Eureca! Sabemos como atua a Lava Jato. Má notícia: regredimos 600 anos

Estou lendo 'O advogado secreto - estórias da lei e de como é violada', muito útil para entendermos o que a Vaza Jato descortina

Foto: Carolina Antunes/PR

Foto: Carolina Antunes/PR

Opinião

Estou lendo O advogado secreto – estórias da lei e de como é violada. Um “best-seller” na Inglaterra, muito útil para entendermos o que a Vaza Jato descortina.

Esclarece o livro: “No século XVI, os juízes não julgavam crimes eles mesmos, porém, mantinham papel fundamental nos processos. Como não havia força policial ou promotor público – e a maioria dos fatos era narrada pela parte que se considerava lesada – os magistrados deviam ajudar na investigação e construir o processo. Eles tomavam depoimentos das testemunhas de acusação (e negavam voz a qualquer testemunha que favorecesse a defesa), obrigando-as a comparecer em juízo. Por meio de interrogatórios, os magistrados extraíam ‘confissões’ dos acusados e traziam as evidências à acusação, da mesma forma como um policial moderno encarregado de uma investigação procede. Não se confunda isso com o procedimento investigativo que ocorre no Continente (europeu); esses falastrões partidários eram explicitamente instruídos a fazer tudo o que estivesse a seu alcance para assegurar ‘qualquer prova material que incriminasse o acusado'” (apud John H Langbein, “As origens do juízo criminal adversário”, Oxford University Press, 2005, p. 40).

Eureca! A boa notícia é que identificamos as origens da forma de proceder da Lava Jato; a má, é que regredimos 600 anos.

Como gosto de combinar leituras, também estou lendo Como funciona o fascismo, de Jason Stanley, editora L&PM, 2a edição.

A combinação permite entender a regressão que fizemos e como foi possível ser feita.

O autor identifica várias vertentes características do fascismo, uma delas, relevante para o entendimento da regressão em apreço, é a anti-intelectual.

A propósito, especifica: “O fascismo consiste na perspectiva dominante, e, assim, durante momentos fascistas, há um forte apoio no sentido de que se denunciem disciplinas que ensinem perspectivas diferentes das dominantes, como estudos de gênero ou, nos Estados Unidos, estudos afro-americanos ou Estudos do Oriente Médio. A perspectiva dominante é muitas vezes deturpada, sendo apresentada como a verdade, a “história real”, e qualquer tentativa de permitir um espaço para perspectivas alternativas é ridicularizada como “marxismo cultural”.

Sim, o presidente, o chanceler e o resto da camarilha bebem nessa vertente. Quem pratica o mal, por definição, não cria, apenas copia, a exemplo da líder do governo, pluricondenada por plágio.
Aquele autor aduz: “Na democracia liberal, os líderes políticos devem consultar aqueles que eles representam, assim como especialistas e cientistas que possam explicar com mais exatidão as demandas da realidade sobre as políticas. Os líderes fascistas são, em vez disso, “homens de ação” sem necessidade de consulta ou deliberação.” Talkei?

Com base nessas premissas, o autor chega à seguinte conclusão: “A raiva e o medo são o que levam as pessoas às urnas”.

Acabo de voltar do supermercado e de conversar com duas repositoras. Uma delas dizia que a filha está há meses sem emprego; a outra, que fora graças ao emprego anterior que pudera comprar casa no Nordeste.

Eu observei que não via condições de melhora com o atual governo, mas que teremos eleições no próximo ano.

Aquela cuja filha está desempregada manifestou a incerteza quanto ao voto. Eu apenas perguntei: como era sua vida nos governos Lula e Dilma? Ela disse: bem melhor. Eu então observei: já sabes em quem votar. Ambas assentiram.

Com efeito, banir o conhecimento é objetivo precípuo do fascismo, como nota o autor em questão: “No mundo inteiro agora, vemos movimentos de extrema direita, atacando as universidades pela disseminação do “marxismo” e do “feminismo”…Na política fascista, as universidades são degradadas em discursos públicos e os acadêmicos são ignorados como fontes legítimas de conhecimento e expertise, sendo representados como “marxistas” ou “feministas” radicais, que estariam espalhando um plano ideológico esquerdista sob o disfarce de pesquisa.”

Mais adiante esclarece: “Mas na política, e mais notadamente na política fascista, a linguagem não é usada simplesmente para transmitir informações, mas para provocar emoção”.

Sem sombra de dúvida, foi dessa forma que o fascismo venceu as últimas eleições presidenciais aqui: obnubilando a razão e demonizando a oposição. Uma vez suprimido o raciocínio, os eleitores não foram mais capazes de se lembrarem das benesses dos governos Lula e Dilma e embarcaram na aventura fascista, que lhes prometia uma ascensão antissistêmica, que na verdade era justamente o contrário, como vemos todos os dias pelas perdas de direitos, de soberania, pelo aprofundamento da plutocracia, da intolerância, do racismo, da homofobia e da violência em geral.
E concluo com uma última citação daquele autor, que explica a selvageria: “Para o fascista, o princípio da igualdade é uma negação da lei natural, que… supostamente coloca homens acima de mulheres e membros da nação escolhida do fascista acima de outros grupos.”

As razões de “Brasil acima de tudo” e as relações privilegiadas com o imperialismo israelense atual também ficam transparentes sob essa ótica.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da Organização das Nações Unidas (ONU) e representante, alterno, do Ministério das Relações Exteriores no extinto Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

Compartilhar postagem