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Médica, professora titular da UFRJ, coordenadora do Grupo de Pesquisa e Documentação sobre Empresariamento da Saúde

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Enfrentar a subalimentação

A obesidade não é um contraponto à fome. Ela é, ao contrário, uma extensão da desigualdade, decorrente do consumo excessivo de alimentos ultraprocessados

Enfrentar a subalimentação
Enfrentar a subalimentação
A epidemia de obesidade é uma situação de emergência para a saúde pública (Foto: Marcos Santos/USP Imagens)
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Com o decréscimo de dois indicadores, insegurança alimentar e fome, o Brasil foi retirado de um trágico mapa que registra a indiferença moral de governos com as mais básicas condições de sobrevivência de parcelas da população.

Josué de Castro, multicientista, médico, geógrafo, sociólogo, a quem devemos estudos extensos sobre a fome como fenômeno social, ficaria feliz. Há muito a ser comemorado. Sair do mapa da fome significa mais estabilidade e melhor acesso a alimentos. Expressa também um esforço de superação de falsas ideias sobre a desnutrição e baixa estatura como condições naturais e perenes da inferioridade de habitantes de determinadas regiões e localidades.

Reduzir a prevalência da subalimentação abre perspectivas para novos avanços. Houve melhora na aquisição de alimentação saudável. Mas a proporção de pessoas que ainda não têm como garantir refeições adequadas, 23,7% em 2024, é alarmante.

Simultaneamente à redução da desnutrição, ocorre aumento de sobrepeso, obesidade e doenças crônicas associadas à alimentação. Entre 2006 e 2023, a frequência de adultos com obesidade aumentou de 11,8% para 24,3%. A transição nutricional, expressa pela sobreposição da redução da desnutrição e aumento de sobrepeso, obesidade e doenças crônicas associadas à alimentação, também tem sido objeto de políticas públicas recentes.

A partir de 2022, rótulos de alimentos industrializados passaram a informar excesso de sal, gorduras saturadas e açúcar na parte frontal das embalagens. No início de 2025, foi aprovada uma lista de produtos que integram a cesta básica, contendo apenas alimentos minimamente processados e ingredientes culinários zerando impostos para itens saudáveis.

Outros passos importantes para impactar positivamente as correlações entre alimentação e saúde foram a revalorização do salário mínimo e a alocação adequada dos recursos para o programa Bolsa Família.

Entretanto, o controle do uso de pesticidas agrotóxicos, inclusive os proibidos em outros países, segue insensível às evidências sobre riscos à contaminação das águas e alimentos. Ameaças externas, como a sobretaxação de exportações de produtos nacionais pelo presidente dos EUA e o aquecimento do clima, que podem comprometer a produção de alimentos, sugerem a reversão do uso irresponsável de recursos naturais.

Interesses e práticas imediatistas do agronegócio se opõem a um padrão estável e sustentável de segurança alimentar, baseado em incentivos estáveis e progressivos para a agroecologia e garantia da oferta de alimentos saudáveis e acessíveis.

Na outra ponta, a do tratamento cirúrgico e farmacológico para obesidade, situam-se abissais desigualdades no consumo de cirurgias bariátricas e compra de “canetas”. O reconhecimento científico sobre a eficácia de drogas que atuam regulando a liberação de insulina e reduzindo o apetite, mas são caras, representa um desafio incontornável para o SUS.

Apesar do início da produção nacional de medicamentos análogos à semaglutida, de pronunciamentos esparsos de prefeitos sobre a distribuição pelo SUS de Ozempic e de controvérsias sobre a obrigatoriedade de planos de saúde privados pagarem, o País ainda não delineou uma política estruturada para o tratamento de pacientes obesos.

Josué de Castro não assistiu às mudanças no perfil nutricional da população, mas suas reflexões permitem compreender que a obesidade não é um contraponto à fome. Pelo contrário, mantém pontos de contato com as desigualdades pretéritas, agora pelo consumo excessivo, pelos segmentos de menor renda, de alimentos com alto teor de ingredientes artificiais, como corantes, aromatizantes, emulsificantes e conservantes.

Segundo depoimento de Jorge Amado no filme Josué de Castro: Cidadão do Mundo, de Silvio Tendler, ele “teve a ousadia de sonhar com um mundo onde não houvesse fome de alimentos, de conhecimento, de liberdade, onde não se ocultasse a verdade e onde todos os problemas pudessem ser discutidos e pagou um alto tributo pela ousadia”.

Em 1964, aos 56 anos, Josué de Castro, então embaixador do Brasil junto às Nações Unidas, em Genebra, foi cassado. Incomodar não era algo que o incomodava. Enfrentou a dissimulação, teve a coragem de estudar a realidade sem a escamotear, e apresentar soluções.

Personalidade reconhecida internacionalmente, obteve duas vezes indicações para o Nobel da Paz. Quando 40 milhões de brasileiros deixam de estar expostos à insegurança alimentar grave, Josué de Castro se faz presente, nos convocando ao atrevimento, a propor um programa para evitar retrocessos e ir além. •

Publicado na edição n° 1374 de CartaCapital, em 13 de agosto de 2025.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Enfrentar a subalimentação’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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