Do que se doem os generais?

Os chefes das Forças Armadas e o ministro da Defesa, que saiba, jamais saíram de seus cuidados para lamentar mais de meio milhão de mortos

O presidente Jair Bolsonaro, durante solenidade de Promoção de Oficiais-Generais. Foto: Marcos Corrêa/PR

O presidente Jair Bolsonaro, durante solenidade de Promoção de Oficiais-Generais. Foto: Marcos Corrêa/PR

Frente Ampla

Está na Constituição: “As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, (…) destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem” (Artigo 142).

Em uma democracia moderna, a defesa da Pátria é um conceito bem mais denso e complexo do que a mera troca de tiros com inimigos externos —atividade que, aliás e felizmente, raras vezes foi necessária em nossa História.

Defesa da Pátria, por exemplo, é uma noção que se aplica à proteção da vida do povo que constrói e sustenta, com seu trabalho e impostos, a sociedade e nação fundadas em determinado território.

“Nós somos da Pátria a guarda, fiéis soldados”, promete a Canção do Exército, consagrada como hino da Força terrestre, resumindo o que se espera também de suas irmãs, Marinha e Aeronáutica.

É um belo compromisso, fundado no amor “filial” e “febril” pelo Brasil jurado na letra da canção. Mas para que valha essa jura, é preciso amar muito mais do que um Brasil abstrato. Território, língua, bandeira e hino só fazem sentido se houver gente. O corpo, a pele e o sangue do Brasil são nosso povo.

“Quando altiva for a terra, rebrilha a glória, fulge a vitória”. Mas a terra, senhores generais, senhor almirante e senhor brigadeiro, não é nada sem sua gente.

Os 530 mil mortos na pandemia de coronavírus, os 19 milhões de contaminados, suas famílias aflitas, os parentes agoniados em busca de cilindros de oxigênio não são um povo à parte, uma raça estranha.

Foi com espanto e repulsa, portanto, que li a infeliz nota divulgada na última quarta-feira 7 pelo ministro da Defesa e pelos comandantes das três Forças, repudiando o que não foi dito e calando o que está gritando para ser dito.

Entendi a avaliação pertinente e lúcida do meu colega senador Omar Aziz (PSD-AM), presidente da CPI da Covid como uma manifestação de respeito e solidariedade à História e ao conjunto das Forças Armadas, respingadas de lama pela conduta no mínimo incompetente, decididamente infame e possivelmente criminosa de alguns de seus integrantes retirados de seus afazeres na caserna para supostamente “gerir” a maior crise sanitária já experimentada pelo Brasil.

Os chefes das Forças Armadas e o ministro da Defesa, que eu saiba, jamais saíram de seus cuidados para lamentar mais de meio milhão de mortos, ceifados entre aqueles que constituem a Pátria que os emprega e que têm a obrigação constitucional de defender.

Melindaram-se, porém, com as palavras de um parlamentar eleito, um integrante de um dos poderes que a Constituição manda as Forças Armadas defenderem. Ressentiram-se com a manifestação do senador responsável por presidir os trabalhos de investigação da matança fomentada pelo capitão expulso do Exército e — é cada vez mais nítido — transformada em negócio por um governo psicopata.

O que disse Omar Aziz: “Os bons das Forças Armadas devem estar muito envergonhados com algumas pessoas que hoje estão na mídia, porque fazia muito tempo, fazia muitos anos que o Brasil não via membros do lado podre das Forças Armadas envolvidos com falcatrua”.
Os chefes militares preferiram traduzir a manifestação como uma “uma acusação grave, infundada e, sobretudo, irresponsável” dirigida ao conjunto das Forças Armadas.

Como ninguém chega a general, brigadeiro ou almirante com esse nível rasteiro de interpretação de texto, é urgente para a democracia que se responda a questão: afinal do que é mesmo que se doem os oficiais-generais?

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É senador pelo PT do Rio Grande do Norte.

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