo de uma criança que, na prática de um esporte ainda marginalizado no país, fez o povo sorrir e torcer como nunca. Foi com Kelvin Hoefler, também no Skate, com Daniel Cargnin no judô e com Ítalo Ferreira no Surf, que vieram nossas primeiras medalhas e também aquele choque de realidade na torcida verde e amarela: os nossos heróis estavam pra jogo! E a torcida brasileira não deixa brasileiro sozinho em competição, vide Daiane dos Santos, com o som falhando em 2005, quando a torcida se encarregou de continuar a tocar Brasileirinho nas palmas.

A propósito, Rebeca Andrade conquistou, nessas Olímpiadas, a primeira medalha feminina do Brasil na ginástica artística. Um feito inédito, mas que no coração do brasileiro, já estava escrito. Além dos nossos atletas já medalhistas, temos equipes em campo, na ginástica, no futebol masculino, handebol, atletismo, vôlei, iatismo e outras modalidades ainda em disputa.

 

 

 

Infelizmente, não se pode ganhar todas as medalhas, e choramos juntos com nossa gloriosa seleção feminina de futebol na derrota nos pênaltis, a lesão da Maria Suelen no judô e as desclassificações injustas de Maria Portela no judô e de Gabriel Medina no Surf. É importante que se destaquem as derrotas por um fator importante: o brasileiro não lida com a derrota no esporte como lida com a derrota em outros setores.

Para o telespectador canarinho, nossos atletas são heróis que superam as dificuldades diárias do nosso País, a falta de investimentos e que chegaram ali por mérito próprio e só isso já bastaria para gerar orgulho.

Não temos tido dias fáceis e a resiliência tem sido quase uma imposição ao nosso povo. A chegada das Olímpiadas faz renascer o que há meses havíamos esquecido que existia em nós: a esperança da vitória. Nem nos nossos piores sonhos, imaginávamos combater uma pandemia e resistir a um governo negacionista que optou por propina em vez de vacina para salvar vidas. Mas nem nos nossos melhores sonhos esperávamos que o sorriso do nosso povo, tímido e retraído, se recolocaria por meio dos braços, das pernas, da força de atletas que vivem e conhecem de perto o dia a dia do Brasil.

A esperança do renascimento é uma incógnita. A luta por vacinas, pela superação da pandemia e pela volta à mínima normalidade no país, há tempos não é tão palpável. Os nossos atletas têm nos dado o direito a sonhar com dias melhores. Está sendo devolvido às nossas crianças o interesse pelo esporte, aos nossos adultos e jovens, aquele fervor no peito esperando a hora do grito de “É NOSSA!”. Esperamos, de todo coração, que essa energia dê alívio aos nossos compatriotas e que se estenda à resolução e superação dos problemas sociopolíticos que estamos enfrentando em nosso país.

Não é difícil admitir: nós jogamos muito bem quando jogamos juntos. O Brasil é imbatível enquanto equipe, insuperável enquanto torcedor e, francamente, o pódio das Olímpiadas é pouco para o que hoje representam os nossos atletas.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

Responda nossa pesquisa e nos ajude a entender o que nossos leitores esperam de CartaCapital

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

É senador pela Rede/AP, professor, graduado em História, bacharel em Direito e mestre em Políticas Públicas.

Compartilhar postagem