Ninguém está seguro no Brasil de Bolsonaro

Bolsonaro é um presidente tão ruim que eu já me daria por satisfeito se ele cuidasse apenas de seus eleitores

Ninguém está seguro no Brasil de Bolsonaro

Frente Ampla

O Brasil vem acompanhando com muita atenção e expectativa os trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a Covid-19. Na condição de senador da República, tenho procurado contribuir com as investigações, ainda que não seja membro da CPI.

É meu dever e minha responsabilidade de membro do Parlamento participar do esforço para elucidar as ações e omissões que já mataram mais de 450 mil dos nossos compatriotas.

Entre milhares de documentos, testemunhos e debates, o que já podemos afirmar é que a comissão de investigação — não despropositadamente chamada de CPI do Genocídio — coloca a nu o descompromisso do governo Bolsonaro com a vida do nosso povo.

Os depoimentos da última semana—da chamada “Capitã Cloroquina”, a médica bolsonarista Mayra Pinheiro, e do diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas—só reforçam essa constatação.

Não houve descaso, houve deliberação de não adquirir vacinas. Descaso houve com o suprimento de oxigênio para Manaus, que condenou dezenas à morte por asfixia — um meio cruel, listado no Código Penal como agravante de homicídio.

E ninguém, rigorosamente ninguém está a salvo no Brasil de Bolsonaro, um homem que não compreende o conceito de povo. Divide os habitantes do País entre “claque” e “inimigos”.

 

Para os inimigos, já estamos fartos de saber o destino preconizado por Bolsonaro e seus asseclas: a “ponta da praia”, o vilipêndio, o extermínio.

Mas nem a “claque” está segura com Bolsonaro no poder.

Basta ver o resultado do levantamento divulgado na última segunda-feira 24 pelo jornal Valor Econômico, apontando o efeito nefasto da pregação negacionista de Bolsonaro sobre seus apoiadores mais renhidos. Segundo a pesquisa, quanto mais votos o presidente obteve em uma localidade, em 2018, maior a taxa de mortalidade por Covid-19.

Nos 215 municípios onde o ocupante do Planalto ultrapassou os 80% dos votos válidos no segundo turno 2018, a taxa de contaminação pelo coronavírus supera 10.400 casos por 100 mil habitantes. Nos 108 municípios onde a votação de Bolsonaro ficou abaixo dos 10%, a taxa de casos de Covid-19 é de 3.781 casos por 100 mil habitantes.
Para Bolsonaro, os coleguinhas de passeio de moto, os figurantes dos mergulhos na Praia Grande ou os devotos do cercadinho do Alvorada não são companheiros ou apoiadores.

São bucha de canhão a quem ele ridiculariza — “Estou vendo uma barata em seu cabelo”, disparou o racista a um apoiador com cabelo Black Power —, trata com grosseria ou simplesmente incentiva a se contaminar, patrocinando aglomerações irresponsáveis e comportamentos de risco, como a negação das máscaras e das vacinas.

Bolsonaro não consegue olhar com empatia nem para os mais arrebatados de seus apoiadores. Nem esses são identificados como “povo”, “gente”, “pessoa” — até porque para entender esses conceitos é preciso um mínimo de humanidade, característica estranha ao homem que infelizmente governa este País e a seus jagunços.

O resultado é que apoiar Bolsonaro — se você não pertence à pequena corte de ungidos — é um comportamento de risco. É ser escalado como cobaia na experiência macabra conduzida, ao arrepio da ciência, da ética e do bom senso, chamada “criação da imunidade de rebanho”.

Em qualquer lugar do mundo, espera-se que um governante — de qualquer canto do espectro ideológico — seja eleito para olhar por toda a população. Bolsonaro é um presidente tão ruim que eu já me daria por satisfeito se ele cuidasse apenas de seus eleitores. Até porque, quem não acredita nele corre menos risco nesta pandemia.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É senador pelo PT do Rio Grande do Norte.

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