Em nome de quem lutou, ter expectativa de transformar é nosso dever

Em um desgoverno que expressa, em estado bruto, a nossa herança colonial, precisamos reequilibrar nossas expectativas

Manifestações por todo o Brasil pediram derrubada do presidente Jair Bolsonaro. (Foto: Nelson Almeida/AFP)

Manifestações por todo o Brasil pediram derrubada do presidente Jair Bolsonaro. (Foto: Nelson Almeida/AFP)

Opinião

Hoje, o Brasil ultrapassou a marca de 474 mil mortos pelo descaso! Porque é isso: para uma doença que já existe prevenção, não deveria haver mortes. Não a este nível. Estamos morrendo e enterrando os nossos familiares e amigos por conta do descaso de um presidente negacionista que se recusou a comprar vacina e, ainda, debocha de quem sequer pôde enterrar seus entes com dignidade. Debocha, quando não usa máscara. Debocha, quando promove aglomerações. Debocha, quando insiste em vociferar mentiras.

Enfrentamos o colapso generalizado pelo descaso!

Enquanto o presidente afirma existir um tal relatório do Tribunal de Contas que diz que 50% dos óbitos por covid-19 tiveram outras causas – informação desmentida pelo próprio TCU e depois contornada com um mero “eu errei” – a doença se alastra.

E é entre a maioria da população preta, redundantemente a mais pobre e periférica, que a alternativa, dentro deste paradoxo forjado por uma lógica genocida, não pode ser outra a não ser arriscar a vida para garantir sua subsistência e a de sua família ou morrer de fome em casa. Isso, para quem tem casa, já que, segundo estimativa do IPEA, o número de pessoas em situação de rua chegou a 222 mil em março de 2020 e cresceu consideravelmente com a pandemia do coronavírus. Estimativa, porque devido às “restrições orçamentárias” do governo federal não foi possível incluir a população de rua no censo demográfico do IBGE prorrogado para este ano.

Daí a gente se pergunta: qual a expectativa para quem tem a força de trabalho como única possibilidade de existência?

A Covid-19 chega para meter na nossa cara que a desigualdade racial e socioeconômica é elemento de centralidade. Chega, sobretudo, para escancarar um projeto político arcaico, embora com nova roupagem, interessado na desumanização de corpos certos e determinados. Um projeto que aposta na desqualificação do ensino público e privado, na precarização do trabalho e da seguridade social e culmina em mais de 14,4 milhões de desempregados e em 67,5% de endividados – número recorde, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Um desgoverno que expressa, em estado bruto, a nossa herança colonial. Só não vê, quem se alia à essa perversidade. Por isso, é urgente que os nossos espaços de atuação, sejam eles quais forem, sejam espaços políticos comprometidos com o remanejamento desta realidade. Precisamos reorganizar as nossas expectativas diante do caos.

Lembro-me que certa vez me perguntaram: “mas você não criou expectativas demais?”.

Eu diria que sou uma mulher de expectativas. Não no sentido paralisante ou ilusivo, mas no anseio pela transformação e pela verdade, sobretudo porque me tenciono a acreditar naqueles que ao nosso lado se propuseram estar. Sou uma mulher que acredita na ruptura, que projeta caminhos possíveis e que deseja uma realidade que nos contemple.

Creditar confiança nas pessoas, estabelecer alianças, afetos e avançar na luta nos faz, de algum modo, expectativa. Ter estratégia, driblar as engrenagens, refletir sobre uma re-Ori-entação do mundo é ser expectativa. Responsabilidade social, postura política são ferramentas para quem tem esperança na viabilidade de um mundo em que os nossos possam existir em sua plenitude. E ter esperança é uma expectativa.

Então, sim, sou uma mulher de demasiadas expectativas! Sou do “acreditar para ver”! Até porque, o Brasil sempre nos exigiu isso. Mas sou, antes de tudo, uma mulher de Axé, d’Oxum. Não caio em ilusões e conheço as contas que tenho que prestar à minha ancestralidade.

Sei que, muitas vezes, é na baixa expectativa que encontramos a direção. Às vezes, é na dúvida da encruzilhada que encontramos a força sem a qual não trilhamos o ardiloso caminho do rompimento. Num modelo civilizatório como este que nos submete, nos humilha, inferioriza, não há rumo possível que não seja o do fissuramento.

Se a luta de quem nos antecedeu nos trouxe a expectativa de dias mais justos, expectar é nosso dever! É estratégia de (re) existência!

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Doutoranda em Relações do Trabalho, Desigualdades Sociais e Sindicalismo pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Mestra e Especialista em Direito do Trabalho pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Pesquisadora voluntária no Núcleo de Pesquisa e Extensão "O trabalho além do Direito do Trabalho: dimensões da clandestinidade jurídico-laboral" da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP). Advogada.

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