Floresce a esperança em São Paulo

'Disputa entre Covas e Boulos não poderia ser mais ilustrativa daquilo que viveremos no Brasil daqui em diante'

LUIZA ERUNDINA E GUILHERME BOULOS. FOTO: REDES SOCIAIS

LUIZA ERUNDINA E GUILHERME BOULOS. FOTO: REDES SOCIAIS

Opinião

Por Juliano Medeiros e Ivan Valente*

Nas últimas semanas todo o Brasil olhou com atenção para a disputa eleitoral em São Paulo. Na maior cidade do país se enfrentavam no segundo turno o candidato do tucanato paulista, Bruno Covas, e a maior liderança de esquerda surgida na última década, Guilherme Boulos. Ao lado de Covas, um vice suspeito de envolvimento em irregularidades no aluguel de creches. Ao lado de Boulos, nada menos que Luiza Erundina, ex-prefeita de São Paulo e patrimônio vivo da esquerda brasileira.

A disputa entre Covas e Boulos não poderia ser mais ilustrativa daquilo que viveremos no Brasil daqui em diante. O bolsonarismo fora do jogo, com seu candidato derrotado ainda no primeiro turno; a velha direita elitista, representada pelo PSDB, buscando se “repaginar” para parecer menos selvagem do que realmente é; a esquerda se renovando em torno de uma chapa que unia a luta dos movimentos sociais com a melhor tradição das gestões combativas do início dos anos 1990.

A chapa Boulos e Erundina superou enormes dificuldades para chegar ao segundo turno. Foram apenas 17 segundos no horário eleitoral gratuito durante o primeiro turno. Diferentemente de outras candidaturas, Boulos e Erundina não tiveram apoio de nenhuma “máquina” de governo e sua coligação contou apenas com a UP e o PCB, além do próprio PSOL. Ainda assim, São Paulo viu uma onda que foi crescendo semana após semana e levou Boulos e Erundina, contra todos os prognósticos iniciais, ao segundo turno, quando angariaram o apoio dos partidos democráticos e progressistas, além de amplos setores sociais (artistas, intelectuais, movimentos sociais, líderes religiosos, entidades de classe, dentre outros).

A explicação para esse fenômeno parece simples: Boulos e Erundina conseguiram ser profundamente radicais no conteúdo de suas propostas sem deixar de lado o sonho e a esperança. Foi uma campanha alegre que encantou milhões de pessoas em todo o Brasil. Aliás, o carisma da chapa foi avassalador entre os jovens. Mas não foi só carisma. Foi também – e principalmente – a disposição de combater as políticas e os valores neoliberais que ampliam a miséria e estimulam o individualismo.

Além da justa combinação entre conteúdo e mensagem, Boulos e Erundina contaram também com o reconhecimento das lutas que eles mesmos ajudaram a liderar. O PSOL esteve na linha de frente do combate ao ódio, à intolerância, aos ataques aos direitos sociais e à democracia desde o primeiro dia do governo Bolsonaro. Sua coerência, compromisso com a mudança, integridade ética e combatividade tornaram-no atraente para uma geração de novos eleitores progressistas que buscavam renovação e se identificaram com o projeto dessas candidaturas.

A escolha da militância do PSOL mostrou-se correta: a chapa Boulos e Erundina aliou compromisso programático com capacidade de ampliação, combatividade, experiência administrativa, presença nas periferias da cidade, unindo o trabalho de base do MTST à lembrança do vitorioso governo de Erundina.

Muito maior que os mais de 2 milhões de votos que conquistou, Boulos sai do processo eleitoral como um dos grandes líderes da esquerda brasileira. Erundina, por sua vez, mostrou ao país que os sonhos não envelhecem e que a “lei de ferro” que condena antigos socialistas à domesticação ideológica não passa de uma justificativa fácil para aqueles que abandonam a luta.

Foi uma eleição dura para a esquerda. Mas, além de vitórias eleitorais importantíssimas – como Belém, a maior cidade governada até hoje pelo PSOL, com Edmilson Rodrigues à frente – também tivemos vitórias políticas incontestáveis. O PSOL, com Boulos, Erundina e tantos militantes que acreditam no projeto de uma esquerda renovada, continuará lutando por uma São Paulo e um Brasil de todos. Um Brasil socialista e democrático.

Juliano Medeiros, 37, é presidente nacional PSOL

Ivan Valente, 74, é deputado federal (PSOL/SP)

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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