Opinião

Em 2022, precisamos superar o capítulo mais triste da nossa história

O que dizer do atual desgoverno? Só em política externa, retrocedemos pelo menos 200 anos…

Foto: EVARISTO SA / AFP
Foto: EVARISTO SA / AFP

“Qualquer pensamento importante, venha de onde vier, deve ser discutido; e todo pensamento, não importa quem o tenha dito, deve ter nossa atenção.”
Leon Tolstoi.

A vinda do conselheiro de segurança dos Estados Unidos da América (EUA) ao Brasil, Jake Sullivan, na semana passada, gerou especulações, tendo em vista a evidente subordinação atual aos interesses estadunidenses sob o governo ilegítimo, resultante do golpe de estado de 2016, urdido pelos próprios EUA.

Alguns parâmetros das conversas foram apurados: o oferecimento do apoio estadunidense ao Brasil para que se torne “sócio global” da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), em troca do veto ao 5G chinês, parece ter sido o motivo principal da visita.

No continente, só a Colômbia goza desse status. O que resultou para aquele país? A violação em massa de direitos humanos, com repetidos massacres sendo registrados no país, por parte das forças policiais, cuja aliança com a OTAN não foi em nenhum momento questionada por seus membros – os países do Norte – teoricamente preocupados em respeitar os direitos fundamentais.

Quanto à utilização do 5G, cabe perguntar como poderiam muitas das transnacionais operarem aqui, inclusive estadunidenses, sem aquela tecnologia civil, de ponta.

A iniciativa “diplomática” estadunidense tentou, literalmente, “tapar o sol com a peneira”, na medida em que oferece espelhinhos aos nativos, em troca do atraso: a manutenção exclusiva da atividade primária exportadora, como Portugal fizera no período colonial, proibindo à colônia o desenvolvimento de manufaturas.

O verniz “democrata” ao colóquio ingerencista teria sido dado pelo visitante, ao afirmar a confiança da metrópole no processo eleitoral brasileiro, já fraudado no passado, quando o voto era impresso, pelo atual ocupante do Planalto, que busca a volta do voto de cabresto, para que possa ser controlado por suas milícias.

Com efeito, a cena internacional e a nacional lembram, cada vez mais, o período pré-libertação colonial, auge da guerra fria, em que os interesses das metrópoles se sobrepunham às violações de direitos humanos, à soberania das nações, à autodeterminação e ao direito à não-ingerência externa.

Simbólicos dessa regressão foram o recente assassinato do presidente do Haiti e a posterior tentativa de homicídio do presidente de Madagascar. Em ambos os casos de magnicídio, houve envolvimento direto de cidadãos das metrópoles: EUA, no caso do Haiti; e França, no de Madagascar.

Entretanto, a história não volta atrás, embora o relógio da evolução humana possa ser atrasado, por obra do imperialismo e seus comparsas internos, as oligarquias.

Nesse sentido, Leôncio Basbaum, em História Sincera da República recordou, a propósito do retrocesso que ocorrera com o golpe de 1964: “Juscelino assumiu o poder sob o lema de ‘fazer o Brasil avançar 50 anos em 5’. Não o conseguiu senão em parte. Mas o governo do presidente Castelo Branco conseguiu fazer o Brasil retroceder 50 anos em três. O que é possivelmente um recorde, mas do qual não precisávamos.”

O que dizer do atual desgoverno? Só em política externa, retrocedemos pelo menos 200 anos…

No entanto, não tudo são trevas. No caso do Peru, por exemplo, a semente boa dos incas, rebrotou: o governo de Pedro Castillo, o presidente recém-eleito, retirou o país do grupo de Lima, que agrupa governos da direita na região, instrumentos dóceis do imperialismo na legitimação da intervenção externa. Ao lado disso, reiterou apoio à União das Nações Sul-Americanas (UNASUL) e à Comunidade de Estados Latino-Americanos (CELAC).

De fato, não se pode soterrar uma cultura, como a incaica, indefinidamente, embora esse seja o desejo de todo opressor, para atingir seu objetivo último: a alienação.

Com efeito, naquela mesma obra antes mencionada, Basbaum observa, também sobre o golpe de 64: “A mais importante característica do fascismo talvez seja o horror à cultura. Já o falecido Goebbels declarava que, quando ouvia falar nessa palavra, a sua primeira reação era puxar o revólver. Porque o fascismo é, antes de tudo, a supremacia da força bruta contra a inteligência, tal como nas histórias em quadrinhos criadas pelos norte-americanos: os Super-Homens destruindo a murros os sábios e cientistas, todos criminosos e desejando dominar o mundo, ideia que está no fundo de todas aquelas historietas. Seu papel é simplesmente ‘lavar o cérebro’ das crianças, e dos adultos que não chegaram a superar essa fase de crescimento, e desmoralizar a inteligência e o hábito pernicioso de pensar. Essa característica não faltou à revolução dos sorbonistas, cujo mentor ‘intelectual’ era o Marechal Castelo Branco. A primeira medida do novo governo revolucionário foi colocar à testa do Ministério da Educação e Cultura um homem escolhido a dedo: um tal Flávio Suplicy de Lacerda, antigo integralista, Reitor da Universidade do Paraná, o mesmo que mandara arrancar algumas páginas de livros, de Eça de Queirós, Emílio Zola e outros, por considera-las obscenas.”

Rosa Luxemburgo estudou as Missões dos Guarani, o Império Incaico e os Iroqueses no Canadá, que, para ela, foram três das experiências de comunismo primitivo mais importantes da humanidade. No Canadá, está sendo desmascarado o genocídio contra os povos originários, mediante a descoberta de corpos de crianças indígenas em valas coletivas, com centenas de cadáveres; no Peru, a dignidade nacional ressurge, com a eleição de Pedro Castillo; a nós, resta a esperança de que, no ano que vem, poderemos superar o capítulo mais triste da nossa história, para sempre.

Milton Rondó

Milton Rondó
Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da Organização das Nações Unidas (ONU) e representante, alterno, do Ministério das Relações Exteriores no extinto Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

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