Opinião
Filmes que nos obrigam a ser humanos
‘A Voz de Hind Rajab’ e ‘Águias da República’ expõem o horror, a traição e a pedagogia da verdade
“Da gramática da amizade faz parte ainda a completa igualdade, a reciprocidade e a não dependência. Só no reconhecimento da igualdade, só quando a reciprocidade se conjuga de forma livre, a amizade pode finalmente consolidar-se. E ela exige que cada um se baste a si mesmo em autonomia.”
José Tolentino Mendonça
Na vida, nada é mais importante do que a verdade, como Dostoiévski deixou claro em Crime e Castigo, assim como fizeram Tolstói e Turguêniev em suas respectivas obras literárias, que moldariam os séculos XX e XXI.
Por isso, assistir a A Voz de Hind Rajab, filme palestino da diretora tunisiana Kaouther Ben Hania, não pode ser opcional em nossas vidas: tem de ser compulsório.
Sou um bocado emotivo, mas não me lembro de ter chorado de soluçar em outro filme, a ponto de precisar dobrar o tronco sob a força do pranto.
Tratam-se de gravações reais feitas entre uma menina de seis anos e o escritório do Crescente Vermelho na Palestina. O carro em que ela estava com a família foi bombardeado por tanques israelenses, e todos morreram — menos ela. As gravações são originais, o que confere ainda maior dramaticidade ao horror perpetrado pelo exército israelense.
Não pretendo dizer mais nada sobre a película, que concorre ao Oscar de melhor filme estrangeiro e é coproduzida por Brad Pitt e Joaquin Phoenix, que, dessa forma, demonstram que inteligência, ética, talento e beleza não são excludentes — ao contrário.
Quem deixar de assistir saiba que, assim, diminui a própria humanidade.
Em minha vida prosaica, saio sempre com paçocas na bolsa, pois o número de moradores de rua em Porto Alegre e São Paulo é impressionante. Outro dia, um deles me perguntou por que eu fazia aquilo, e respondi que era por mim, não por eles: para que minha humanidade não fosse diminuída, passando indiferente por alguém que busca se alimentar no lixo.
Outro filme imperdível, que também concorre ao Oscar de melhor filme estrangeiro, é o egípcio-sueco Águias da República. Trata, de forma muito original e corajosa, do golpe de Estado que depôs o presidente eleito Mohamed Morsi e instaurou o ditador Abdel Fattah al-Sissi, que ainda governa o país.
É impossível não ver um padrão nos golpes de Estado no Sul do mundo, quase sempre copatrocinados pelos Estados Unidos da América.
Em 1964, o principal promotor do golpe contra o presidente legitimamente eleito João Goulart foi o próprio chefe do Estado-Maior do Exército, Castello Branco, que se tornaria o primeiro ditador da longa noite de 21 anos de horror que se abateu sobre nós.
Não foi diferente no Chile: o principal promotor do golpe que destituiu e assassinou o presidente socialista eleito Salvador Allende foi o ministro do Exército Augusto Pinochet, ditador sanguinário que traria terror inaudito à terra de Pablo Neruda.
No Egito, Al-Sissi era o ministro da Defesa de Morsi, a quem depôs e, mais tarde, assassinou na prisão.
Ou seja: as frutas podres não caem longe do pé. A mentira, a dissimulação e a traição são seu motor. É dessa maneira que opera a extrema direita, financiada pelo imperialismo internacional: nas sombras, como ratos que, de fato, são.
Entretanto, não pensemos que esse operar do Norte ocorre apenas no Sul.
Por que ninguém ligou o fato de a Noruega — um dos maiores produtores de petróleo do mundo, mas cujas jazidas declinam pelo esgotamento dos poços no Mar do Norte — ter concedido o Nobel da Paz à traidora María Corina Machado, que prometera entregar os maiores campos de petróleo da Terra, os venezuelanos, à exploração estrangeira?
Não é óbvia a ligação entre uma coisa e outra? Por que ninguém na imprensa nacional ou internacional fez essa associação evidente entre os dois fatos?
É importante notar que os demais prêmios Nobel são escolhidos pela Suécia, com exceção do Nobel da Paz, cuja escolha é exclusiva da Noruega.
Em Por uma Revolução Africana (Editora Zahar), Frantz Fanon, a propósito da ONU — que em breve provavelmente deixará de existir pela falência múltipla de seus órgãos —, observa:
“Na realidade, a ONU é a carta jurídica utilizada pelos interesses imperialistas quando a carta da força bruta não funciona. […] A finalidade perseguida e atingida era a seguinte: mostrar a ausência de autoridade, provar a carência de Estado. Portanto, provocar o sequestro do Congo. Então, o erro de Lumumba foi, em um primeiro momento, acreditar na amistosa imparcialidade da ONU. Ele esqueceu, curiosamente, que a ONU, em seu atual estado, não passa de uma assembleia de reserva, estabelecida pelos grandes, para levar adiante, entre dois conflitos armados, a ‘luta pacífica’ pela partilha do mundo.”
Os socorristas do Crescente Vermelho, na ausência de qualquer alternativa, também confiaram no Estado de Israel e foram miseravelmente traídos por essa horda de assassinos.
Nunca se pode confiar em genocidas — aqui como na Palestina ou no Congo —, pois é da natureza deles o engano, o derramamento de sangue e, em última instância, a morte.
Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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