Empoderamento e os perigos do esvaziamento leviano de conceitos

Uso esvaziado de conceitos prejudica compreensão crítica necessária para grupo socialmente vulneráveis

Foto: Ivo Gonçalves (PM/PA)

Foto: Ivo Gonçalves (PM/PA)

CartaCapital,Justiça,Opinião

“Onde ninguém fala sobre o poder é onde é inquestionável, e, em sua inquestionabilidade é, ao mesmo tempo, mais seguro e grande. Onde se fala sobre poder, começa a sua derrocada.” 

– Ulrich Beck

Quando as pessoas falam sobre empoderamento de maneira leviana e distorcida, elas eliminam uma das possibilidades de fortalecimento da luta anti-racismo e de todas as lutas por equilíbrio e justiça sociopolítica.

Empoderamento é um conceito em disputa, sim, como bem pontua Madalena Leon, socióloga colombiana, do mesmo modo que outros conceitos “brigam” para que sua definição seja legitimada, de acordo com a necessidade que o meio social demanda, como mulher ou negritude, por exemplo, (o que é ser mulher, o que é ser negro, etc.).

Mas há um start no pensamento que formaliza o conceito, que começa em Paulo Freire como marco teórico, embora ele não tenha aprofundado teoricamente, se valendo dessa palavra e das bifurcações conflituosas e equivocadas que ela produziria, por ser um neologismo que surge a partir de uma outra palavra, cujo conceito também é pouco pensado e muito distorcido, como veremos à frente…

 

Falo em marco teórico, pois o marco intuitivo veio das mulheres negras, como bem pontua Ângela Davis, uma das referências do livro, quando em ‘Mulheres, raça e classe’ ela afirma que as negras escravizadas desenvolviam trabalhos múltiplos de sustentação e ressignificação dos efeitos das opressões raciais para evitar a sucumbência de toda população negra que vivia em restrição nas senzalas. 

O desenvolvimento da consciência crítica profunda é, sem dúvida, a experiência pessoal mais significativa no processo de empoderamento. Essa é a semente mais concisa do conceito, plantada por Paulo Freire. Segundo Freire, consciência crítica é o processo por meio do qual as pessoas adquirem uma compreensão cada vez maior e mais eficiente das condições socioculturais e políticas que incidem e moldam suas vidas para além das limitações sociais básicas, e da extensão de sua capacidade de alterar de maneira lúcida essas condições. 

Uma pessoa vive não apenas no presente, mas também na história, estabelecendo uma continuidade cronológica, mas também política, social, cultural, cognitiva, etc., que a torna apta não só a interpretar, mas também articular essa interpretação, compreendendo profundamente os caminhos que trouxe ao grupo social e a si ao ponto em que está, ao locus social que vivencia.

Além disso, essa continuidade, quando não é intencionalmente limitada como resultante das dinâmicas opressoras, fornece ao menos a noção do quanto esses caminhos delimitaram sua existência social presente e quais as possibilidades de que dispõe para ressignificar e criar novos caminhos, erradicando tudo que se transformou subdesenvolvimento sociopolítico e cultural. Mas isso só é possível quando provocado e conduzido pelo processo de desenvolvimento da consciência crítica, que vai construir elementos para outras consequências sociais negativas, o que torna o processo de empoderamento essencial e básico para toda a aprendizagem humana e para o desenvolvimento social positivo.

Mas essa conscientização não para por aí, é preciso aplicá-la, como o fez a assistente social e psicóloga Barbara Briant Solomon, com as comunidades negras norte-americanas, da década de 1970, em estado de extrema vulnerabilidade social. 

Não por acaso, a figura histórica de Solomon confirma o apontamento de Davis sobre o entendimento intuitivo de mulheres negras escravizadas, do empoderamento enquanto conceito com alto potencial emancipatório. Barbara trabalha de diversas formas os estímulos necessários, partindo da conscientização e perpassando outras áreas que estruturam a vida individual e coletiva daquelas comunidades, tendo em vista que se estamos falando de um processo, estamos entendendo que há outros elementos a serem tratados, simultaneamente, para que o resultado ser o que se espera.

É importante destacar que, todo e qualquer trabalho de aplicação do conceito é sumariamente impregnado pela intenção exclusiva de promover a emancipação sociopolítica, cultural e cognitiva, simbioticamente individual e coletiva, de grupos minoritários no acesso aos direitos que de alguma forma já estão garantidos.

Um bom exemplo é a discussão muito propagada sobre “meu corpo, minhas regras”.

A princípio, obvio que se nosso corpo nos pertence, as regras são nossas. Mas ao tentarmos colocar em prática esse direito, deparamo-nos com diversas violências e imposições, manifestas em níveis opressores interseccionalmente variados, que vão reduzir o “meu corpo, minhas regras” a mero instrumento de manutenção do que estamos tentando combater.

Ou seja, não basta sabermos que as regras são nossas, é preciso saber de que maneira confrontamos o que nos impede de exercer o direito ao corpo livre, inclusive de nós mesmas, já que muitas de nós mantém uma fixação silenciosa que deseja alimentar o voyeurismo que objetifica, sem se dar conta que essa é uma dissidência da manifestação do domínio cognitivo imposto pelo machismo, que nos convence de que mostrar é ser livre, quando essa liberdade está associada ao uso/abuso e nada tem a ver com poder em qualquer instância.

Link para o livro Empoderamento, por Joice Berth

Mas todo o potencial do conceito de empoderamento se enfraquece e se resume a uma simples utopia, quando os feminismos ora ignoram sua possibilidade e complexidade, ora distorcem seu significado real e emancipatório para alavancar falsas ações de fortalecimento e valorização individualista que, entre outras coisas, mantém a exclusão de outras existências.

Muitas mulheres feministas, falam de empoderamento ou se dizem empoderadas, a partir de conquistas pessoais rasas para a coletividade (apesar de importantes para elas), sem se dar conta do quanto seu pertencimento ao grupo minoritário de mulheres, coloca essas conquistas em estado permanente de desmonte, devido à fragilidade de seu status social de oprimida. 

O mesmo ocorre com pessoas negras que conseguem ascender socialmente. Elas não avaliam que ainda que possam desfrutar minimamente de uma condição financeira diferenciada do restante do seu grupo, seu status social permanece marcando lugares e definindo as suas relações dentro e fora de seu grupo. 

O empoderamento de uma mulher que é pobre e pertence a uma minoria étnico-racial que está na base da pirâmide social em diversos níveis, como de renda, por exemplo, expressa-se em seu entendimento e consciência da dinâmica de sua condição de oprimida, e não em seus sucessos individuais em alcançar a autoaceitação estética ou ocupar um cargo de “poder” e decisão na empresa em que trabalha.

O processo de empoderamento dessa mulher será expresso pelo seu entendimento de que sua consciência deve estar em ação articulada com os outros do seu grupo, que estão confinados na mesma situação social para que, coletivamente, consigam criar meios de resistir aos efeitos da opressão em suas vidas. 

Sobre o poder

Mas também há uma lacuna estrutural nas discussões ou no uso esvaziado do conceito de empoderamento: a ausência dos questionamento e reflexões sobre o que significa o próprio conceito de poder, cuja palavra entra na composição do neologismo Empoderamento.

Não costumamos discutir, em nenhuma das frentes de luta social, o que oprime ou onde está o potencial opressor em ação. Discutimos sempre quem oprime bem como suas principais dinâmicas. Ao esquecermos de abrir a discussão acerca do que sustenta a ação opressora, muitos equívocos e fragilidades são criados.

Por exemplo, o que coloca o homem branco no topo da pirâmide social sem sombra de dúvidas é toda uma gama de ações e tecnologias que se valem das diferenças biológicas que acabam servindo à lógica de hierarquia entre pessoas e grupos. Mas para toda e qualquer ação é necessária uma permissão coletiva ou uma neutralização da ação conjunta de permitir (ou pensar que deve haver permissão).

Esse é o ponto de partida para a conceituação exata do poder e para entendimento holístico do que significa qualquer tipo de opressão.

Arrisco dizer que uma opressão é apenas a definição do que é perceptível diante da falta de poder, que é estrutural. Ainda não compreendemos exatamente o que é uma opressão estrutural e com frequência, nas discussões sobre relações raciais, quando falamos para alguém que está localizado no grupo privilegiado, este assimila que há algo pessoal na crítica, quando na verdade, ao falar em racismo, machismo, etc., estamos falando em como a sociedade foi organizada, distribuída e construída sob as bases dessas opressões.

Essa tendência manifestada pela personalidade social brasileira, de pessoalizar toda e qualquer questão, é um dos caminhos que nos leva a acreditar tão fácil na perspectiva liberal e distorcida do conceito de empoderamento, uma vez que, os meios políticos, sociais e a mídia hegemônica em geral, nos vende empoderamento como uma palavra oca, cujo principal significante é o fortalecimento individualista e elitizado. 

E ao não entendermos o que significa poder, acreditamos que um carro, um cargo de destaque em uma grande empresa (ou ter uma grande empresa) ou ainda a superação de alguma barreira relacionada a autoestima, nos coloca no domínio da centralidade e distribuição do poder.

Ter poder não é ter representatividade, ter poder é justamente não precisar de representatividade, uma vez que se está no domínio das dinâmicas organizacionais da sociedade. Ter poder não é gostar de si mesmo, já que mesmo gostando de mim, não tenho minha humanidade reconhecida e aceita na sociedade. Ter poder não é ter dinheiro ou uma posição de destaque e visibilidade, pois há feminicídios, genocídios e violências diversas delimitando quais vidas importam, também nos espaços de elevado status social e concentração econômica.

Precisamos entender empoderamento enquanto conceito e sair da mediocridade de se ater a palavra oca, ignorando que para além da grafia, da fonética e das construções linguísticas e gramaticais, há significados profundos e independentes que podem emancipar ou neutralizar e continuar oprimindo grupos inteiros de pessoas. 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Joice Berth é Arquiteta e Urbanista pela Universidade Nove de Julho e Pós graduada em Direito Urbanístico pela PUC-MG. Feminista Interseccional Negra e integrante do Coletivo Imprensa Feminista.

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