Opinião

Ex-PM lança livro sobre transformação social por meio da música na periferia

Doutor pela UFBA, Anderson Brasil viveu 15 anos em bairro pobre de Salvador

Anderson Brasil ao microfone e o grupo OBADX. Créditos: Valnei Souza Santos
Anderson Brasil ao microfone e o grupo OBADX. Créditos: Valnei Souza Santos

Anderson Brasil nasceu em Feira de Santana, interior da Bahia, mas aos 9 anos mudou-se para o bairro de Valéria, na periferia de Salvador, onde permaneceu por 15 anos.

Lá, conheceu a realidade de quem vive na pobreza. Aprendeu violão aos 16 anos com um professor voluntário da comunidade. Aos 21, ele mesmo passou a dar aulas do instrumento na associação comunitário do bairro.

No ano seguinte ingressou na graduação de licenciatura em música da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Por falta de condições financeiras da família, no mesmo período fez concurso para a Polícia Militar, tornando-se PM, ficando 12 anos na corporação.

O músico viveu um paradoxo. Depois de presenciar a morte de vários colegas vitimados pela violência, fruto do tráfico de drogas, passou a adentrar em favelas com armamento e aparato policial cumprindo ordens do Estado.

 

“Morava na periferia, trabalhava como policial e paralelamente sempre autuei como professor. Isso era um paradoxo na minha cabeça: um policial, que mora na periferia, dando aula de música. Então estava sempre em cheque com minha crença”, conta Anderson.

“O que é mais forte nesse processo dicotômico é porque de um lado tem o papel opressor do policial que entra na periferia e não reconhece mais os seus. Esse policial é morador de periferia e negro, mas quando ele ingressa no Estado ele não se reconhece mais negro. Agora ele é servidor público e está empossado de uma arma”.

Ele era o exemplo do pensamento clássico de Paulo Freire: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”.

Segue Anderson: “Esse foi meu processo na polícia. Enquanto me reconheci como opressor, eu entrava para oprimir onde não reconhecia mais pobreza e sujeitos do crime. Isso mexeu comigo. Em 2014 pedi exoneração (da polícia)”.

Transição na vulnerabilidade

O recém-lançado livro “Música e Periferia: O Sonho e o Real em um Mundo Negro Chamado Bahia” (Appris Editora), de Anderson Brasil, nasceu dessa reflexão. A obra é fruto de sua tese de doutorado em música pela UFBA.
O livro, com profundo embasamento teórico, trata da profissionalização de jovens na área de música em condições de vulnerabilidade social. O fato do autor ser ele próprio exemplo da situação traz verdade e crueza ao relato incomum em obras acadêmicas.

O objeto de estudo tratado no livro é a Orquestra de Berimbaus Afinados Dainho Xequerê (OBADX).

Anderson Brasil conheceu Wilson Café, um dos grandes percussionistas baianos e que desenvolve o importante projeto social Escola de Educação Percussiva Integral (EEPI). Sabendo desse seu trabalho com a questão da vulnerabilidade social, o percussionista chamou ele para dar aula na instituição.

Na EEPI o autor fez sua primeira pesquisa na área como mestrando. “Nessa pesquisa que fui tentar descobrir porque eles (moradores de áreas carentes da capital baiana) procuravam música. Alguns desejam fuga da realidade, outros por status porque as bandas de axé e pagode na Bahia são um trampolim. Mas o ponto mais forte é que parte buscava projeto social como um meio de ter uma profissão”.

Concluída esse estudo em 2014, que também se tornou um livro lançado dois anos depois, Anderson Brasil estendeu seu trabalho para entender como acontecia essa profissionalização e notou que alguns iam para conhecidos grupos de música de Salvador, como o Timbalada e o Olodum, e outros, acompanhar artistas.

“Foi quando percebi que muitos desses meninos que estavam na EEPI também iam para o OBADX (seu objeto de pesquisa do doutorado). Fui um menino que nasceu na periferia e a música foi um instrumento de translado para uma outra realidade social. E aí eu voltei para o projeto social para devolver essa música. Mas eu notei que esse era um processo comum”, diz.

O papel da capoeira

Wilson Café, fundador da EEPI, por exemplo, teve contato com a música por meio de projeto social. O Dainho Xequerê, que é fundador da OBADX, também reproduz o mesmo processo formativo.

“Ele chega em um dos bairros com muita vulnerabilidade social em Salvador, que é o Cabula, e monta um projeto social e lá começa os ensaios da orquestra, a receber jovens para formação profissional”.

Anderson tornou-se amigo de Dainho Xequerê no EEPI, onde ele era aluno. “Dainho reproduz o formato pedagógico de Wilson Café e começa a dar aula para meninos da periferia”.

O OBADX acaba ganhando destaque no cenário musical baiano, de acordo com o relatado no livro. Foi quando Anderson nota que nesse processo de ensino e aprendizagem da orquestra, muitos meninos passam a ter acesso a bens sociais.

“Aí eu trato essa outra dimensão do ensino da música e num caminho de transição social. Os meninos aprendem música de forma gratuita e quando começam a compreender que eles receberam aquilo de forma gratuita, eles voltam à comunidade para devolver o que receberam”.

O autor do livro Música e Periferia passou quatro anos convivendo com a OBADX e percebeu ainda que existiam elementos de ancestralidade no projeto.

“Quando me dei conta, estava fazendo investigação com jovens negros que professavam fé de religião de matriz africana. E eles tinham laços de ancestralidade com casas do continente africano, como da Nação Angola, Nação Ketu. Acabei mergulhando em outros universos, como da capoeira”.

A capoeira é apontada no livro como elemento de solidariedade existente entre os membros do OBADX e a sua influência é abordada em um capítulo da obra.

“O livro trata de jovens negros que produzem música que corre a margem da sociedade. Essa música traz um grito. Tem muitas falas acerca da violência policial. Eles não são só músicos. Manifestam suas crenças. Na produção artística eles fazem questão de reverberar toda essa luta política, engajamento com questão social. É uma criação artística que traz à tona por que defende princípio basilares da humanidade”.

Atualmente, Anderson Brasil trabalha como professor adjunto na Universidade Federal do Tocantins no curso de Licenciatura em Educação do Campo, com foco em grupo quilombola assentado em terras agrárias, indígenas, pescadores, agricultores familiares e extrativistas.

Anderson Brasil fez ainda pós-doutoramento em educação pela Universidade de Lisboa. O músico tem também álbum autoral lançado em 2014, o Encanto do Sol.

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