Daltonismo racial

O combate à brutal desigualdade existente no Brasil implica, necessariamente, reconhecer e enfrentar as disparidades raciais e de gênero

Como Lélia Gonzalez  bem observou, enquanto a questão negra não for assumida pela sociedade brasileira como um todo, vai ser muito difícil o Brasil chegar ao ponto de efetivamente ser uma democracia racial  (Foto: Divulgação/Cesar Loureiro)

Como Lélia Gonzalez bem observou, enquanto a questão negra não for assumida pela sociedade brasileira como um todo, vai ser muito difícil o Brasil chegar ao ponto de efetivamente ser uma democracia racial (Foto: Divulgação/Cesar Loureiro)

Frente Ampla

Os dados divulgados pelo Atlas da Violência 2021 confirmam que a desigualdade econômica é atravessada pelas questões raciais e de gênero. Um homem negro tem 2,6 vezes mais risco de ser assassinado no Brasil do que uma pessoa branca. Em 2009, a taxa de mortalidade de mulheres pretas ou pardas era 49% maior que a de mulheres brancas, indígenas ou amarelas. Onze anos depois, passou a ser 66% superior.

Como a antropóloga Lélia Gonzalez (1935-1994) bem observou, “enquanto a questão negra não for assumida pela sociedade brasileira como um todo, negros, brancos e nós todos juntos refletirmos, avaliarmos, desenvolvermos uma práxis de conscientização da questão da discriminação racial neste país, vai ser muito difícil o Brasil chegar ao ponto de efetivamente ser uma democracia racial”. Difícil, para dizer o mínimo. Só é possível consolidar um projeto de desenvolvimento nacional se ele colocar no centro o enfrentamento ao racismo e ao machismo estruturais e compreender suas exatas dimensões na construção da desigualdade.

Mais de 1 milhão de brasileiros cozinham com lenha, em vez de usarem o gás de cozinha. Neste país, 40 mil mulheres, quase todas negras, enterram seus filhos por ano. Temos ainda entre 30 milhões e 35 milhões de pessoas em situação precária de trabalho, incluindo aí desempregados e pessoas com subemprego ou condições de trabalho abaixo do desejado. Mulheres negras recebem ao redor de 57% do salário médio dos homens brancos, ainda que elas ocupem o mesmo posto de trabalho.

Da mesma forma, das ações de rua até a prisão, um conjunto de mecanismos seletivos concorre para fazer dos cárceres territórios predominantemente ocupados por homens negros. Compreender e enfrentar os meandros do encarceramento no Brasil é fundamental para que instrumentos de combate ao daltonismo racial – expressão cunhada por Michelle Alexander no livro A Nova Segregação: Racismo e Encarceramento em Massa (Boitempo, 2017) – sejam desenvolvidos e aplicados na prática, buscando diminuir a porta de entrada do cárcere para negros e alargar a porta da universidade e do mercado de trabalho.

É preciso conferir dignidade a uma parcela da sociedade que historicamente foi empurrada para os abismos do preconceito e da indiferença. É possível que falemos em encarceramento em massa como política racista, pautada em uma cultura escravocrata que apenas modificou a forma e o lugar do aprisionamento racial, legitimada pelo Estado e colocada em prática por agentes estatais acostumados a espancamentos e violações graves aos direitos humanos, quase nunca combatidas por esse mesmo Poder Público, que as autoriza cotidianamente com as suas negligências e concessões.

 

A realidade concreta nos indica, portanto, que tachar as lutas antirracista e antimachista de identitárias é um erro crasso, uma simplificação vulgar daqueles que, equivocadamente, parecem acreditar ser possível derrotar Bolsonaro sem enfrentar o bolsonarismo. Ou seja, o conjunto de ideias que levaram o ex-capitão ao governo e que podem perfeitamente prescindir dele ou de sua liderança para se manter vivo. Não foi Bolsonaro quem criou o racismo, ele apenas faz uso de algo que setores da esquerda ainda dissimulam não existir.

No próximo período, teremos dois imensos desafios: o primeiro, garantir a democracia e uma ampla frente em defesa da democracia. O segundo, concomitante, é garantir que pessoas progressistas, as mulheres e os homens de esquerda, debatam com a população e garantam a construção de um programa eleitoral baseado em um projeto nacional de desenvolvimento sustentável, com os pés firmes não apenas na ideia de que o Brasil pode ser um grande ­país, mas na certeza de que não é possível que seja grande se não enfrentarmos a desigualdade brasileira como ela é: racista e machista.

Publicado na edição nº 1174 de CartaCapital, em 9 de setembro de 2021.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Ex-deputada federal pelo PCdoB

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