Gestão da economia é outra face genocida do governo Bolsonaro

Um governo que coloca o botijão de gás ao custo de mais de 10% de um salário mínimo é porque quer ver seu povo morrer de fome

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes. Foto: Isac Nóbrega/PR

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes. Foto: Isac Nóbrega/PR

Frente Ampla

A política genocida quanto à pandemia fica cada vez mais evidente, à vista da abundância de provas levantadas pela CPI do Senado. Diante de um vírus com alta capacidade de transmissão, o governo federal adotou o “negacionismo”. Negou a gravidade da doença propagandeando falsas curas, para induzir os brasileiros a se infectar, supostamente em busca de uma “imunidade de rebanho” ao custo de milhares de vidas perdidas. Tenho a convicção de que muitos processos judiciais ainda tratarão dessas tragédias, em tribunais internacionais e nacionais. 

 

 

Essa mesma política genocida Bolsonaro também pratica nas outras áreas de seu governo. Uma delas é a condução macroeconômica do País, atribuição do governo federal intransferível a outros entes federados, por ser ele o responsável por temas como moeda, juros e crédito, e por indicar a diretoria do Banco Central e instituições financeiras públicas. A economia atualmente é gerida de modo desastrado, espalhando a fome, multiplicando a miséria e o desemprego. Dela só se beneficiam pouquíssimas famílias de privilegiados com orçamentos secretos, “rachadinhas” e propinas.

Vejamos o caso da política federal de preços da Petrobras. Nos governos Lula e Dilma, a petroleira cuidava dos preços de gasolina e gás de cozinha com o objetivo de não repassar imediatamente ao consumidor o impacto das oscilações do dólar e da cotação internacional do barril de petróleo. Bolsonaro acabou com essa gestão que a Petrobras fazia, repassando ao consumidor final toda e qualquer variação internacional do petróleo ou do dólar. Na prática, dolarizou o gás de cozinha e a gasolina, produtos elementares do dia a dia dos cidadãos. A cotação do barril cresce internacionalmente e quem paga é o motorista de aplicativo, o caminhoneiro, a dona de casa.

Vamos lembrar que a Petrobras investiu por décadas para descobrir os poços do pré-sal, que hoje garantem a autossuficiência de petróleo para o País. Foi a população brasileira quem pagou por esses investimentos. De que adianta agora o Brasil ser autossuficiente na produção de petróleo, mas cobrar da sua população o preço da cotação internacional de um produto advindo do solo nacional?

O presidente da República ainda vai ao “cercadinho”, no qual se juntam seus poucos apoiadores, para dizer que não é “dono da Petrobras” e, portanto, não poderia definir seus preços. Realmente, ele não é dono da Petrobras, o dono é o povo brasileiro, acionista majoritário da empresa, com mais da metade das ações em posse do Tesouro Nacional. E é quem paga o pato da gasolina cara. Enquanto isso, aqueles que mais se beneficiam dos reajustes recorrentes são os acionistas estrangeiros, minoritários na empresa.

 

Um governo que coloca o botijão de gás ao custo de mais de 10% de um salário mínimo é porque quer ver seu povo morrer de fome. Não há outra explicação.

 

Vemos cada dia mais notícias de brasileiros recorrendo a atitudes desesperadas, como de um cidadão que se queimou tentando cozinhar uma panela de comida numa lata de álcool, como se estivéssemos na Idade das Trevas. É o genocídio provocado por uma política federal inflacionária.

O presidente ainda usa de fake news para dizer que os governadores aumentaram a alíquota de imposto sobre combustíveis. Na verdade, nenhum governo estadual aumentou impostos neste mandato e, só neste ano, houve reajuste de 51% no preço da gasolina. Além de tudo, é uma política anticristã, pois contra todos os princípios de solidariedade que Jesus pregou em sua passagem pela Terra: “Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei” (João 15:12). Em vez da solidariedade, Bolsonaro age como o verdadeiro anticristo, pregando o individualismo exacerbado, em uma Lei da Selva.

Um novo governo deve desativar essas bombas inflacionárias, usando fundos e bancos públicos, além do Tesouro Nacional, para impulsionar a economia, inclusive com a ampliação da capacidade de refino de petróleo. Ademais, não pode existir essa “paridade internacional” automática e imediata. Programas sociais devem existir para o gás de cozinha e para os combustíveis, neste caso sobretudo para transportes coletivos e para a viabilização do exercício de profissões. Lembro, outrossim, a imprescindibilidade do investimento em outra matriz energética que não o petróleo.

Tenhamos força e fé. Em Washington, capital do país para o qual costuma bater continência, Bolsonaro havia anunciado que seu governo tinha de “destruir muita coisa”. Hoje sabemos que nessa “muita coisa” incluía a vida de milhares de brasileiros. Mas a Constituição nos reserva o dia e a hora do acerto de contas com tantos desmandos. E esse dia está cada vez mais próximo.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1177 DE CARTACAPITAL, EM 30 DE SETEMBRO DE 2021.

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Governador do Maranhão. Foi juiz federal e deputado federal. É professor da UFMA

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