Fim da Unasul é a submissão aos interesses de Washington

O desmonte do fórum dos países sul-americanos é mais um lance em favor da hegemonia norte-americana

Fim da Unasul é a submissão aos interesses de Washington

Opinião

Em 11 de setembro de 2010, a prestigiosa revista britânica The Economist, de perfil liberal em economia e conservador em política, publicou uma reportagem especial sob o título “A Ascensão da América Latina”. A capa da publicação era um mapa do continente americano “de cabeça para baixo” (segundo a convenção prevalecente de que o Norte deve estar no alto). Nela aparecia, com grande destaque, a chamada: “Não é quintal de ninguém” (Nobody’s backyard).

Não é necessário ter muita imaginação para intuir como essa imagem e esses dizeres terão mexido com as mentes dos formuladores das políticas externa e de segurança nacional em Washington. O uso do conceito de “backyard”, que, para nós, soa naturalmente pejorativo, se insere em uma visão estratégica e geopolítica corrente, que ganhou contornos mais precisos ao longo da história com a Doutrina de Monroe e o seu famoso corolário Roosevelt (uma referência não a FDR do New Deal e da política de boa vizinhança – sic –, mas a Ted, da “política do porrete”).

Assim se interrompe um processo contínuo de integração e autonomia da América do Sul

Desde a redemocratização de alguns dos maiores países da América do Sul – e especialmente na primeira década do novo milênio – várias iniciativas vinham mudando o perfil geopolítico da região. Entre os avanços mais notáveis figura a criação da União de Nações Sul-Americanas. A Unasul foi formalmente instituída por tratado, assinado em Brasília, em 23 de maio de 2008, por onze presidentes e um vice-presidente, envolvendo todos os países da região. Do ponto de vista político, era a culminância de um longo processo, iniciado com o Mercosul em 1991. De uma forma ou de outra, todos os governos democráticos estiveram envolvidos neste projeto bem-sucedido de integração. A ideia de uma configuração sul-americana remonta à proposta, feita pelo presidente Itamar Franco em 1993, de uma Área de Livre Comércio Sul-Americana, a Alcsa, que se contrapunha no plano conceitual ao projeto da Alca, que englobaria todo o hemisfério.

Um marco importante foi a realização de uma cúpula de presidentes sul-americanos convocada por Fernando Henrique Cardoso em 31 de agosto de 2000. Já durante o governo Lula, teve lugar o processo constitutivo da Comunidade Sul–Americana de Nações (Casa), com a realização de três encontros presidenciais, em Cusco (2004), Brasília (2005) e Cochabamba (2007). Embasando os avanços político-institucionais, importantes iniciativas econômicas nas áreas de infraestrutura, como a Irsa, e do comércio, como o acordo Mercosul-Comunidade Andina, deram solidez ao processo. Muito significativa, até pelo aspecto simbólico, foi a criação, no âmbito da Unasul, do Conselho Sul-Americano de Defesa (CDS), que possibilitou a essa temática sensível ser objeto de consideração sem a tutela dos Estados Unidos. No plano político-diplomático, a Unasul e os esforços que a precederam foram cruciais para o encaminhamento de soluções de disputas internacionais (Venezuela-Colômbia) ou internas (Altiplano-Media Luna, na Bolívia). Na diplomacia multilateral da região, a Organização dos Estados Americanos cedia espaço às iniciativas puramente latino-americanas e caribenhas, como a Celac.

Em paralelo, a configuração de um quadro político e econômico global marcado pela multipolaridade fez com que a América do Sul, como um todo, ou alguns dos países que fazem parte dela, atuando individualmente, alargassem os horizontes de atuação diplomática da região.

Não faz muito tempo, até The Economist reconheceu os avanços do subcontinente

Conferências de cúpula foram realizadas pela primeira vez com países árabes (Aspa) e com nações africanas (ASA) e tiveram reflexos positivos nas relações comerciais e culturais e em negociações internacionais. Iniciativas inovadoras foram tomadas, entre elas o IBAS (fórum Brasil, Índia e África do Sul) e, mais notavelmente, os BRICS, com a presença, além daqueles três países, da Rússia e da China. Em um plano mais imediato, a consolidação da Venezuela como país detentor das maiores reservas de petróleo e a descoberta do pré-sal, entre outros fatores, conferiram à América do Sul – e, por extensão, à toda América Latina e Caribe – valor estratégico renovado, fato que não escapou aos planejadores políticos e especialistas de inteligência norte-americanos. As revelações sobre espionagem por Edward Snowden e os vazamentos do WikiLeaks dispensam maiores elaborações a respeito.

Em muitos países, essas mudanças na forma de inserção internacional foram acompanhadas de importantes reformas internas no sentido de construir sociedades mais igualitárias. Não é preciso acreditar em teorias conspiratórias (muitas delas podem ser verdadeiras, diga-se de passagem) para entender que houve um crescente conluio entre os detentores do poder na potência hegemônica e os setores mais conservadores nos países sul-americanos.

Os retrocessos políticos verificados nos últimos anos, seja por golpe, seja por eleições, com forte interferência externa, têm, além dos conhecidos aspectos internos (destruição do Estado, reversão nos direitos sociais, intolerância, cerceamento de liberdades), uma face internacional, que é o reestabelecimento pleno da hegemonia norte-americana sobre a região. A destruição da Unasul, para a qual tristemente concorre o governo brasileiro, é um marco importante – e trágico – deste processo desagregador. Podemos aplaudi-lo ou lamentá-lo, dependendo de nossas convicções. Mas não é legítimo ignorá-lo, como praticamente fez a mídia brasileira.

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Diplomata, foi Ministro das Relações Exteriores do Governo Lula (2003-2011) e Ministro da Defesa do Governo Dilma Rouseff (2011-2015).

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