Bolsonaro não recuou nem recuará

Lembro bem dos primeiros devaneios de quem acreditava que um ministério 'técnico' iria colocar freios ao capitão

O presidente Jair Bolsonaro em Nova York. Foto: Alan Santos/PR

O presidente Jair Bolsonaro em Nova York. Foto: Alan Santos/PR

Frente Ampla

Na vida há aqueles que se iludem e há também os que gostam de se iludir. É impressionante como setores da elite econômica e da direita liberal saudaram o “recuo” de Bolsonaro após o 7 de Setembro. Numa carta mal-ajambrada e nada convincente, o presidente relativizou as furiosas ameaças proferidas dois dias antes na Avenida Paulista. Bastou. Michel Temer, que ensaiou um bico como ­ghost-writer palaciano, foi aclamado como estadista, com direito a convescote com imitações de quinta categoria.

O ex-presidente golpista, de fato, gosta de cartas. Quem não se lembra da famosa lamúria do “vice decorativo”, utilizada para expor as razões sentimentais da ruptura com Dilma? Sabe-se lá por que Bolsonaro o chamou. Tendo a crer que foi mais por sua relação com Alexandre de Moraes – indicado por ele ao Supremo – do que por suas habilidades como escriba. Ainda não está claro quais pressões fizeram Bolsonaro dar esse singelo gesto, se vieram do “Centrão”, do próprio STF ou de alguma outra força oculta. De todo modo, o maior erro é encarar a situação como um recuo.

7 de Setembro foi uma demonstração de coesão de sua tropa, menor do que esperavam, mas não irrelevante

Bolsonaro não recuou nem recuará. Lembro bem, no início de seu mandato, das primeiras ilusões de que um ministério “técnico”, com figuras como Paulo Guedes e Sergio Moro, iria colocar freios às sandices do presidente. Depois houve os que saudaram a aliança com o Centrão, acreditando que Bolsonaro seria controlado por eles como um cão dócil. Arthur Lira e Ciro Nogueira seriam os fiadores da República. Não demorou por ir também água abaixo. Agora, as ilusões se voltam para Michel Temer. Veremos quantos dias essa ainda vai durar.

Bolsonaro, não nos esqueçamos, é herdeiro do general Silvio Frota, representante da linha-dura do Exército no fim da ditadura. Aquele mesmo que tentou armar um golpe contra o general Ernesto Geisel, por ser contra a abertura lenta, gradual e pacífica. Foi a turma que promoveu o fracassado atentado do ­Riocentro, para criar condições para um novo endurecimento do regime. O general Augusto Heleno, hoje ministro do GSI, era ninguém menos que o ajudante de ordens de Frota. Bolsonaro é golpista por herança e convicção. E nunca escondeu isso.

Além disso, está hoje numa situação delicada. Perdeu popularidade e tem a CPI e investigações criminais no seu encalço e dos filhos. Não é por acaso que seus discursos começaram a incluir a hipótese de prisão. Ele está com medo e, justamente por isso, reage com agressão. A tática bolsonarista desde sempre é dobrar a aposta, fugir para a frente e acreditar no caos. É a forma como mantém mobilizados seus adeptos e garante algum poder de pressão e barganha. A experiência nos mostra que ele sempre volta à carga.

O 7 de Setembro foi uma demonstração de coesão de sua tropa, menor do que esperavam, mas não irrelevante. Aliás, os atos promovidos pelo MBL cinco dias depois mostraram de forma cabal que a base mobilizada da extrema-direita foi totalmente absorvida pelo bolsonarismo. Não sobrou quase nada. Mostrou também que, no Brasil, existem apenas dois campos capazes de levar multidões às ruas: o bolsonarismo e a esquerda organizada nos movimentos sociais e partidos. Diante disso, não há nenhuma razão para Bolsonaro recuar de sua tática. É preciso nutrir muitas ilusões e uma alta dose de desespero para crer nisso.

A bola agora está conosco. Sabendo da força que Bolsonaro ainda preserva, dos riscos de ruptura e do quadro imprevisível para as eleições de 2022 – apesar do favoritismo de Lula – é essencial redobrarmos os esforços na linha de tirar Bolsonaro enquanto é tempo. Os que seguem apostando no caminho de apenas desgastá-lo agora, convictos de que será facilmente derrotado nas urnas, se esquecem que, no Brasil, não há nenhuma estabilidade que garanta as regras do jogo. Há uma boa dose de ilusão nisso. Sei que não é fácil aprovar o impeachment de Bolsonaro. Depende de um deslocamento relevante da direita liberal no Parlamento, uma vez que sua aliança com o Centrão segue firme.

Mas essa deve ser a nossa aposta, a partir de uma iniciativa dupla. De um lado, buscar incidir na crise que os partidos da direita liberal enfrentam, quase todos rachados em relação ao tema, para isolar ainda mais Bolsonaro. De outro, reforçar as mobilizações de rua para criarmos um ambiente social que demonstre o amplo rechaço ao seu governo. Sem rua nunca existiu impeachment. O dia 2 de outubro precisa ser construído por todos nós com empenho e amplitude.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1175 DE CARTACAPITAL, EM 16 DE SETEMBRO DE 2021.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

Responda nossa pesquisa e nos ajude a entender o que nossos leitores esperam de CartaCapital

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Foi candidato à Presidência da República em 2018, pelo PSOL.

Compartilhar postagem