Neste sábado, a periferia vai às ruas contra a fome

Os protestos servirão para mostrar que os famintos não têm condições de esperar até a eleição do próximo ano

Protesto do movimento em Brasília

Protesto do movimento em Brasília

Frente Ampla

Muita gente se pergunta o porquê de o povo não ir às ruas diante do desemprego explosivo e da epidemia de fome no Brasil. A tese de que o brasileiro é passivo e conformado acaba por ecoar, inclusive, em meios progressistas. É um retumbante equívoco. De fato, os tempos de passagem da insatisfação à revolta e da revolta à mobilização não são definidos por nossa vontade e envolvem variados fatores sociais e culturais. Mas as periferias e os movimentos sociais fazem mobilizações locais cotidianas no Brasil, em geral destituídas de visibilidade na mídia.

No sábado 13, por organização do MTST e da Frente Povo Sem Medo, ocorrerão “Marchas Contra a Fome” em várias cidades. A partir da rede das mais de 20 Cozinhas Solidárias e de articulações com lideranças de comunidades, as manifestações reunirão milhares de brasileiros que sentem na pele os efeitos da política antipopular de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes. O esforço de dar maior visibilidade ao sofrimento de tantos brasileiros teve um marco importante na ocupação simbólica da Bolsa de Valores em setembro.

O objetivo das marchas é justamente este: colocar na agenda pública um debate que o establishment prefere manter oculto. A pauta dos movimentos está centrada na construção de uma política emergencial de combate à fome. Levantamento do Instituto Vox Populi publicado no início deste ano apontou que 19 milhões de cidadãos passam fome no Brasil, praticamente o dobro de três anos atrás. O aumento deve-se a uma combinação explosiva de desemprego, inflação dos alimentos e desmonte das políticas de segurança alimentar.

Um plano emergencial contra a fome passa por quatro medidas principais.

Primeiro: garantir uma Renda Básica permanente para atender as famílias mais vulneráveis nas periferias e no interior do País. O fim do Bolsa Família e as incertezas de critérios e abrangência do Auxílio Brasil colocam essa meta em xeque.

Segundo: recuperar os estoques públicos de alimentos da Companhia Nacional de Abastecimento, que têm justamente o papel de colocar produtos no mercado para reduzir preços em momentos de surto inflacionário. Bolsonaro desmontou a Conab. Em 2019, o governo vendeu mais de 30 armazéns públicos. É preciso recuperar os estoques reguladores.

Terceiro: retomar imediatamente os programas de estímulo à agricultura familiar, a exemplo do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), para aumentar a produção destinada ao mercado interno. Os programas de crédito e compra pública dos pequenos produtores têm hoje o pior orçamento da história.

E, por fim, quarto: apoiar as redes de distribuição de alimentos nas zonas urbanas mais vulneráveis, como restaurantes populares e cozinhas solidárias.

É possível combater a fome de modo rápido e eficiente, desde que se tenha empenho político. É isso que o ciclo de mobilizações das “Marchas Contra a Fome” pretende pautar na agenda nacional. Nosso país tem um histórico de importantes lutas nessa área, com destaque para o Movimento Contra a Carestia, organizado no início dos anos 1980, em São Paulo, para exigir o congelamento dos preços dos alimentos e aumento do salário mínimo. Naquele período, ainda na ditadura, o Brasil vivia uma grave crise econômica, com fortes paralelos com o momento atual. O movimento nasceu das periferias da cidade, numa articulação com as Comunidades Eclesiais de Base, e promoveu importantes mobilizações e um abaixo-assinado com mais de 1,2 milhão de assinaturas. A falta de respostas do ditador João Figueiredo fez com que a luta se desdobrasse numa radicalização, com a ocupação do Palácio dos Bandeirantes e saques na região de Santo Amaro.

São momentos em que o Brasil real grita e vai às ruas. Nenhum processo de mobilização começa com milhões nas ruas. A dinâmica é de acúmulo de forças. As manifestações do dia 13 vão acontecer em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Maceió, Aracaju, Ceilândia, Boa Vista e Montes Claros. É um importante começo. Em São Paulo, terminará em frente à Catedral da Sé com um evento com o padre Júlio Lancelotti. Mais do que reclamar que o povo está acomodado e não se mobiliza, o papel dos progressistas é apoiar e participar das manifestações populares quando elas surgem. A fome não espera até as eleições de 2022.

Publicado na edição nº 1183 de CartaCapital, em 11 de novembro de 2021.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Foi candidato à Presidência da República em 2018, pelo PSOL.

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