Aldo Fornazieri

Doutor em Ciência Política pela USP. Foi Diretor Acadêmico da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), onde é professor. Autor de 'Liderança e Poder'

Opinião

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Fideísmo, guerra santa e eleições

Bolsonaro encarna a visão de que vitória vem com a fé e com o apoio de Deus

Foto: DOUGLAS MAGNO / AFP
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Dentre as linhas estratégicas que incidem nas atuais eleições, escolhidas pelos candidatos, uma das mais importantes consiste na estratégia fideísta. Em síntese, significa o apelo ao elemento irracional ou não racional da fé para vencer batalhas, alcançar objetivos. As guerras de todos os tempos, em graus maiores ou menores, foram feitas, embora não exclusivamente, com estratégias fideístas. Putin a adota em sua ambição imperial, assim como os ucranianos apelam para a divindade e a cruz para defender suas terras e famílias.

O fideísmo implica apelo a uma ou a várias divindades, com destaque a uma divindade “nacional”. Esta divindade, no judaísmo, foi elevada à condição de “Senhor dos Exércitos”, no caso Yahweh, que veio a ser o Deus judaico-cristão. Mas todos os povos tinham seus deuses da guerra. Na tradição bíblica, o fideísmo, na sua forma pura, foi elaborado pelo profeta Isaías no contexto do assédio que o exército dos assírios do rei Senaquerib promoveu a Jerusalém por volta de 702-701 a.C. Ezequias, rei de Judá, apelou para uma estratégia que hoje podemos considerar racional/política: fortaleceu as muralhas da cidade, estocou provisões para suportar um longo cerco e apelou ao faraó egípcio para que enviasse ajuda.

Isaías se opôs a essa estratégia e incitou o rei e o povo que acreditassem exclusiva e incondicionalmente em Yahweh como única forma de salvação. No fim das contas, os egípcios não apareceram. Seguindo o conselho do profeta, Ezequias fez um pacto de vassalagem com os generais assírios, evitando a destruição de Jerusalém. A estratégia fideísta foi considerada vitoriosa. Os próprios assírios adotavam o fideísmo: construíram o império combinando sua poderosíssima máquina de guerra com o patrocínio consensual de um panteão de deuses, incluindo Yahweh, sob liderança de Assur. A inovação de Isaías consistiu em estabelecer a exclusividade e a incondicionalidade da fé em Deus.

Hoje, a estratégia fideísta e da guerra santa foi recuperada por judeus ortodoxos e por evangélicos de extrema-direita dos Estados Unidos, aninhados no Partido Republicano. Ela se dissemina pelas organizações de extrema-direita pelo mundo. As vantagens que oferece são a agregação, a consolidação e a fidelização de ativistas, fiéis, combatentes e eleitores. Numa era de ceticismo, de descrença e de perspectiva de um apocalipse ambiental, os engajamentos fideístas são poderosas trincheiras de autoproteção subjetiva. Nesse terreno, as esquerdas, hoje descaracterizadas ideologicamente, perdem em termos de fidelidade e capacidade de mobilização. Os elementos subjetivos e simbólicos de adesão e fidelidade sempre foram importantes. A campanha petista, por exemplo, oscila entre o vermelho, o verde-amarelo e o branco. Não é nem a estrela nem a cruz.

Estratégias fideístas puras só em condições excepcionais produzem vitórias, mas combinadas a estratégias racionais/políticas/materiais podem produzir resultados significativos. Ideologias, identidades culturais e étnicas são componentes de estratégias fideístas.

Bolsonaro tem adotado essa estratégia desde 2018, aconselhado pelos seus “profetas” Silas Malafaia e o falecido Olavo de Carvalho, entre outros. Atualmente, o próprio ex-capitão é apresentado como “profeta” em círculos evangélicos. Além de estar sob “a proteção do poder divino”, sua vitória foi vendida como manifestação da vontade de Deus. O “propósito de Deus”, na sua escolha, consistiria em afirmar os valores da religião, do cristianismo, da família e, principalmente, do combate à corrupção.

O fideísmo, contudo, não é uma aposta passiva. Deus incitaria seus “exércitos” para que se mobilizem, para que tomem as ruas, visando empoderar a fé, os cristãos, os ativistas. Daí os atos do 7 de Setembro, as motociatas e as mobilizações. Sob este governo, esses aspectos contrastaram com o defensivismo e a apatia das esquerdas e com o medo que delas se apoderou. O fideísmo requer a convicção de que não se vence só com meios naturais, materiais e mesmo científicos. A vitória vem com a fé e com o apoio da divindade.

As projeções indicam que, em 2022, o número de evangélicos, mais suscetíveis ao fideísmo, é de cerca de 30% da população e que na década de 2030 poderá ultrapassar o número de católicos. É um indício de um crescente problema para as esquerdas e para os progressistas. As eleições revelam um impasse, até mesmo uma incapacidade, de lidar com esse problema. A composição do Congresso reforça as tendências conservadoras do futuro. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1230 DE CARTACAPITAL, EM 19 DE OUTUBRO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Fideísmo, guerra santa e eleições”

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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