Luana Tolentino

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Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. É autora dos livros 'Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula' (Mazza Edições) e 'Sobrevivendo ao racismo: memórias, cartas e o cotidiano da discriminação no Brasil' (Papirus 7 Mares).

Opinião

Escola de Joinville é referência na promoção da educação antirracista

Entre tantas qualidades, talvez a principal seja a luta empreendida por profissionais que lá estão para que nenhuma criança negra tenha seus sonhos roubados pelo racismo

Da esquerda para direita: Maria Fabiane, Ilma Alves e Josiane Santana, educadoras da E.M. Monsenhor Scarzello. Créditos: Arquivo pessoal
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Quantos sonhos o racismo já roubou? Esta foi a pergunta que fiz na noite da quinta-feira 24, em um encontro com professores no Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Joinville, município no norte de Santa Catarina. O evento foi organizado pelo gabinete da vereadora Ana Lúcia Martins, primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na Câmara de Vereadores joinvillense.

E é justamente para que nenhuma criança negra tenha seus sonhos roubados e seus direitos violados que a Escola Municipal Monsenhor Scarzello vem desenvolvendo, desde 2020, o projeto “Seu olhar melhora o meu”, que visa a combater práticas discriminatórias que fecham portas e afetam profundamente o desenvolvimento desse grupo.

Tendo como foco principal o êxito e o bem-estar das mais de 700 crianças que estudam na Monsenhor Scarzello, como também as diretrizes da Lei Federal n.º 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino da História e da Cultura Africana e Afro-brasileira em sala de aula, a escola dirigida pela professora Ilma de Souza Alves faz do combate ao racismo um pilar do Plano Político Pedagógico. O debate, as discussões, as práticas educativas que objetivam o reconhecimento e a valorização da comunidade negra estão presentes no cotidiano da Monsenhor, e não somente em datas como o 20 de Novembro – Dia da Consciência Negra, como ainda acontece em muitas instituições de ensino.

A ex-ministra e pedagoga Nilma Lino Gomes nos lembra que a promoção de uma educação antirracista exige estudo, a formação continuada de professores. É exatamente esse caminho que as professoras Maria Fabiane e Josiane Santana, responsáveis pelo projeto, têm trilhado, o que faz com que elas atuem não somente como supervisoras das práticas pedagógicas, mas também auxiliem toda a comunidade escolar na ampliação e no fortalecimento do  “Seu olhar melhora o meu”.

O resultado desse esforço, do compromisso com aqueles e aquelas que historicamente têm sido excluídos dos bancos escolares, é visível nas paredes, nos murais, nas salas de aula, na biblioteca da escola, nas falas e nos discursos. Trata-se de uma escola que abraça e acolhe a diversidade, em que meninas e meninos negros têm acesso a personalidades, livros infantis, brinquedos, materiais escolares nos quais se veem representados de maneira positiva. Como eu já disse repetidas vezes nessa coluna: representatividade importa.

A Escola Municipal Monsenhor Scarzello está situada numa região em que a população é majoritariamente branca, com forte presença de famílias de origem alemã. Desse modo, a dedicação de professores e gestores para a superação do racismo é de suma importância também para as crianças não negras, uma vez que oportuniza a elas perceber a nossa sociedade, a vida e o mundo a partir das lentes da pluralidade, do multiculturalismo e do reconhecimento mútuo. Conforme nos lembra o professor Kabengele Munanga: “O resgate da memória coletiva e da história da comunidade negra interessa não apenas aos alunos de ascendência negra. Interessa também aos alunos de outras ascendências étnicas, principalmente branca, pois ao receber uma educação envenenada pelos preconceitos, eles também tiveram suas estruturas psíquicas afetadas. Além disso, essa memória não pertence somente aos negros. Ela pertence a todos”.

O trabalho de excelência, o compromisso em assegurar o direito humano a uma educação antirracista, inclusiva e democrática, foi o que eu vi com os meus próprios olhos na Escola Municipal Monsenhor Scarzello. Em duas manhãs emocionantes, nas quais pude conversar e abraçar alunos e demais membros da comunidade escolar, contei um pouco da minha trajetória, marcada pela violência racista que sofri de maneira muito intensa quando criança. Estar na Monsenhor foi reviver esse passado de dor, mas também alimentar o sonho de que os estudantes com os quais conversei certamente poderão contar histórias diferentes das minhas.

Neste momento de tanto descaso e desprezo em relação à educação pública, em que pesquisas dão conta de que crianças e jovens negros permanecem sendo excluídos da escola em razão da cor da pele, o trabalho realizado na Monsenhor Scarzello emerge como um farol, um exemplo a ser seguido.

Mesmo sabendo que os desafios ainda são grandes e muitos, afirmo sem sombra de dúvidas que era nessa escola que eu gostaria de ter estudado. É em uma escola como a Monsenhor Scarzello que eu gostaria que as crianças negras tivessem a oportunidade de estudar. Motivos não faltam. Entre tantas qualidades, talvez a principal seja a luta empreendida por profissionais que lá estão para que nenhuma criança negra tenha seus sonhos roubados pelo racismo.

 

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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