Paulo Gala

Professor de Economia da FGV-SP, foi economista, gestor de fundos e CEO em instituições do mercado financeiro. É autor, entre outros, de Brasil, uma Economia que Não Aprende

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Estatais, IA e soberania

Telebras, Serpro e Dataprev: as empresas que sustentam a corrida brasileira na era da Inteligência Artificial

Estatais, IA e soberania
Estatais, IA e soberania
O presidente Lula (PT). Foto: Ricardo Stuckert/PR
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Se, no século XX, a soberania de uma nação se media pela capacidade de gerar energia, produzir aço e controlar as telecomunicações, no século XXI ela passa a ser medida também em parâmetros, tokens e racks de servidores. A Inteligência Artificial tornou-se a infraestrutura cognitiva sobre a qual operam governos, escolas e forças de segurança. E, como toda infraestrutura crítica, ela impõe uma pergunta. Quem a controla?

O mundo vive a maior corrida de investimento em infraestrutura da história moderna. As projeções apontam, só neste ano, cerca de 600 bilhões de dólares em data centers. O Brasil entrou nessa disputa atraindo projetos privados de hiperescala com sua energia limpa e abundante. Mas atrair capital estrangeiro é apenas metade da equação. A outra metade, a decisiva, é construir capacidade computacional pública, sob jurisdição e comando brasileiros. E aqui entram três estatais que quase foram vendidas: Telebras, Serpro e Dataprev.

O contexto é a estreia, em maio de 2026, do SoberanIA, primeiro ecossistema comercial brasileiro de IA generativa em português para o setor público. Seu coração é o Soberano 1, modelo de linguagem de 30 bilhões de parâmetros, treinado com 500 bilhões de tokens em português, que chega com produtos prontos: atendimento unificado ao cidadão, boletins de ocorrência por voz, material didático e agentes que analisam processos do SEI. A arquitetura institucional revela um novo modelo. AWS e Oracle entram com escala e capacidade técnica, mas os dados sensíveis de governo e Defesa ficam em sala-cofre operada pela Telebras, em território nacional e sob leis brasileiras.

A Telebras estende, assim, sua função histórica de escudo digital do Estado. A empresa que construiu a Rede Privativa da Administração Pública Federal desenvolveu criptografia nacional com a Abin e opera o Satélite Geoestacionário de Defesa que agora protege o ativo mais sensível da era da IA. Há ativos cujo valor não aparece no balanço, mede-se pela capacidade de proteger o País contra vulnerabilidades externas.

O Serpro, maior empresa pública de Tecnologia da Informação do País, assinou memorando para usar a plataforma, cooperar em pesquisa e integrá-la aos sistemas federais – Gov.br, SEI, Sigepe. É o elo que transforma um modelo de linguagem em serviço público funcionando na ponta.

A Dataprev completa o tripé. A estatal hospeda mais de 55 bilhões de dados extremamente sensíveis – toda a espinha dorsal da Previdência, do trabalho e da renda – e opera, juntamente com o Serpro, a Nuvem Soberana de Governo, projeto de mais de 1 bilhão de reais que combina soberania dos dados (armazenamento sob leis brasileiras) e soberania operacional (gestão por empresas públicas em data centers próprios). Seu presidente, Rodrigo Assumpção, é explícito: a Dataprev quer ser a fornecedora de capacidade de IA para o governo, porque a estatal não pode ter menos capacidade do que o Estado demanda.

Vale lembrar: Dataprev e Serpro estiveram no Plano Nacional de Desestatização até 2023. Privatizadas, o Brasil estaria hoje negociando com acionistas privados, possivelmente estrangeiros, o acesso à infraestrutura que paga 40 milhões de benefícios previdenciários. Retiradas do PND, voltaram a investir e lucraram juntas em torno de 1,2 bilhão de reais em 2024. O dogma de que estatal é sinônimo de prejuízo, mais uma vez, não sobrevive aos dados.

A leitura pela ótica da complexidade econômica é direta. Modelos de IA, ­data centers e nuvens soberanas são produtos de altíssima densidade de conhecimento, o tipo de capacidade que separa economias que comandam seu destino tecnológico daquelas que o terceirizam. Quem depende integralmente de LLMs estrangeiros não terceiriza apenas ­software, terceiriza a camada cognitiva do próprio Estado e a continuidade de serviços essenciais diante de choques geopolíticos. O Soberano 1 não compete em força bruta com os gigantes de fronteira, mas esse não é o ponto. O ponto é o aprendizado tecnológico clássico, aquele que Celso Furtado sempre soube que não se importa pronto, constrói-se fazendo.

Telebras conectando e protegendo, ­Dataprev processando e hospedando, ­Serpro integrando. Investir nessa infraestrutura computacional pública não é nostalgia estatista. É a condição material para que o Brasil mantenha, na era da Inteligência Artificial, o comando do seu próprio ritmo de transformação tecnológica e social. •

Publicado na edição n° 1420 de CartaCapital, em 08 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Estatais, IA e soberania’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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