Enquanto a população clamava por vacina, eles estavam interessados em propina

A disponibilização de vacinas para a população brasileira é um somatório de diferentes esforços, nenhum deles do governo federal

O senador Randolfe Rodrigues (Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado)

O senador Randolfe Rodrigues (Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado)

Frente Ampla

A análise documental segue no recesso da CPI da Covid e o exame detalhado das informações reforça a atitude deliberada do governo federal em negligenciar a ciência na condução da crise desencadeada pelo novo coronavírus, apostando na estratégia da imunidade de rebanho coletiva e o auxílio de medicamentos ineficazes contra a covid-19 como profilaxia. A sabotagem às medidas de isolamento e a demora na compra de vacinas reforçam o descaso.

A omissão do governo federal ficou patente logo nos primeiros dias do agravamento da pandemia no Brasil com a tentativa de minimizar a sua gravidade. O estímulo ao boicote das políticas de enfrentamento – como o uso de máscaras e distanciamento social – foi perseguido diuturnamente, ao passo que as negociações para aquisição de vacinas foram proteladas ao máximo.

Tais iniciativas, de uma maneira ou outra, acabaram perceptíveis pelo conjunto da sociedade brasileira, alarmada com a explosão de casos e consequências da contaminação pelo novo coronavírus. Foram semanas e mais semanas com milhares de mortes diárias decorrentes da covid-19, colocando o Brasil como epicentro mundial da pandemia.

Ao que tudo indica, tentou-se emplacar uma rotina de desvio de recursos públicos tendo como método o superfaturamento de contratos via empresas intermediárias

De forma semelhante foi percebido o boicote a medidas simples, mas eficazes para conter o espalhamento do vírus: não foram poucas as oportunidades em que autoridades do alto escalão apareceram sem máscaras ou ignorando o distanciamento, distribuindo apertos de mãos e abraços, quando não tossindo ou espirrando em meio a multidões.

Os exemplos são variados e poderíamos listar aqui uma série de atitudes que demonstram tamanho descaso com a vida do povo brasileiro. Entretanto, nada ilustra melhor a negligência governamental do que a protelação na compra de vacinas para imunização da população contra o novo coronavírus. E aqui não falamos apenas na demora para aquisição, mas também da recusa em iniciar negociações com diferentes laboratórios produtores de imunizantes.

A disponibilização de vacinas para a população brasileira é um somatório de diferentes esforços, nenhum deles do governo federal. Este, pelo contrário, manteve uma posição não apenas cética, mas negacionista em relação aos imunizantes, espalhando fake news sobre o tema e postergando a criação de um programa nacional de imunização contra a covid-19. No entanto, o que parecia apenas incompetência, pode ser na verdade um gigantesco esquema de corrupção.

Instalada com o objetivo determinado de investigar as ações e omissões do governo federal que propiciaram o agravamento da crise sanitária desencadeada pelo novo coronavírus, a CPI da Pandemia se deparou no último mês com uma série de denúncias envolvendo o superfaturamento de contratos para aquisição de vacinas, todos com a presença de intermediários na negociação e comissionamento pela participação no processo.

As primeiras denúncias envolviam a compra da vacina indiana Covaxin. Poucos dias depois, foi a vez de surgirem novas denúncias, dessa vez envolvendo a compra da AstraZeneca. Esquemas semelhantes foram identificados também para a CanSino, Sputnik V e CoronaVac. Ao que tudo indica, tentou-se emplacar uma rotina de desvio de recursos públicos tendo como método o superfaturamento de contratos via empresas intermediárias responsáveis por distribuir a propina.

O surgimento desses novos fatos altera substancialmente os trabalhos da CPI da Covid, sendo inevitável a sua prorrogação. A retomada das sessões presenciais está prevista para o próximo dia 3 de agosto com a coleta de novos depoimentos que ajudem a aprofundar as investigações, em especial aquelas envolvendo a compra de imunizantes. Já são mais de 550 mil mortes. E enquanto a população clamava por vacina, eles estavam interessados em propina

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

Junte-se ao grupo de CartaCapital no Telegram

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

É senador pela Rede/AP, professor, graduado em História, bacharel em Direito e mestre em Políticas Públicas.

Compartilhar postagem