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Expansão da consciência, apagamento feminino
Enquanto homens foram celebrados como visionários da expansão da consciência, mulheres permaneceram à margem da narrativa psicodélica
A revolução psicodélica dos anos 1960 prometia romper com quase tudo: expandir a consciência, dissolver fronteiras entre sujeito e mundo, desafiar autoridades científicas, morais e políticas. Era, ao menos em sua superfície, um movimento de abertura radical. Mas uma estrutura atravessou essa ruptura quase intacta: o patriarcado cis-heteronormativo.
Ao revisitarmos essa história, os nomes elevados à condição de protagonistas são previsíveis: Timothy Leary, Aldous Huxley, Albert Hofmann, Alexander Shulgin. A narrativa da expansão da consciência foi construída, em larga medida, como uma galeria masculina.
Isso não significa que mulheres estiveram ausentes. Significa que raramente ocuparam o centro da narrativa.
Em alguns casos, o apagamento foi tão profundo que seus rastros sobreviveram apenas de forma fragmentária. Susi Ramstein, assistente de laboratório de Albert Hofmann, é frequentemente apontada como a primeira mulher a experimentar LSD, em 1943. Ainda assim, permaneceu por décadas à margem da história oficial.
Valentina Wasson teve papel decisivo nas pesquisas sobre cogumelos psilocibinos, mas seu nome raramente circula com a mesma força que o de R. Gordon Wasson. Ann Shulgin foi coautora e participante ativa no desenvolvimento de substâncias psicodélicas, embora muitas vezes apareça apenas como extensão de Alexander Shulgin. Laura Huxley contribuiu para reflexões sobre estados alterados de consciência, mas ficou à sombra de Aldous Huxley. Rosemary Woodruff Leary esteve no centro da cultura psicodélica sem receber reconhecimento equivalente.
Fora dos circuitos acadêmicos ocidentais, a assimetria se torna ainda mais evidente. Maria Sabina não apenas participou dessa história — ela a tornou possível. Foi por meio de seus rituais que o interesse ocidental pelos cogumelos psilocibinos se expandiu. Ainda assim, enquanto pesquisadores e escritores se converteram em autores dessa descoberta, Sabina foi frequentemente reduzida à condição de curiosidade exótica — e, em sua própria comunidade, punida por abrir essas portas a estrangeiros.
Na cultura pop, a lógica se repetiu. Grace Slick, no Jefferson Airplane, Janis Joplin, Rita Lee nos Mutantes e Nico, orbitando o universo do Velvet Underground, ajudaram a dar forma estética, sonora e emocional à psicodelia. Não foram apenas intérpretes de uma época: ajudaram a inventá-la. Ainda assim, a memória cultural frequentemente reservou aos homens o lugar de arquitetos do movimento.
Mas talvez a própria ideia de expansão da consciência carregasse outra possibilidade: atravessar também as fronteiras rígidas de gênero. Se a psicodelia propõe dissolver categorias fixas, ela inevitavelmente toca — ou deveria tocar — nas definições tradicionais do masculino e do feminino.
Nesse ponto, o apagamento se torna ainda mais radical. Mulheres trans praticamente desapareceram da narrativa psicodélica clássica — não por ausência, mas por invisibilização.
Suas contribuições, porém, emergem em outras temporalidades. Wendy Carlos ajudou a moldar a música eletrônica que dialoga diretamente com o imaginário psicodélico. Décadas depois, artistas como Arca e Lisa Bella Donna seguem expandindo essas fronteiras em direções sensoriais e experimentais. Dee Palmer, no Jethro Tull, também integra essa linhagem, ampliando não apenas o campo musical, mas as próprias possibilidades de existência dentro dele.
Ainda assim, mesmo em espaços que se pretendem libertários, pessoas trans seguem enfrentando barreiras de reconhecimento e pertencimento.
Essa permanência não é acidental. A revolução psicodélica não surgiu fora das estruturas sociais de seu tempo. Ela nasceu dentro de universidades, laboratórios, circuitos intelectuais e culturais já marcados por hierarquias de gênero. Mesmo em um movimento que pregava ruptura e liberdade, mulheres continuaram frequentemente relegadas aos papéis de assistentes, mediadoras ou musas — enquanto homens ocupavam os lugares de autoria, descoberta e liderança.
A contracultura expandiu percepções e comportamentos, mas nem sempre transformou as estruturas de reconhecimento.
Paradoxalmente, o mesmo movimento que impulsionou a liberação sexual e o questionamento da autoridade não sustentou mudança equivalente na distribuição de voz, memória e legitimidade. A expansão da consciência não significou, necessariamente, expansão de autoria.
Hoje, cresce a presença feminina na pesquisa, na clínica e nos contextos terapêuticos ligados à chamada renascença psicodélica. Cientistas como Rosalind Watts, nos estudos com psilocibina do Imperial College, Katrin Preller, nas pesquisas sobre LSD e percepção, e Monnica Williams, na interseccionalidade entre raça, trauma e psicodélicos, indicam esse deslocamento. Também cresce a presença de pesquisadoras e clínicas no Brasil, ainda que muitos desses nomes permaneçam pouco conhecidos fora dos círculos especializados.
Talvez isso revele menos os limites das substâncias e mais os limites das sociedades que as incorporam. Ampliar a percepção não basta para desmontar as relações de poder que organizam memória, autoria e pertencimento.
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