Opinião

Faz 43 anos: O dia em que Golbery levou Geisel a dar o passo certo

Naquele remoto agosto, perguntei: ‘Que fazer para impedir o pior?’

Golbery e Geisel
Golbery e Geisel

No dia 4 de agosto de 1974, fui encontrar o general Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Civil de Ernesto Geisel, no Palácio do Planalto, em Brasília. Golbery estava cabisbaixo, desolado diante da reprodução do discurso pronunciado um dia antes pelo ditador, nas páginas marcadas com lápis amarelo que jaziam sobre a sua mesa. Meneava melancolicamente a cabeça e repetia à meia-voz: “Veja só o que ele disse”.

 

Golbery acabava de reassumir seu posto depois da operação a que fora submetido na Espanha por um descolamento da retina e que, de volta ao Brasil, o obrigara a transcorrer um inteiro mês em um quarto escuro. Aquele discurso passou à história como “o da pá de cal”. Geisel acabava de enterrar a chamada “distensão lenta e gradual, porém segura”, como ele mesmo dizia. O chefe da Casa Civil perguntou: “Você imagina quem foi o ghost-writer? João Paulo dos Reis Velloso, ministro do Planejamento”. Acrescentou: “Isto é uma coleção de desplantes, além do mais vai precipitar uma temporada crescente de terrorismo de Estado”.

O Merlin do Planalto acertava em cheio. Foi exatamente o que se deu, e seus momentos de maior tensão foram a prisão de alguns jornalistas, o assassínio de Vlado Herzog em outubro, o aparato policial a cercar a Praça da Sé paulistana no dia da missa ecumênica de sétimo dia organizada pelo cardeal dom Paulo Evaristo Arns, e o deslocamento do general José Fragomeni para São Paulo. A operação foi finalmente concluída com a demissão do general comandante do II Exército, Ednardo D’ávila Mello, ceifado pelo próprio ditador, em janeiro de 1976, ao atender as pressões de Golbery.

Ernesto Geisel não gostava de mim, isto é sabido, e foi ele quem empurrou os Civita a me forçar à demissão da revista Veja no começo 1976. Geisel foi celebrado por vários livros, destes destinados a destruir criados-mudos, como quase um herói da distensão, embora estivesse trafegando por uma névoa e considerasse a tortura um recurso perfeitamente aceitável, quem sabe recomendável.

A verdade factual é outra. Desde a sua atuação como ideólogo do golpe de 64, Golbery esteve por trás de quase tudo que se seguiu e usou o seu ditador, diria Kafka, como Sancho Pança se aproveitou de Dom Quixote. Por ele, a ditadura encontra as suas motivações, assim como ela se encerra com as indiretas de 1985 ao pôr os candidatos que há tempo ele havia escolhido, Paulo Maluf e Tancredo Neves.

Tancredo, precavido, acompanhou Golbery num passeio de carro de Ouro Preto ao Colégio do Caraça pelo caminho mais longo. O passeio durou quatro horas, por outro trajeto poderia levar menos de duas horas, mas o governador de Minas desenvolveu um discurso a seu favor, sem perceber que o chefe da Casa Civil já fizera a sua escolha. Algo discrepou do entrecho, as bombas do Riocentro. Golbery solicitou junto a Figueiredo, com quem conservara a chefia da Casa Civil, a demissão do general comandante do I Exército, Gentil Marcondes, responsável mais graduado por aquele gravíssimo atentado, embora ridículo. O general Gentil contava com a proteção do general Octávio Medeiros, candidato in pectore à sucessão de Figueiredo. Golbery foi ao ditador e pronunciou a frase fatal: “Ou Medeiros ou eu”. O general Gentil ficou onde estava e, em agosto de 1981, Golbery demitiu-se. Geisel já se fora ao abrigo da mansão construída a caminho de Petrópolis para guardar ali, entre outras coisas, os presentes recebidos de figuras ilustres em visita oficial.

A Medeiros Golbery me apresentara como “o camarada Dimitrov”, sem que o chefe do SNI entendesse a graça. Golbery era um ser muito cordial, bom conhecedor da alma brasileira, dotado de senso de humor. Leitor infatigável do suplemento literário do New York Times, instalara a sua biblioteca no sítio de Luziânia, adquirido graças à venda da sua casa de Jacarepaguá, guardada por um sapo, segundo se assevera.

Mesmo depois de apeado continuei a visitá-lo. Tinha amigos ricos, mas morreu pobre. Certa vez, ligou-me de Brasília e pediu para comboiá-lo em uma surtida ao Museu de Arte de São Paulo, dirigido por Pietro Maria Bardi, meu caríssimo amigo. No dia, a IstoÉ saíra com uma enorme formiga na capa, encimada pelo rosto de Paulo Maluf e com a seguinte chamada: “Ou o Brasil acaba com Maluf ou Maluf acaba com o Brasil”. Mostrei a revista ao visitante, ele riu muito.

Naquele remoto agosto, a quem me refiro nas primeiras linhas, perguntei a Golbery: “Que fazer para impedir o pior?” Respondeu: “Geisel tem de escolher o nome do seu sucessor, e antes tirar o general Frota do cargo”. Frota era ministro do Exército, pretendente a sucessor de Geisel. Atalhei: “Mas até quando?” Respondeu: “Até dia 12 de outubro de 1977”. Eu, perplexo: “Mas por quê? É o dia de Nossa Senhora Aparecida? Da Criança? Do Descobrimento da América? Da Festa da Uva?” Sem pestanejar, ele repetiu: “Dia 12 de outubro de 1977”. Faz 43 anos exatos. De todo modo, 43 anos atrás Geisel, títere do titereiro Golbery, derrubou Frota e escolheu Figueiredo como sucessor.

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