Diversidade

Epistemologias de terreiro: patuá e seu poder ancestral

‘Bolsas de mandinga’ são resultado das trocas de saberes entre povos negros que resistem há séculos no Brasil

Patuá é um símbolo de proteção religiosa presente na cultura negra desde, pelo menos, o século XIII. Foto: Eduardo Elesu/Instagram
Patuá é um símbolo de proteção religiosa presente na cultura negra desde, pelo menos, o século XIII. Foto: Eduardo Elesu/Instagram
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“Todos os fundamentos da nossa religião, os nossos dogmas, manifestam-se através do símbolo, pois é a partir deste que os mitos justificam os ritos nos transmitindo a concepção dos nossos ancestrais acerca dos nossos Oríṣa”.

Mãe Stella de Oxóssi, Òşósi: O Caçador de Alegrias, 2006

O famoso patuá está diretamente ligado à religiosidade africana. Seu uso foi identificado já no século XIII junto à expansão do islamismo no reino de Mali cujos habitantes eram os malinkê, conhecidos por mandingas e, no Brasil, por malês.

Os malês são originários da Bacia do Níger e – representados pelas etnias haussá, iorubá, nupe e bornu – chegaram ao estado da Bahia, no final do século XVIII junto ao intenso tráfico atlântico de pessoas.

O patuá é característica marcante dos mandingas. Não por acaso, em As Américas Negras, Roger Bastide afirma que esses amuletos passaram a ser identificados pela sociedade colonial portuguesa e brasileira como “bolsas de mandinga” e o povo malê como “mandingueiros”.

Trazidos junto ao corpo, poderiam ser uma peça avulsa ou uma pequena bolsa carregada no pescoço. O acervo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro abriga o patuá retirado do pescoço de um malê no levante de 1835.

De acordo com Eduardo Sabbag – Olúwo e Eléṣù do Ilê Obá Ketu Axé Omi Nlá – o patuá era (e ainda é) um instrumento poderoso contra as mazelas do mundo material e espiritual e, “além de nos fortalecer, ajuda a manter vivos antigos saberes. Ele funciona como uma esponja, limpando toda negatividade. Os feitos de chifre podem ser colocados dentro de uma casa ou até mesmo na empresa para trazer prosperidade. Os confeccionados em sacos podem ser levados junto ao corpo. Os patuás combinam diversas energias e são compostos por elementos da natureza, como terra de bons lugares, ervas e folhagens, ossos, penas e peles de animais”.

Eduardo Sabbag – Olúwo e Eléṣù

Para o povo malê, somente os “mestres espirituais letrados” podiam elaborar um patuá e essa tradição se mantém, porque “ninguém deve conhecer o segredo. Somente o jogo de Okaran pode determinar os melhores elementos a serem colocados. Cada um tem seu caminho, cada um tem seu destino, cabendo a Èṣù, senhor dos caminhos, e à Ifá, senhor dos oráculos, revelarem os itens a serem colocados naquele patuá. Portanto, não é algo simples, depende de conhecimento ancestral”, explica Eduardo.

É certo que o islã trazido para o Brasil incorporou um sistema de crenças – produto da fusão da diáspora muçulmana com a diáspora negra – que resultou numa religiosidade cheia de particularidades e diretamente conectada aos elementos da natureza, informação colhida da leitura de Os Malês e seus Escritos Sagrados, de Marcus Vinícius de Macedo Cysneiros.

Segundo Daniel Precioso, em Os bentinhos como patuás: O processo de africanização de um objeto devocional católico no Brasil escravista, foi com a intensa “circulação de saberes” promovida, sobretudo, pelos encontros de negros residentes no Brasil e negros residentes em Portugal que os traços socioculturais e muitos elementos da religiosidade africana foram ressignificados.

Todavia, não houve rompimento com as tradições. Os patuás, assim como outros símbolos africanos, não se sujeitaram a um processo de “catolização” como muitos sugerem.

Ao contrário, alguns objetos de devoção católica que passaram por um “processo de africanização” para serem acomodados à religiosidade africana. Ainda como aponta Precioso, os rosários e os bentinhos – verdadeiros amuletos cristãos – são expressões disso.

A gente sabe que toda forma de manifestação negra foi repudiada pela sociedade colonial (e segue sendo pela sociedade do Capital!). Portar “bolsas de mandinga”, por exemplo, era considerado crime e chegou a representar 32,3% dos denunciados e processados pelo Tribunal da Inquisição em Portugal, segundo informações apresentadas por Daniela Buono Calainho, em Metrópole das mandingas: religiosidade negra e inquisição portuguesa no antigo regime.

Mas, é preciso apurar o olhar e desconstruir essa perspectiva eurocêntrica de que a ruptura forçada da população negra com suas raízes cosmológicas e a aglomeração de diferentes etnias africanas em uma mesma região teriam provocado uma espécie de “heterogeneidade cultural” que destruiu seus traços culturais e religiosos.

Segundo nos mostra Precioso, a história mostra que a concentração dos centro-africanos nas lavouras de café de São Paulo forjou a cultura protobanto e a de nagôs na Bahia tornou o iorubá a língua franca da comunidade negra baiana. Ou seja, a comunidade negra, estrategicamente, redefiniu conceitos e estabeleceu novos elos sociais que não só garantiram sua existência, como combateram a escravidão.

Mãe Stella de Oxóssi nos ensina sobre a importância dos nossos símbolos por saber que é através deles que nossos hábitos religiosos são confirmados e nossa história perpetuada. Olhamos para o patuá não somente como um símbolo de resistência mandinga, mas também como um símbolo de saber ancestral que nos permite reexistir dentre as múltiplas formas de expressão do povo preto.

Renata Coutinho

Renata Coutinho
Doutoranda em Relações do Trabalho pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Mestra e Especialista em Direito do Trabalho pela PUC-SP. Advogada.

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