Golpe para proteger bandido

Bolsonaro quer destruir a democracia brasileira para impedir que ele e os filhos sejam presos

O PRESIDENTE JAIR BOLSONARO, EM SÃO PAULO, NO 7 DE SETEMBRO. FOTO: MIGUEL SCHINCARIOL/AFP

O PRESIDENTE JAIR BOLSONARO, EM SÃO PAULO, NO 7 DE SETEMBRO. FOTO: MIGUEL SCHINCARIOL/AFP

Frente Ampla

Jair Bolsonaro abriu mão de ser presidente da República para assumir de forma definitiva o papel de golpista em exercício. Nos atos do 7 de Setembro, na Avenida Paulista e em Brasília, ele deixou claro que não pretende governar nada, até porque não existe governo de fato há muito tempo. Bolsonaro será daqui para a frente o líder de um bando de arruaceiros que usará o cargo para manter o País refém do seu projeto de poder.

A nota escrita por Michel Temer, em que pese a frustração provocada na base bolsonarista, não vai mudar o roteiro golpista. Só os ingênuos e os cúmplices, cada vez mais parecidos entre si, acreditam na sinceridade do bilhete. É ingenuidade porque Bolsonaro sempre fez esse mesmo movimento no tabuleiro, desde que comeu o primeiro pão com leite condensado no Palácio da Alvorada. O presidente sobe o tom, agita a turba com uma enxurrada de ameaças antidemocráticas e alguns dias depois declara que não quis dizer nada daquilo. A estratégia está surrada pelo uso, mas muita gente ainda não aprendeu esse jogo.

Os cúmplices são aqueles que poderiam fazer alguma coisa, mas se aproveitam da nota farsante para mais uma vez colocar panos quentes e deixar tudo como está. Fazem isso porque estão se beneficiando com a tragédia: recebem emendas parlamentares, ganham cargos no governo, especulam na Bolsa com a destruição do Estado brasileiro ou grilam terras na Amazônia.

Se perpetuar no poder é sempre motivo óbvio para os aspirantes a golpista, mas as pretensões de Bolsonaro vão além do puro e simples apego ao cargo. É evidente que há uma questão eleitoral premente. Até as emas do Alvorada sabem que as chances de vitória do presidente em 2022 são menos do que remotas. Ainda tem gente que fala na possibilidade de uma retomada econômica, mas para que isso ocorra é necessário que haja governo. Desenha-se é um cenário muito pior do que vivemos agora: inflação ultrapassando os dois dígitos, miséria crescendo, alta da taxa de juros e risco de apagão. Não dá para aquecer a economia à luz de vela e com o botijão de gás custando 120 reais.

Diante deste cenário, Bolsonaro opta pela estratégia de radicalizar seus 15% de apoiadores extremistas e manter a base mobilizada. Em vez de entregar emprego, comida e saúde para o povo, o presidente prefere saciar o apetite da turba bolsonarista com mais uma porção de ódio: agora dirigido ao Supremo Tribunal Federal, o inimigo da vez. Assim Bolsonaro escreve mais um capítulo da sua eterna guerra contra o “sistema”, para não precisar governar nem prestar contas do seu fracasso como gestor público.

Concordo com a análise do filósofo Marcos Nobre de que os atos do 7 de Setembro foram um ensaio geral para o golpe, pois Bolsonaro não esconde a inspiração na invasão do Capitólio. A diferença é que ele está se preparando com um ano e meio de antecedência. O presidente calcula que, se conseguir manter engajada essa minoria radical, ele tem grandes chances de estar no segundo turno, palco no qual ele deseja subir apenas para questionar o resultado das urnas eletrônicas.

O golpe é questão familiar para Bolsonaro. O presidente está apavorado com a possibilidade de ele, após deixar a Presidência, e os filhos serem presos. O cerco se fecha contra Carlos e Flávio Bolsonaro, que estão sendo investigados por nomearem funcionários fantasmas em seus gabinetes para roubar dinheiro público, esquema que ficou conhecido como rachadinha.

As quebras dos sigilos bancário e fiscal de Carlos mostraram que os mesmos funcionários envolvidos na roubalheira passaram pelos gabinetes dele, do pai e do irmão, o que significa que o clã montou uma rede de desvio de dinheiro público dentro dos mandatos parlamentares da família que funciona há 20 anos.

Antes de Fabrício Queiroz entrar em cena, quem operava o esquema era a então esposa de Bolsonaro, Ana Cristina Valle, nomeada chefe de gabinete de Carlos quando ele assumiu o primeiro mandato como vereador em 2001. Ao todo, 17 parentes de Ana Cristina passaram pelos gabinetes da família. Nos dez anos em que estiveram casados, Jair e a mulher compraram 14 imóveis, sendo 5 em dinheiro vivo! Ou seja, as provas recolhidas até o momento mostram de forma clara que o presidente é o cabeça do esquema e responsável por colocar os filhos no mundo do crime.

É por isso que Bolsonaro fala tanto em golpe. Ele não está preocupado com os 19 milhões de famintos e os 14 milhões de desempregados, também não está ligando para o preço do gás, da luz e da carne. O golpe é para proteger bandido, simplesmente isso. Bolsonaro quer destruir a democracia brasileira para impedir que ele e os filhos sejam presos.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1175 DE CARTACAPITAL, EM 16 DE SETEMBRO DE 2021.

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É professor de história e deputado federal pelo PSOL do Rio de Janeiro.

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