Bolsonaro está cada vez mais acuado pelas denúncias de corrupção

'Isolado, refém de seus devaneios e ciente de sua responsabilidade com a tragédia que assola o País, o presidente subiu o tom'

À mesa, o vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

À mesa, o vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Frente Ampla

A investigação da CPI da Covid sobre as ações e omissões do governo federal, que proporcionaram o agravamento da crise sanitária desencadeada pelo novo coronavírus, entram em uma fase decisiva com o depoimento de personagens chaves do Ministério da Saúde ou ligados à pasta citados no esquema de superfaturamento de contratos para aquisição de vacinas e distribuição de propinas entre aqueles envolvidos nas negociatas.

De um lado, políticos e servidores – incluindo militares – e de outro lado empresas responsáveis pela intermediação das negociações. Entre eles, toda espécie de emissários oferecendo vacinas sem qualquer conhecimento do assunto, senão promessas de facilitar a oferta de doses para o governo federal. Em comum a todos os envolvidos, a suspeita de um esquema bilionário de desvio de recursos públicos na compra de imunizantes.

As descobertas feitas até agora pela CPI são graves e os próximos dias podem revelar ainda mais fatos. Afinal, a documentação já coletada e os depoimentos anteriormente prestados delineiam de forma inequívoca algo de errado com as negociações para compra de vacinas contra o novo coronavírus pelo Ministério da Saúde. Tanto que os contratos objetos de denúncias foram cancelados pelo governo federal, reconhecendo a delicadeza da questão.

 

 

O estrago causado pelas recentes revelações da CPI da Covid e a dimensão do esquema – são vários os imunizantes oferecidos de forma suspeita ao Ministério da Saúde – podem ser medidos na escalada autoritária e histérica do presidente da República, cada vez mais acuado pelas denúncias. Isolado, refém de seus devaneios e ciente de sua responsabilidade com a tragédia que assola o País e matou mais de 560.000 pessoas, Bolsonaro resolveu subir o tom.

É conhecido o expediente utilizado pelo chefe do Poder Executivo: criar factoides e disseminar informações falsas sempre que vê seu desejo autocrata ameaçado, na esperança de manter excitados os extremistas que militam pela sua causa do ódio, da cisão social e da destruição do Estado. Sem projetos, sem ideias, resta-lhe apenas a bravata e a aposta no caos, com a recorrente criação de inimigos para desviar o foco da atenção pública.

Essa tentativa tresloucada de agendamento do debate público quando se vê cercado por denúncias de corrupção e o País à beira do colapso serve apenas para mostrar que a CPI está cumprindo o seu papel ao expor as entranhas da cadeia de eventos que fizeram do Brasil a nação com uma das piores respostas à crise sanitária. Insatisfeito em ver o povo morrer aos milhares, agora busca solapar a nossa Democracia.

A resposta das instituições precisa ser firme e o Congresso Nacional não se furtará em cumprir a sua prerrogativa constitucional impedindo quaisquer abalos na harmonia entre os poderes e a natureza democrática do nosso regime político. A sociedade brasileira está madura o suficiente para barrar aventuras golpistas ou retrocessos nas conquistas republicanas e democráticas.

A CPI é instrumento fundamental para exercício dessas liberdades e alicerce da Democracia. Regimentalmente se constitui como um direito da minoria e fórum de investigação dos grandes problemas nacionais, aperfeiçoando o ordenamento jurídico bem como responsabilizando e punindo agentes públicos e privados em condutas ilícitas junto ao poder público. Uma comissão especial do parlamento que pode mudar os rumos do País.

Não nos curvaremos às ameaças. O recrudescimento do tom deve ser lido como desespero frente àquilo que ainda está por vir. A CPI da Pandemia começa a identificar os personagens da trama que matou mais de meio milhão de brasileiros e em breve eles virão ao palco. Gritam na tentativa de abafarem as vaias. Não conseguirão.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É senador pela Rede/AP, professor, graduado em História, bacharel em Direito e mestre em Políticas Públicas.

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