A incrível descoberta do ministro da Educação

Será que o ministro sabe que 9 mil escolas no Brasil que não contam com fornecimento de água para que as crianças possam lavar as mãos?

Ministro da Educação, Milton Ribeiro (Foto: Isac Nóbrega/PR)

Ministro da Educação, Milton Ribeiro (Foto: Isac Nóbrega/PR)

Frente Ampla

Entre janeiro e abril deste ano, o Brasil registrou 1.479 mortes de profissionais da área de educação, segundo levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, o Dieese, com base no números de contratos de trabalho encerrados por óbito.

Essas 1.470 mortes nos primeiros quatro meses de 2021 apontam um desolador crescimento de 2,2 vezes na taxa de óbitos dos profissionais de educação, em relação ao mesmo período do ano passado, quando o País perdeu 650 integrantes de categorias tão essenciais como professores, faxineiros e porteiros de escolas e merendeiras.

Nesse mesmo período, apenas em São Paulo, o registro de novos casos de Covid-19 entre professores de 25 a 59 anos cresceu 138% em comparação a um crescimento de 81% na população da mesma faixa etária em todo o estado.

Ainda que o levantamento do Dieese não aponte as causas das mortes — e que o Brasil ainda não tenha conseguido recensear o número de baixas da pandemia entre os cidadãos e cidadãs que mantém vivas as nossas escolas — é inevitável relacionar essas perdas com a Covid 19.
Os números que surgem de cada localidade, ainda que não organizados nacionalmente, já nos dão uma ideia: em maio deste ano, só o estado do Mato Grosso registrava 130 óbitos decorrentes do coronavírus entre seus profissionais de educação. No começo de março, Boa Vista, capital de Roraima, já chorava 27 mortos na pandemia entre educadores e profissionais de apoio. Em abril, o DF se dava conta de já ter perdido 84 professores.

Outro estudo, realizado pela USP, UFAbc, Unifesp, UFSCar e pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de SP, concluiu que o risco de contaminação pela Covid-19 aumenta 192% para professores que estão em sala de aula.

No oceano de 546 mil vítimas fatais da pandemia, nenhuma vida perdida é mais relevante que outra. São 546 mil brasileiros e brasileiras imolados nesse redemoinho de desgoverno, descaso e desumanidade que nos dilacera em luto, em perplexidade e indignação.
Ainda mais quando sabemos que a maior parte dessas mortes teriam sido evitadas com um mínimo de atenção do governo Bolsonaro.
Mas está cada vez mais claro que evitar mortes não é objetivo do governo Bolsonaro—e permitam-me não listar aqui todo o roteiro de deboche, estímulo ao risco e a monstruosa decisão de fazer das vacinas um grande negócio para meia dúzia.

Vou me ater apenas à delirante fala do ministro da Educação, que ocupou cadeia nacional de rádio e TV, na última terça-feira 22 para clamar pelo retorno às aulas presenciais, para cessar os “impactos negativos nesta e nas futuras gerações”.

Em um País traumatizado por essa tragédia sem precedentes, onde já não há mais sequer um habitante que não carregue a saudade de pelo menos um morto pela pandemia, o obscuro ministro bolsonarista parece ter descoberto os prejuízos decorrentes de manter as escolas fechadas — mas ainda não se deu conta do esforço sobre-humano de educadores que labutam com os humores da internet, que precisam pagar com seus magros salários, para manter as aulas em andamento.

Será que o diligente ministro se preocupou em aconselhar o presidente a não vetar o projeto para fornecer acesso á internet e tablets para alunos e professores poderem ter acesso às aulas de forma segura? E, com o veto derrubado pelo Congresso, será que intercedeu para impedir que Bolsonaro fosse à Justiça para não ter que cumprir a lei aprovada pelo Parlamento?

“A vacinação de toda a comunidade escolar não pode ser condição para a reabertura das escolas”, diz o ministro, para quem álcool em gel, máscaras e distanciamento seriam suficientes. É o caso de perguntar ao ungido por Bolsonaro para “cuidar” da Educação se ele já entrou em alguma escola pública no Brasil.

Será que o ministro sabe que que há 9 mil escolas no Brasil que não contam com fornecimento de água para que as crianças possam lavar as mãos? Quem 4.300 escolas públicas brasileiras não têm banheiro?

Sou um entusiasta da escola, onde entendo que nossas crianças e jovens têm contato com muito mais do que o conteúdo curricular. É na escola que as crianças brincam, aprendem, se socializam e convivem com a diversidade e as diferenças.

Também considero urgente o retorno às aulas presenciais. Mas o que cabe ao governo não é clamar por esse retorno para forçar o reencontro com uma “normalidade” artificial, teimando no descaso com a vida que é sua característica.

O que cabe ao governo é assegurar a vacina a todos os profissionais de educação e a testagem regular para toda a comunidade escolar e universitária.

Talvez seja querer demais que um governo como esse faça sua parte. Mas é obrigação e, como cidadão e senador da república, vou continuar cobrando.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É senador pelo PT do Rio Grande do Norte.

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