Maria Inês Nassif

Jornalista e cientista social. Trabalhou nos principais jornais do país. Foi assessora do Instituto Lula.

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Flávio foi para a frigideira

Michelle e Valdemar Costa Neto ganham mais se o filho 01 de Jair perder a eleição

Flávio foi para a frigideira
Flávio foi para a frigideira
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Foto: Lula Marques/Agência Brasil
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Eleições 2026

O que está em jogo no lar bolsonarista não é quem vai disputar as eleições presidenciais de outubro – o príncipe ou a rainha, o peão ou o cavalo. Hoje, e depois do Escândalo Master, ninguém consegue definir o verdadeiro valor de face do bolsonarismo. O ex-capitão está na cadeia, cumprindo pena por golpe de Estado. A ideia de um líder forte, encantador de serpentes, sumiu atrás das grades. A reiterada exposição de suas fragilidades físicas desmonta a imagem do Mussolini jabuticaba, do super-herói que vai “livrar o País” de alguma coisa. Seu filho Flávio, autodenominado sucessor político do pai, registra nas pesquisas perdas crescentes entre eleitores antes cativos de Jair. Aquele que se nomeia candidato a presidente por direito de sucessão foi engolido pelo mar de lama do banco de Daniel Vorcaro e de uma relação antipatriótica com os Estados Unidos, a quem só falta pedir explicitamente que lidere um golpe de Estado no Brasil.

O legado político depositado no tabuleiro do xadrez da direita brasileira em 2026 é muito mais que Flávio ou mesmo Jair. O mais importante, para esse espectro, não é perenizar o bolsonarismo, mas um eleitorado conservador que deixou de ser apenas um aglomerado de fanáticos em torno de um líder e passou a reunir um contingente expressivo de simpatizantes, por adesão ideológica, em torno de partidos políticos.

O PL é o principal deles. Embora tenha crescido e se multiplicado a partir da adesão de Bolsonaro, o partido ganhou organicidade apesar dele. O construtor da máquina partidária que floresceu e frutificou nos últimos cinco anos foi o presidente da legenda, Valdemar Costa Neto. Michelle Bolsonaro é parte dessa engenharia política não como esposa de Jair, nem apenas como presidente do PL Mulher, mas pelas relações estreitas com igrejas evangélicas de diversas denominações. Hoje, o partido que era um sopro e vivia à margem do poder federal, qualquer que fosse ele, comendo as sobras, é a maior força de direita do País. Tem quase 1 milhão de filiados, fez uma bancada de 99 deputados federais em 2002, elegeu 516 prefeituras e 5 mil vereadores em 2024 e já começa a eleição deste ano com a vantagem de dez senadores eleitos em 2022, que têm mais quatro anos de mandato.

Flávio Bolsonaro cometeu o erro de trombar de frente com Michelle e Costa Neto. Impôs a sua candidatura como se fosse ordem do pai. Alijou ambos das decisões de campanha. Agiu como um miliciano: entrou no PL Nacional com um chute na porta e expulsou os donos. Patina agora nas pesquisas de opinião, carregando na testa o carimbo de beneficiá­rio de Vorcaro e de vendilhão da pátria. É o candidato que pediu, e conseguiu, dinheiro de Vorcaro e cujo irmão pediu ao governo norte-americano sanções contra o Brasil. É o senador que, agora, sem intermediários, diz que vai colocar à disposição dos EUA uma “equipe de transição” para decidir, se eleito, as relações do Império com o Brasil. Quando for iniciada oficialmente a campanha eleitoral, Flávio irá para as ruas carregando um desgaste do tamanho necessário para impedir uma vitória eleitoral.

O senador esticou tanto a corda que, para o PL, é mais vantagem que ele perca. O que Michelle tem feito, com a cumplicidade de Costa Neto, é jogá-lo às feras. Pode continuar candidato, mas não será presidente. Derrotado, terá a utilidade de puxar uma boa bancada federal, com o auxílio dos votos antipetistas, e sua liderança acabará no dia seguinte à derrota. A política regional, sob controle de Costa Neto, dará ao dirigente partidário uma base parlamentar sólida, com forte poder de negociação. O presidente do PL, um dos líderes mais longevos do Centrão, fará bom proveito disso.

O capital eleitoral evangélico também não cairá automaticamente no colo de Flávio. Ele se espalha por todos os partidos. O Republicano de Tarcísio de Freitas, inclusive, é considerado um partido de propriedade de Edir Macedo, líder único e inconteste da Igreja Universal do Reino de Deus, a maior do Brasil. Nas eleições passadas, definiu como prioridade eleger uma forte bancada federal, capaz de barrar as agendas de esquerda no Congresso. O presidente do partido, Marcos Pereira, nem sequer compareceu à reunião do pré-candidato com os líderes do Centrão no Congresso, logo depois de se autodeclarar candidato pelo PL. ­Silas Malafaia, o presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, ficou de costas para o filho de seu líder após as pesquisas eleitorais mostrarem a debandada de votos evangélicos ao candidato acusado de corrupção. “Não passo a mão na cabeça de corrupto de direita”, disse, selando o rompimento com Flávio. •

Publicado na edição n° 1420 de CartaCapital, em 08 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Flávio foi para a frigideira’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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