Embargo da China à carne brasileira perdura, mas queda nos preços internos é incerta

Para além de questões técnicas e sanitárias, o governo chinês está reduzindo o consumo para induzir uma queda no preço da carne

Foto: Istock

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Economia,Opinião

No dia 4 de setembro, após a confirmação de dois casos atípicos de “mal da vaca louca”, a China suspendeu as importações da carne bovina brasileira. Os dois casos foram confirmados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), e foram detectados em frigoríficos distintos, um caso no Mato Grosso e o outro em Minas Gerais. Ainda segundo o MAPA, a suspensão temporária ocorreu em cumprimento aos protocolos sanitários firmados entre Pequim e Brasília para o comércio de carne bovina, e já perdura há dois meses, sem previsão de retomada das exportações brasileiras à China.

O veto chinês mais longo à carne bovina que o Brasil já enfrentou foi em 2010 e durou cerca de dois anos, devido, igualmente, a um caso atípico da ‘vaca louca’

Segundo a Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), há cerca de 110 mil toneladas de carne retidas em portos chineses, com a certificação sanitária anterior, pendentes de liberação das autoridades chinesas, que mantêm o veto mesmo após a confirmação da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) que as ocorrências não representam um risco para a cadeia de produção bovina, tratam-se de casos que isolados e não representam “risco à saúde humana”. 

A indústria pecuária é fortemente afetada com esse embargo, já que o Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina, com 2,2 milhões de toneladas exportadas em 2020, responsável por cerca de 14,4% do mercado internacional, e a China é a principal compradora, representando cerca de 60% das exportações brasileiras de carne bovina congelada no primeiro semestre de 2021, segundo dados do Ministério da Economia.

Pode-se observar que as exportações em outubro de 2021 caíram 56%, em toneladas líquidas, se comparadas ao mesmo período no ano passado, ainda considerando somente os produtos congelados, totalizando cerca de 146 mil toneladas em outubro de 2020, das quais 58% foram destinados à China, contra 63,5 mil toneladas em outubro de 2021, com 13% exportados ao país asiático, ainda segundo o ME. 

Embora alguns analistas tenham aventado a hipótese de que as tensões nas relações Brasil-China durante o governo Bolsonaro possam ser apontadas como motivação para o embargo à carne brasileira. Na realidade, nos últimos anos, a China demonstrou uma sensibilidade maior para as questões de segurança alimentar, principalmente de produtos importados, adotando uma política cautelosa para questões sanitárias, não só com o Brasil mas com outros países ao redor do globo, como por exemplo a Irlanda e o Reino Unido, também com carne bovina.

Além das questões técnicas e sanitárias, segundo Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China, o governo chinês está reduzindo o seu consumo para induzir uma queda no preço da carne, devido ao seu alto preço no mercado internacional. 

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) estima que a suspensão deve resultar na perda de 1,8 bilhão de dólares, caso perdure até o final do ano, já que não há previsão de acabar com este embargo. A ministra da Agricultura Teresa Cristina se disponibilizou a ir pessoalmente a Pequim para uma reunião técnica com as autoridades locais para resolução da situação, todavia foi sinalizado que não seria necessário e o MAPA segue trabalhando para a retomada das exportações junto às autoridades chinesas.

E o preço no Brasil?

Em novembro, completaram-se dois meses de embargo e as perdas econômicas do setor devem ultrapassar US$ 1 bilhão ainda neste mês. O bloqueio chinês já desvalorizou o preço da arroba do boi gordo em cerca de 11,8% em outubro, é a primeira vez que isso ocorre nos últimos 16 meses de acordo com os dados mensurados pelo IPCA-15 que faz uma prévia da inflação oficial do Brasil.

Caso a suspensão prossiga até dezembro, o prejuízo adicional será de US$ 800 milhões, informou a CNA. No acumulado de 2021, as exportações brasileiras atingiram 1,610 milhão de toneladas, uma redução de 2,4% comparada ao ano anterior (1,650 milhão de toneladas). Entretanto, com o aumento da demanda internacional por proteína animal, também houve crescimento da receita em 16% atingindo a marca de US$ 8 bilhões.

 

Caso a suspensão chinesa se mantenha por mais tempo, a tendência é que os frigoríficos comecem a colocar mais carne no mercado interno, forçando a retração dos preços para os consumidores no varejo e açougues. Quando o valor sobe, o impacto no preço nas prateleiras é quase instantâneo, porém quando a demanda internacional cai, especialmente a do nosso maior comprador, os efeitos no bolso dos consumidores brasileiros podem demorar até 8 semanas, tempo médio para girar estoques antigos e distribuidores conseguirem realizar ajustes logísticos e contratuais para novos pedidos.

O embargo da China à carne bovina brasileira é motivado por questões de segurança alimentar chinesa e para pressionar uma queda no preço internacional do produto, enquanto isso a diminuição do preço no mercado interno ainda é uma incerteza.

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Pesquisador do Observatório de Política Externa e Inserção Internacional do Brasil da Universidade Federal do ABC

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